Banco do Japão

Bancos centrais. A super quarta-feira dos donos da economia mundial

A Reserva Federal dos Estados Unidos e o Banco do Japão são os protagonistas desta semana nos mercados internacionais.

Chegou o dia B. Esta quarta-feira a Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) e o Banco Central do Japão anunciam o resultado das últimas reuniões de política monetária. Uma convergência rara que vai concentrar todas as atenções e determinar todas as decisões dos mercados até ao final da semana.

Porém, a distância que vai dos Estados Unidos ao Japão é a mesma que separa as expectativas dos mercados em relação ao que será anunciado por cada banco central.

No caso da Fed, são poucos os que parecem ter dúvidas sobre o que vai dizer Janet Yellen. As “casas de apostas” de política monetária, como bancos e gestoras de fundos, dão apenas 20% de hipóteses a uma subida dos juros já esta quarta-feira. Em agosto, as probabilidades eram de 40%. As últimas declarações de membros do conselho de governadores da Fed colocaram a fasquia em baixo.

Janet Yellen (Fed) e Mario Draghi (BCE). Fotografia: EPA/KIMIMASA MAYAMA

Janet Yellen (Fed) e Mario Draghi (BCE). Fotografia: EPA/KIMIMASA MAYAMA

A última portadora de boas novas, na visão dos investidores que estão pouco interessados numa subida dos juros, foi Lael Brainard, que faz parte do comité votante da Reserva Federal norte-americana. A responsável afirmou que o banco central deverá ser prudente antes de retirar os apoios à economia. Para Brainard, os juros só devem subir quando houver sinais mais claros de que a inflação está a recuperar.

Dias antes, o presidente da Reserva Federal de Boston tinha provocado uma derrocada nas bolsas ao afirmar que havia boas hipóteses de a Fed rever os juros em alta já este mês.

Esta terça-feira, dois grandes bancos vieram também colocar um travão à onda de consenso, o que apaziguou os mercados nos últimos dias. Segundo a Bloomberg, o BNP Paribas e o Barclays esperam que a Fed suba as taxas de juro em 0,25% já esta quarta-feira.

Em que ficamos?

Os analistas consultados pelo Dinheiro Vivo são unânimes. Ainda não será desta que Janet Yellen vai lançar a bomba, apesar de no final do ano passado, quando subiu as taxas pela primeira vez em quase dez anos, ter avisado que 2016 seria o ano da viragem e que o mercado deveria estar preparado para quatro subidas dos juros. Afinal, deveremos ter de esperar pelo Natal para desembrulhar uma nova taxa de referência.

Corretores da bolsa de Wall Street em Nova Iorque. Fotografia: Reuters

Corretores da bolsa de Wall Street em Nova Iorque. Fotografia: Reuters

“Os últimos dados apontam para uma economia que está a recuperar gradualmente, e a Fed deverá querer pensar duas vezes antes de por uma pedra na engrenagem. Um aumento lento e cauteloso das taxas de juro é garantido. Depois dos últimos comentários da Fed e dos últimos dados económicos revelados, é muito pouco provável que aumentem os juros esta semana. Será mais provável que aconteça na reunião de dezembro, com os mercados a considerarem que há 50% de probabilidades e que o aumento deverá ser de 0,25%”, afirmam os analistas da Fidelity.

Segundo José Lagarto, gestor de ativos da Orey Financial, “os membros da Fed vêm reiterando que a possibilidade de uma subida de taxa de juro nos EUA é bastante elevada, mas ainda assim dependente dos dados económicos. Apesar de alguns recuos, nomeadamente no mercado de trabalho e no crescimento económico, os dados apontam para um crescimento sustentado nos EUA. Se este cenário se mantiver, as probabilidades de uma subida ainda este ano são elevadas”.

A opinião é corroborada por Rui Bárbara, gestor de ativos do Banco Carregosa. “Os dados macroeconómicos mais recentes dos EUA têm sido fracos, em particular os que resultam dos inquéritos avançados à atividade dos serviços e da indústria. Os dados têm sido dececionantes, sobretudo nos serviços. Se acrescentarmos a ausência de sinais prévios a alimentar a expectativa de uma subida dos juros, diria que a probabilidade é quase nula. Estamos muito longe da Fed da década de 80. Esta Reserva Federal não gosta muito de surpreender”, sublinha o economista, que vai ainda mais longe na análise.

“Desde a crise financeira global os bancos centrais tornaram-se atores principais nos mercados financeiros e deram passos importantes para reavivar o crescimento e a inflação.”

“Se calhar a oportunidade que a Fed teria de subir os juros já passou. O que se discute agora é se a economia norte-americana não estará já na fase descendente do ciclo económico, o que impede, em teoria, uma subida dos juros. Mas é bem verdade que este ciclo económico, desde 2009, é muito estranho e como não temos nenhum caso semelhante desde a II Guerra Mundial, é difícil saber como terminará”, nota o analista.

Um revólver cheio de balas

O lugar estranho em que se transformou o mundo depois do pico da crise trouxe aos bancos centrais um protagonismo sem precedentes na história. As instituições outrora distantes, que tinham como principal tarefa dominar a inflação, passaram a estar no olho do furacão, como bote salva-vidas das economias em apuros. As políticas expansionistas esticaram mais do que muitos julgavam ser possível.

“Tenho a certeza de que a reunião do Banco do Japão vai estar no radar de muitos bancos centrais, e será um evento a não perder.”

“Desde a crise financeira global os bancos centrais tornaram-se atores principais nos mercados financeiros e deram passos importantes para reavivar o crescimento e a inflação. Todas as medidas tradicionais e pouco ortodoxas que foram implementadas até agora, no entanto, não surtiram o efeito desejado. O crescimento global continua estagnado e as pressões inflacionárias permanecem moderadas. Isto fez com que os investidores sentissem que a política monetária atingiu o limite. Mas as munições dos bancos centrais ainda não acabaram, e a política monetária global vai manter-se facilitadora no curto prazo, a não ser que os bancos centrais consigam passar o testemunho a outros agentes, tais como os governos ou o setor privado”, constatam os especialistas da Fidelity.

No país do sol nascente não se vê a alvorada

Do outro lado do mundo surge a prova de que os bancos centrais ainda não esgotaram as armas do arsenal. Às primeiras horas da manhã desta quarta-feira, Haruhiko Kuroda revelou um novo pacote de medidas de estímulo à economia do Japão. O governador do banco central nipónico admitiu no início deste mês que o que aí vem pode ser “drástico”.

O Banco do Japão anunciou, assim, esta quarta-feira que vai modificar a composição do seu enorme programa de compra de ativos com o objetivo de evitar uma queda das taxas de juro a longo prazo e controlar a inflação.

Esta alteração visa manter o rendimento dos títulos de dívida japonesa a dez anos (o qual é inversamente proporcional às taxas de juro a longo prazo) em torno de 0%, disse o BoJ em comunicado no final da sua reunião mensal de dois dias.

“O Banco do Japão deverá ser o primeiro a ultrapassar os limites da política monetária ortodoxa. Tem de equilibrar um ambiente macroeconómico desafiante com o impacto negativo das curvas planas e das yields negativas do setor financeiro e do sistema de pensões. Tenho a certeza de que a reunião do Banco do Japão vai estar no radar de muitos bancos centrais, e será um evento a não perder”, adiantavam os especialistas da Fidelity, antes da decisão do banco central japonês.

Eduardo Silva, gestor da XTB, também considerava que “tendo em conta a inflação, qualquer alteração será no sentido de um aumento das medidas de estímulo à economia. Existe alguma especulação de que o banco possa avançar para financiar diretamente projetos do governo e tendo em conta a cotação do iene, medidas drásticas não podem ser descartadas. Existe ainda o risco de uma grande desilusão se o Banco do Japão se abstiver de anunciar novas medidas”.

Mas não deverá desiludir os mercados. O governador afirmou a 5 de setembro que a economia nipónica dispõe ainda de “um amplo espaço para estímulos económicos” e que o BOJ tem ao dispor “um vasto leque de opções de política monetária”.

Governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda. Fotografia: REUTERS/Yuya Shino

Governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda. Fotografia: REUTERS/Yuya Shino

 

“As entidades nipónicas têm tido pela frente um forte desafio que se chama inflação, ou melhor, deflação.”

O PIB do Japão avançou 0,5% no ano passado, mas o FMI prevê um novo recuo do crescimento este ano e no próximo. O governo japonês injetou 245 milhões de euros na economia em agosto, naquele que foi o terceiro maior pacote de estímulos dos últimos 24 anos, e com isso espera garantir um crescimento superior a 1% em 2017. Mas a inflação, longe da meta de 2%, continua a ser um entrave.

“As entidades nipónicas têm tido pela frente um forte desafio que se chama inflação, ou melhor, deflação. Para tentarem levar os preços a um sentido ascendente e com o objetivo de atingir os 2% de inflação, o BoJ tem enveredado por uma política monetária ultra flexível, com um programa de compra de ativos tanto no mercado da dívida como no próprio mercado acionista através de ETFs, assim como uma continuada política de taxas de juro negativas. Com o enorme programa de compra de ativos atualmente a decorrer, a possibilidade desse movimento vir através de um novo corte de taxa de juro pode ser elevada, levando a taxa de juro ainda para terreno mais negativo. Não serão também de excluir novas medidas, a avaliar pelas palavras dos diversos oficiais nipónicos”, admite José Lagarto da Orey Financial.

Taxas negativas: BFFs dos bancos centrais

As taxas de juro negativas têm sido uma prerrogativa dos bancos centrais como medida de estímulo à economia. E todas as previsões apontam para que tenham vindo para ficar. O JP Morgan, a título de exemplo, antevê que os juros negativos se prolonguem pelo menos até 2021. A medida não é, porém a mais popular do recreio entre os especialistas.

“Está-se a provar que as taxas de juro negativas são uma faca de dois gumes para os bancos centrais. Enquanto os custos de financiamento desceram muito nos últimos anos, o sistema financeiro, incluindo os bancos, os fundos de pensões e as companhias de seguros, têm de enfrentar a quedas das margens e o aumento dos passivos, como resultado das boas intenções dos bancos centrais, tendo como resultado um aumento da aversão ao risco, e não o inverso”, alertam os especialistas da Fidelity.

O Banco Central Europeu (BCE) vai participar apenas como espetador atento na super quarta-feira dos bancos centrais, depois de já ter preenchido a sua quota-parte como fator de desilusão dos investidores no dia 8 deste mês. Para os analistas, é indiscutível, porém, que a instituição liderada por Mario Draghi tem também uma carga de trabalhos pela frente.

Mario Draghi, presidente do BCE. Fotografia: REUTERS/Ralph Orlowski

Mario Draghi, presidente do BCE. Fotografia: REUTERS/Ralph Orlowski

“O BCE vai enfrentar brevemente o desafio da escassez de títulos e, por isso, já está a repensar o enquadramento do Quantitative Easing. Acreditamos que o BCE vai anunciar a extensão do QE para além de março de 2017, porque as suas previsões para a inflação para os próximos dois anos ficam aquém da meta de 2%. Um aumento do limite de emissão de títulos, mais cortes nas taxas de juro e deixar de fazer compras de acordo com a chave de capital são as possíveis mudanças que o BCE pode implementar de forma a enfrentarem a questão da escassez”, sublinham os especialistas da Fidelity.

Os analistas remetem para dezembro a decisão do BCE sobre o reforço dos estímulos à economia. O mesmo mês em que a Fed deverá anunciar o esperado aumento das taxas de juro. Depois da super quarta-feira de setembro, dezembro será o super mês dos super bancos centrais.

Atualizado às 8h00 após a decisão do Banco do Japão

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