Blockchain

A tecnologia que está a mudar o mundo chegou aos fundos de investimento

Ao contrário do que acontece com o sistema vigente, com o blockchain a transação é concretizada assim que a ordem é dada pelo cliente.

Um “aperto de mão tecnológico”. É assim que o presidente do Instituto Superior Técnico (IST), Arlindo Oliveira, descreve o blockchain, a tecnologia por trás da moeda virtual bitcoin e que a partir de agora conta com uma plataforma em português, destinada à comercialização de fundos de investimento.

Para já não passa de um protótipo, desenvolvido pela Associação de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP) em parceria com o IST e a consultora Deloitte, e com o acompanhamento da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Mas dentro de poucos meses deverá estar pronta a entrar no mercado.

A plataforma foi apresentada esta terça-feira na sede da APFIPP, em Lisboa, numa sessão que teve como objetivo esclarecer o que é, afinal, a tecnologia que está a revolucionar o setor financeiro.

Com o objetivo de simplificar o intricado processo que caracteriza as transações de instrumentos financeiros, como fundos, o blockchain é visto pela indústria como uma das criações mais importantes das últimas décadas. O princípio é simples: eliminar todos os passos intermédios inerentes a uma transação financeira. Ao contrário do que acontece com o sistema vigente, com o blockchain a transação é concretizada assim que a ordem é dada pelo cliente.

Ou como explica José Veiga Sarmento, presidente da APFIPP,”a transação implica um trabalho posterior ao acordo entre as contrapartes, há um delay entre o acordo e a contabilização da transação. Com o blockchain, a negociação e a liquidação acontecem no mesmo momento”.

O presidente da APFIPP, de onde partiu a iniciativa e o contacto com o IST, define a tecnologia como “altamente disruptiva, extraordinária e muito relevante”. Como tal, Portugal não podia ficar para trás, afirma Veiga Sarmento, a assistir passivamente “a algo tão importante resvalar sobre os nossos pés”.

O projeto coloca assim o país “na dianteira mundial do desenvolvimento de tecnologia financeira. Não somos os primeiros do mundo, mas estamos certamente entre os primeiros a apresentar um projeto deste género. Quebrámos um cabo das tormentas”, destaca o líder da APFIPP.

Após a fase embrionária, o objetivo da associação é fazer com que a plataforma ganhe relevância no seio da indústria da gestão de fundos. Alargar o espetro de clientes potenciais das instituições financeiras, aumentar as vendas, diminuir os custos operacionais e os custos de reporte a auditores e supervisores são alguns dos objetivos da plataforma, segundo a APFIPP.

Já para os clientes, o blockchain traz “mais opções, mais transparência e concorrência e, consequentemente, preços mais competitivos”.

Arlindo Oliveira compara o blockchain a plataformas como a Uber ou o Airbnb, por terem como meta comum aumentar a acessibilidade “entre o comprador e o vendedor”. Ainda assim, o presidente do IST, a “autoridade técnica” que desenvolveu a plataforma, sublinha que a tecnologia não está isenta de riscos.

“Sabemos como isto começa mas não sabemos como acaba. As consequências de uma tecnologia destas para o futuro, da indústria e não só, são imprevisíveis. É uma enorme ameaça para partes do sistema financeiro, que é feito de intermediários. Mas em todo o caso a melhor maneira de prever o futuro é inventá-lo”, destaca Arlindo Oliveira.

O mesmo alerta é dado por Gabriela Figueiredo Dias. A presidente da CMVM considera que a tecnologia coloca “grandes desafios” ao nível da regulação financeira, mas, ao mesmo tempo, cabe ao regulador do mercado “manter a adesão à realidade e não virar as costas à inovação”.

A CMVM terá uma “participação silenciosa” no funcionamento da plataforma, com o objetivo de “mitigar riscos e garantir uma transição tranquila e sem acidentes de percurso”, destaca a responsável do regulador do mercado de capitais.

O objetivo dos mentores do projeto passa agora por “transformar o protótipo numa solução real”. Se as estimativas de custos ficarem dentro das expectativas, basta haver “três ou quatro sociedades gestoras de fundos interessadas para pôr a funcionar” a plataforma, sublinha Veiga Sarmento. A adesão pode ser feita de imediato.

Segundo um relatório de 2015 da Oliver Wyman, os bancos gastam entre 60 a 70 mil milhões de euros por ano nos passos intermédios das transações financeiras. Uma realidade que pode estar perto de acabar.

No ano passado, segundo os números da Deloitte, havia em Portugal um total de 13 mil milhões de euros investidos num universo composto por 250 fundos.

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