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Bolsas estão a incorporar “risco sério de recessão global”

(Photo by Torsten Silz / AFP)
(Photo by Torsten Silz / AFP)

O petróleo caiu 30% e as bolsas europeias, incluindo a portuguesa, registam perdas acima de 5%.

Nesta que parece uma segunda-feira negra para as bolsas mundiais, há que separar o que está a acontecer com o petróleo, daquilo que se está a viver nos mercados de ações e obrigações.

“O petróleo tem uma dinâmica própria, está a reagir a uma falta de acordo entre a OPEP e a Rússia na semana passada para cortes na produção. A Arábia Saudita aumentou a produção e baixou os preços de referência. A perspetiva é de uma guerra de preços nos próximos meses”, afirma Filipe Garcia, economista da IMF.

Portugal, como é um importador líquido de petróleo, terá uma fatura energética mais baixa. O efeito combinado da queda do preço do crude e da depreciação do dólar acabará por chegar também às bombas de gasolina, beneficiando os consumidores portugueses. O problema, nota Filipe Garcia, é que este é um “efeito positivo dentro de um contexto global muito negativo”.

“O que os mercados nos estão a dizer hoje, em particular de ações e obrigações, é que há um risco sério de recessão global, e sendo global, também chegará a Portugal”.

Prevê-se uma “desaceleração económica muito forte durante este ano por causa do coronavírus, que terá um impacto seriíssimo no turismo, que representa 6% do PIB. Será também um ano muito complicado para a indústria”, antecipa Filipe Garcia.

“Os mercados bolsistas e acionistas estão a descontar o processo recessivo. Há a sensação que os governos não estão ainda a conseguir apresentar medidas que sosseguem as pessoas”.

As bolsas convivem mal com a desconfiança e incerteza, e neste momento com o coronavírus “ninguém consegue dizer se vai passar daqui a dois meses, um ano, etc…Se a situação continuar a complexificar-se e não for contida, os mercados continuarão a incorporá-la nos preços “, sublinha o economista da IMF.

Preços dos combustíveis baixam na próxima semana

O preço do petróleo deverá baixar ainda mais, para os 20 dólares o barril, antecipam os analistas da Goldman Sachs, antes de estabilizar. À queda de 10% na última sexta-feira soma-se hoje uma quebra de 22% e, acredita Pedro Lino, administrador na Optimize Investment Partners, “o maior movimento já foi visto e deverá haver uma estabilização em torno dos 30 dólares o barril.” Para isso ajudará também a saída do mercado da produção de petróleo de xisto dos Estados Unidos e Canadá, por não ser rentável a sua exploração a este preço. Algo que já terá acontecido em 2008, lembra Pedro Lino.

A Rússia e a OPEP deverão ser empurrados para um acordo. “Um não entendimento é um jogo muito perigoso que pode levar o preço para os 10 dólares, como aconteceu em 1998”, sublinha o economista.

Para os consumidores esta evolução significa “que os preços não diminuir substancialmente já na próxima semana. Os contratos negociados hoje terão efeito na próxima segunda-feira. Esta quebra de 30% em dois dias resultará na maior queda de sempre do preços nas bombas de gasolina, em média entre 10 a 15 cêntimos, no mínimo, podendo a quebra ser um pouco maior na gasolina”, antecipa Pedro Lino.

“Seis meses de economia perdida”?

A queda das bolsas nesta segunda-feira “reflete a queda do preço do petróleo e o alastrar das medidas de quarentena na Europa. A Itália deve entrar em recessão até junho e Portugal, como depende muito do turismo, registará um forte abrandamento, para menos de metade [da previsão do Governo] a manter-se a situação até junho. Mesmo com a situação do coronavírus resolvida, a retoma do turismo não será rápida. Há cancelamentos de férias de verão, haverá seis meses de economia perdida”, considera Pedro Lino.

Quanto às bolsas, o economista antecipa que “vão continuar muito voláteis. Depende da ação dos governos e dos bancos centrais. Até os bancos centrais tomarem medidas e enquanto não se perceber durante quanto tempo as economias poderão ficar paradas, as bolsas vão continuar pressionadas e os ativos de risco também. No curto prazo há o risco de queda”.

Agora, avança Pedro Lino, é altura para “os investidores olharem para títulos a cinco anos, para uma carteira não de curto, mas de mais longo prazo”.

Epicentro nas empresas americanas de energia

Para Carlos Almeida, diretor de investimentos do Banco Best, as quedas desta segunda-feira resultam “da combinação de duas más notícias: a incerteza relativa à evolução do coronavírus nas economias desenvolvidas, que tem trazido muita incerteza e muita inquietação aos investidores, e agora o efeito muito significativo no preço do petróleo e o impacto que pode ter sobre as companhias petrolíferas”.

Para o economista, “o petróleo veio ampliar as ondas de choque de uma situação que já era em si complexa. O choque do petróleo hoje vem trazer receios quanto à capacidade de algumas empresas de energia dos EUA refinanciarem a sua dívida, e da capacidade financeira dos mercados em si”. O efeito, sublinha, “é sistémico, com os próprios investidores mais defensivos”.

Para Carlos Almeida, a evolução das bolsas nas próximas semanas “vai depender das medidas tomadas pelas autoridades”. A reunião do Banco Central Europeu na próxima quinta-feira é aguardada com “muita expectativa”. Espera-se uma redução da taxa de desconto de -0,5% para -0,6%. E o anúncio de compras de obrigações soberanas e de empresas.

Uma coisa é certa, sublinha o responsável do Banco Best: “Christine Lagarde vai ter um papel mais complicado do que quando iniciou funções no BCE. À pressão do crescimento económico junta-se a inflação ainda mais baixa”.

Para Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, “o panic sell tomou conta dos mercados, e é difícil alguém prever quando estas quedas irão parar. As últimas semanas no mercado têm feito lembrar as fortes quebras registadas em outubro de 2008, após a queda do Lehman Brothers a 14 de setembro. Poderão existir oportunidades de compra? Ou as quedas poderão continuar? Perante tanta incerteza e pânico, ninguém arrisca um valor para um bottom, para um fundo”.

Os poucos ativos que sobem nesta altura são “as obrigações do tesouro alemão, britânico, suíço e norte-americano”, sublinha Paulo Rosa.

O economista antecipa que “o Covid-19, provavelmente antes de melhorar, ainda vai piorar na Europa e EUA, mas parece que na China o ponto de inflexão já tenha ocorrido”.

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