Analistas. Onde investir até ao final do ano

Analistas contactados pelo Dinheiro Vivo recomendam prudência nos investimentos mas identificam oportunidades para perfis menos conservadores.

Cátia Simões

A volatilidade tem marcado os principais índices bolsistas mundiais e a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), a par da queda no preço do petróleo e o abrandamento do crescimento das maiores economias mundiais levou a uma queda nas cotações dos títulos. Numa altura em que as posições de liquidez em carteira subiram quase 6% os investidores podem olhar para este enquadramento como uma oportunidade de compra.

Os analistas contactados pelo Dinheiro Vivo, embora antecipem algumas oportunidades para investidores menos conservadores, recomendam prudência.

João Pereira Leite, diretor de investimento do Banco Carregosa, defende que "o momento atual não é um mar de oportunidades. Nos EUA, o índice S&P está em máximos históricos. Os índices europeus estão menos fulgurantes mas numa tendência positiva, o único que continua deprimido é o índice português", aponta.

Assim, para o especialista, "de uma forma geral, as ações não estão baratas, pois este ciclo de baixas taxas e alívio quantitativo por parte dos bancos centrais tinha precisamente esse objetivo: inflacionar os ativos financeiros criando a sensação de riqueza e por essa via estimular o consumo". Ainda assim, o responsável admite que "existem sempre oportunidades de investimento, mesmo em conjunturas em que a prudência deve vigorar".

Pedro Lino, da DIF, refere que atualmente "pode existir uma pequena correção, mas com as taxas de juro em mínimos históricos, programas de estimulo (como no Japão, cujo banco central reúne esta sexta-feira) e programas de compra de ativos por parte dos bancos centrais que incluem a compra de ações, vejo com muita dificuldade que os mercados consigam corrigir".

Para a equipa de 'research' do BiG a palavra de ordem é mesmo volatilidade. "O atual enquadramento de mercado classifica-se como volátil, o que cria oportunidades de entrada interessantes para investidores menos avessos ao risco. O atual enquadramento macroeconómico e geopolítico – políticas monetárias díspares no bloco europeu vs. norte-americano, as perspetivas de crescimento mais mitigadas, as eleições nos EUA e o Brexit e potenciais ramificações noutros países - justificam a posição mais cautelosa dos investidores e leva a uma revisão em baixa das projeções anuais para os mercados acionistas".

"Contudo, os principais mercados já recuperaram parte e/ou totalidade das perdas despoletadas pela vitória do Brexit, pelo que não obstante as perspetivas mais mitigadas para a evolução bolsista, a obtenção de ganhos (quer via posições longas, quer curtas) não se revela um exercício impossível", refere o BiG.

Visão semelhante tem Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB. "Os fatores que estiveram na origem nas fortes quedas registadas no seguimento do Brexit parecem estar amenizados. Se é verdade que o evento provocou bastante incerteza, exacerbada pela intenção inicial de Cameron em adiar o início das negociações com a União Europeia, a rápida ação dos principais bancos centrais na sinalização de novos incentivos monetários acabou por devolver alguma confiança aos investidores".

Para o analista da XTB, "tudo isto, somado aos múltiplos que se encontram extremamente baixos, particularmente em algumas economias europeias e o facto de estarmos a atravessar o período de "earning season"", leva a que possa "ser precipitada qualquer decisão de 'short' nos ativos de risco". Até porque o excesso de liquidez terá de voltar aos mercados.

No que diz respeito às apostas, estas podem passar pelo setor da saúde, automóvel e tecnologia, com os Estados Unidos em foco.E recomendam não investir na banca europeia, que continua a atravessar um momento de turbulência.

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Para Pedro Lino, "todos os sectores são elegíveis, com a exceção da banca europeia, onde ainda existe falta de visibilidade". Na mesma linha vai a recomendação do diretor de investimento do Banco Carregosa. "Temos evitado o investimento em banca europeia (por três razões negativas: falta de capital, crédito mal parado e taxas baixas que dificultam a rentabilidade)" mas também "empresas de sectores de bens de consumo, que estão bastante caras".

O responsável frisa, contudo, que as avaliações feitas pelo Carregosa são feitas com base numa análise individual e que existem "inúmeras oportunidades em títulos cujo preço está desajustado do seu justo valor, mesmo em Portugal. Em geral, identificamos mais oportunidades em empresas cíclicas, aqueles que variam consoante o desempenho da economia".

Pedro Ricardo Santos também exclui das apostas o setor financeiro e diz que "excluindo o sector financeiro, a aposta deve estar centrada nos títulos que apresentarem o valor mais baixo nos Price Earnings Ratio (P/E)".

Assim, para a XTB, "os activos mais expostos ao sector exportador poderão ser os mais beneficiados no curto/médio prazo devido à depreciação da divisa europeia, já que quanto mais baixo for o valor do euro, maior o incremento nas exportações bem como o aumento dos lucros das empresas com actividades no exterior. Por isso, para comprar, as nossas sugestões passam pelo sector automóvel, tecnológico e healthcare. Em Portugal, devido à elevada exposição à divisa americana, a aposta está claramente no sector da pasta e papel."

A área da biotecnologia, distribuição e consumo nos Estados Unidos também são os sectores apontados por Pedro Lino.

O foco nos Estados Unidos é destacado pela equipa de 'research' do BiG. "Os fundamentos macroeconómicos e as principais métricas de avaliação no mercado europeu revelam-se globalmente atractivas face ao norte-americano. Assim, identificamos sectores como o automóvel (cujo perfil exportador beneficia da queda do euro face ao dólar), o tecnológico (com uma posição sólida) e o health care (com um perfil mais defensivo) para potenciais posicionamentos no mercado accionista europeu."

Apesar dos sinais de alguma estabilização do mercado ainda existem fatores que podem provocar volatilidade até ao final do ano. Contudo, as políticas dos bancos centrais e o enquadramento nos Estados Unidos podem sustentar a evolução das bolsas.

João Pereira Leite aponta "o referendo em Itália no Outono, a negociação do Brexit e a capitalização da banca europeia" mas frisa que "é sempre difícil prever o que acontecerá no curto-prazo".

Pedro Lino acredita que "até final do ano, dependendo da retoma da economia americana, o SP500 irá continuar a atingir máximos históricos, podendo chegar aos 2250 pontos e a Europa deve conseguir anular as perdas anuais".

A equipa de 'research' do BiG acredita que "a introdução de medidas adicionais de política monetária adicionais pelo BCE e Banco de Inglaterra, assim como a manutenção de uma posição 'dovish' pelo Fed (projectamos uma subida nas taxas de juro dos EUA em 2016), poderão sustentar a evolução dos mercados accionistas".

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