juros da dívida

Custo da dívida subiu 20% num mês. Portugal tem teste na quarta-feira

Foto:  EPA/JUSTIN LANE
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Juros da dívida portuguesa a dez anos mais próximos dos 4%. Receios sobre programa de estímulos do BCE e promessas de Trump assustam investidores

O que têm em comum Donald Trump e Mario Draghi? Segundo os analistas de mercados, são os principais responsáveis pela subida descontrolada dos juros da dívida dos países periféricos da Europa que teve início há cerca de um mês e atingiu o pico na semana passada. Portugal não escapou ao turbilhão e os números impressionam.

No espaço de 30 dias, os juros da dívida portuguesa a dez anos subiram mais de 20% e voltaram a tocar a perigosa marca dos 3,8%, pela primeira vez em nove meses. A tendência agravou-se a partir do dia 8, quando foi conhecida a decisão dos norte-americanos sobre o sucessor de Barack Obama na Casa Branca.

Se recuarmos ainda mais no calendário, o intervalo vai alargando. Desde os mínimos registados em meados de agosto, os juros subiram cerca de 43%. E face aos valores de dezembro do ano passado, os custos de financiamento da dívida a longo prazo dispararam 70%.

O papel do Banco Central Europeu nesta escalada é evidente para os analistas consultados pelo DN/Dinheiro Vivo. Todos os sinais apontam para que a partir do próximo ano a instituição liderada por Mario Draghi comece a reduzir os estímulos às economias da moeda única.

“A reunião de 7 e 8 de dezembro do BCE deverá em breve ficar no centro das atenções dos investidores, nomeadamente no que se refere à extensão do programa de estímulos e ao ritmo das compras mensais, que está atualmente nos 80 mil milhões de euros.

A manter-se a política monetária expansionista do BCE, será interessante ver o efeito que terá no atual enquadramento de subida de yields soberanas na zona euro”, observam os analistas da Patris Investimentos.

Numa semana marcada pela aprovação de Bruxelas ao Orçamento do Estado e pela aceleração acima do previsto da economia no terceiro trimestre, a subida dos juros veio arrefecer os ânimos do Governo.

Confrontado com os números, o primeiro-ministro considerou como “muito provável que, ao longo de 2017, perante números que se consolidam sobre o crescimento da economia e a mensagem de confiança da União Europeia relativamente à evolução orçamental portuguesa, os próprios mercados ajustem o custo da nossa dívida face a valores mais compatíveis com a realidade económica do país”.

Mas será que António Costa tem motivos para estar otimista? “Se Mario Draghi avançar com novas medidas de política monetária muito para além da extensão e flexibilização do programa de compra de ativos, pode ser que as taxas de juro caiam. Mas não temos esse como o cenário base”, avançam os especialistas do Banco Big.

A lista de possíveis dores de cabeça para os países periféricos nos próximos meses não se esgota nas escolhas de Draghi. Só na Europa há muito por onde escolher.

“Há o referendo em Itália, que está a gerar uma grande polémica e sobre o qual já se fala numa derrota para o primeiro-ministro Renzi, o que leva a um aumento da aversão pelo risco. Não podemos também colocar de lado as próximas eleições em França e na Áustria e o que os movimentos populistas podem trazer enquanto ameaça”, sublinha Tiago da Costa Cardoso, gestor da corretora XTB.

Foi precisamente nesta categoria que o efeito Trump entrou de rompante. Mas quais são afinal as promessas do presidente eleito que fazem tremer a confiança dos investidores?

“Acima de tudo devido ao seu programa fiscal, que incentiva o consumo, que por sua vez gera inflação que consequentemente pressiona a FED a aumentar as taxas de juro a uma velocidade mais rápida. Daí as taxas de juro estarem a subir, pois os investidores estão a antecipar aumentos mais agressivos caso as medidas de Trump sejam colocadas em prática”, explica o analista da XTB.

Na próxima quarta-feira Portugal vai ser colocado à prova na última emissão de dívida do ano. A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) anunciou um leilão a cinco anos, com o objetivo de angariar entre 500 e 750 milhões de euros. Na última emissão semelhante, que teve lugar no final de outubro, o IGCP conseguiu uma taxa de juro média de 1,751%. Será que aguenta?

“A expectativa é de que haja uma maior procura pela nossa dívida, mas com juros mais altos. É muito difícil contrariar esta subida agressiva das ‘yields’ nestes leilões”, adianta o especialista da XTB, que é secundado pela equipa da Patris. “As taxas irão provavelmente refletir a evolução das yields em mercado secundário”, antecipam.

Face à crescente pressão externa, quais são as consequências expectáveis para a economia portuguesa? “Se as yields estabilizarem nos níveis atuais ou mais elevados, tal implicará custos de financiamento mais elevados para o Tesouro português.

Tendo em conta a elevada dívida pública, um aumento mais forte nos custos de financiamento poderia colocar em causa a sustentabilidade da dívida pública portuguesa”, antecipam os economistas da Patris.

Mas ainda é possível contrariar o choque na curva. Como? “Talvez se Trump não se revelar tão extremo quanto se espera”, conclui o Banco Big. “Mas achamos pouco provável que os juros voltem aos níveis a que estavam há poucos meses. Pelo menos no curto-prazo”. Nos próximos meses todos os olhos estarão postos na Casa Branca.

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