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Santos Ferreira defende empréstimos a Berardo

O ex-presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos, Carlos Santos Ferreira, durante a sua audição na II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco, na Assembleia da República. MÁRIO CRUZ/LUSA
O ex-presidente do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos, Carlos Santos Ferreira, durante a sua audição na II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco, na Assembleia da República. MÁRIO CRUZ/LUSA

O antigo presidente da CGD diz que o empresário madeirense deu garantias e afirma que houve mais bancos a dar crédito para compra de ações do BCP.

Carlos Santos Ferreira, presidente da CGD entre 2005 e 2008 que saiu do banco público para o BCP, defendeu os financiamentos que foram concedidos a entidades relacionadas com Joe Berardo. “O parecer da direção geral de risco (DGR) é razoavelmente claro, conclui que é possível conceder o crédito”, respondeu na II Comissão Parlamentar de Inquérito à gestão da CGD.

O antigo responsável da Caixa garantiu que “boa parte das condições da DGR foram satisfeitas”. Isto apesar de, no caso da Metalgest, terem sido concedidos 50 milhões de euros para compra de ações do BCP com uma cobertura de apenas 100%, quando a direção de risco solicitava 120%.

“As condições da DGR não eram em bloco para pegar ou largar. Elencavam-se uma série de condições e algumas eram acomodadas e outras não”, disse Carlos Santos Ferreira. Acrescentou que no caso da Metalgest, e também da Fundação Berardo, havia uma “aparente valia financeira” de quem pediu o crédito.

“A Metalgest tinha à época uma situação líquida de 216 milhões. Era uma holding e tinha ativos disponíveis para venda. Consolidava integralmente empresas de moagem, 86,5% da Bacalhoa, parcialmente a empresa madeira de tabacos, o Savoy, a Quinta do Carmos em 44,8%, tinha disponíveis para venda uma série de empresas”, disse Santos Ferreira.

Segundo uma versão preliminar da auditoria da EY, no final de 2015, existiam créditos de 52,5 milhões à Metalgest (com imparidade de 28 milhões) e de 267,6 milhões à Fundação Berardo (com prejuízo reconhecido de 124,4 milhões). Este empréstimo chegou a ter uma dimensão de 350 milhões.

Santos Ferreira garantiu que neste caso, o devedor não “estava totalmente dependente dos dividendos para pagar os juros dos créditos ou para os amortizar”. Argumentou que esses financiamentos não tinham apenas as ações do BCP como garantia.

Apesar disso, Mariana Mortágua, deputada do Bloco de Esquerda, defendeu que a realidade desmentia os argumentos de Santos Ferreira. “Tanto não havia garantias que Metalgest não pagou”, disse a deputada.

Mariana Mortágua referiu que a direção de risco dizia que a Caixa não podia ficar unicamente exposta às ações que seriam compradas com o financiamento sem uma aprovação prévia. Santos Ferreira respondeu que a “prévia aprovação dos títulos a adquirir foi substituída por uma lista de títulos”. Desse lote, constavam ações internacionais e nacionais, incluindo o BCP que seria o único título a ser comprado com o financiamento da CGD.

O “desígnio” BCP

Cecília Meireles, deputada do CDS, mencionou qual seria o desígnio desses financiamentos. Houve acionistas do BCP que pediram financiamento à CGD para comprar ações do banco e que depois apoiaram Carlos Santos Ferreira para a liderança do banco privado em 2008. “Tenho consciência da ideia do desígnio”, referiu o banqueiro.

No entanto, Santos Ferreira argumentou que houve financiamentos de outros bancos para compra de ações do BCP: o próprio BCP, a CGD, o BES e a o Santander. Em relação à alternativa ao visto prévio defendido pela DGR na compra de ações, que foi substituído por um cabaz de ações que dava a possibilidade ainda assim de comprar ações do BCP.

“Entre pedir autorização e ter lista de títulos que possam comprar, acho preferível a segunda. Já vimos que nestes dois casos os títulos que foram dados como garantia eram os títulos do BCP”, disse. Ainda assim, Santos Ferreira tenta relativizar os prejuízos causados por estes financiamentos com a queda expressiva das ações do BCP. “O valor de uma banco cair 90% não é usual. Não tivesse isto acontecido e não estávamos neste nosso diálogo”, disse.

Mais tarde, em resposta a questões de Duarte Pacheco, deputado do PSD, Santos Ferreira disse que a “teoria de haver financiamentos da CGD e depois alguns membros da administração da CGD terem ido para o BCP, a chamada teoria do assalto ao BCP é um frase fácil que tem como objetivo ocultar que se passou”. Diz mesmo que essa expressão “foi criada por quem perdeu, porque houve quem perdeu”. E recordou que ganhou a eleição com mais de 97% dos votos. “Estamos na categoria do mito urbano”, defendeu.

Carlos Santos Ferreira rejeitou a ideia, defendida por Eduardo Paz Ferreira, antigo presidente do conselho fiscal do banco, de que Joe Berardo era um cliente com tratamento especial.

Atualizada às 19:10

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