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Da CFO da Huawei ao sinal dos juros dos EUA. O que está a pressionar as bolsas?

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As bolsas europeias tiveram a pior sessão desde o referendo do Brexit e Wall Street não escapa à pressão.

Os sinais de instabilidade nos mercados financeiros já andavam a assustar os investidores há meses. Esta quinta-feira uma conjugação de notícias e indicadores negativos voltaram a assustar os investidores, levando a perdas pesadas nas bolsas mundiais. O índice que mede o desempenho das bolsas europeias, o Stoxx 600, perdeu mais de 3%, numa das piores sessões desde que os britânicos votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia em junho de 2016.

As bolsas americanas, que têm liderado os ganhos nos últimos anos, também não escaparam às descidas, se bem que de menor dimensão. O S&P 500, que reúne as 500 maiores cotadas dos EUA, cede mais de 1,5%. E anulou os ganhos que ainda acumulava desde o início do ano. O PSI20 acompanhou a tendência negativa, com uma descida de mais de 2%.

Guerra comercial, bancos centrais a darem menos apoio, instabilidade política. Os riscos para a economia global enunciados pelos investidores são mais que muitos. “Existem demasiadas forças contra os mercados neste momento, seja o abrandamento na China, os dados fracos na Europa, as subidas de juros da Reserva Federal dos EUA, a incerteza sobre o comércio internacional e agora também o Brexit”, disse, citado pela Bloomberg, Bilal Hafeez. O analista do Nomura diz que é preciso alguma estabilização naqueles fatores para os mercados ficarem mais tranquilos.

A detenção da administradora financeira da Huawei

A guerra comercial entre os EUA e a China tem sido um dos temas a tirar o sono aos investidores nos últimos meses. No fim de semana, os receios até aparentavam ter diminuído depois do presidente americano, Donald Trump, e do presidente chinês, Xi Jinping, terem acordado suspender a imposição de novas tarifas por 90 dias.

Mas a trégua durou pouco. A notícia de que a administradora financeira da tecnológica chinesa Huawei tinha sido detida no Canadá a pedido dos EUA ameaça voltar a endurecer as medidas nos dois lados da barricada. Meng Wanzhou, filha do fundador da multinacional chinesa, deverá ser extraditada para os EUA onde poderá ter de responder sobre a venda de equipamentos ao Irão, uma violação das sanções americanas.

A pressão sobre a Huawei tem aumentado. Os serviços de inteligência do Reino Unido aconselharam a que não se utilizasse equipamentos da tecnológica devido a receios de espionagem. Isso levou a empresas britânicas e entidades australianas e neozelandesas a anunciar que deixariam de utilizar alguns equipamentos da empresa.

A detenção de Wanzhou surge numa fase em que a Huawei, que é uma das campeãs nacionais de Pequim, tem planos para liderar a corrida da inteligência artificial e as redes 5G. E promete reacender a tensão entre Pequim e Washington, como ficou demonstrado pela reação da embaixada chinesa no Canadá que exigiu que a executiva fosse libertada e que essa irregularidade fosse corrigida.

Avisos e dilemas dos bancos centrais

Os maiores bancos centrais do mundo têm também dado alguns sinais de nervosismo sobre o futuro da economia global. Os receios sobre as consequências da disputa comercial entre os EUA e a China começam a tirar alguma confiança às empresas. Um documento da Reserva Federal dos EUA demonstrou que o otimismo dos empresários americanos sobre a economia começa a diminuir. Já o governador do Banco de Japão, Haruhiko Kuroda, avisou que há riscos vindos da economia global que podem tornar-se severos.

Na próxima semana o Banco Central Europeu deverá rever em baixa as estimativas para o crescimento da zona euro. “Na reunião de política monetária da próxima semana iremos, provavelmente, ver uma revisão em baixa das projeções para o crescimento e para a inflação”, dizem os economistas do Morgan Stanley numa nota a que o Dinheiro Vivo teve acesso.

No entanto, apesar dos sinais de menor fulgor da zona euro, o banco central deverá continuar a avançar com o delicado processo de retirada dos estímulos à economia. Nos EUA, e apesar dos riscos que começam a surgir sobre o crescimento económico, a Reserva Federal está também a endurecer a política monetária com subidas sucessivas dos juros.

A incerteza do Brexit

O acordo alcançado pela primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, para a saída ordeira do Reino Unido da União Europeia corre sérios riscos de ser chumbado no parlamento britânico na próxima semana. O chumbo aumenta o risco de um “hard Brexit”, uma saída desordenada que teria maiores custos económicos tanto para o Reino Unido como para os países europeus. O Deutsche Bank avisou recentemente que a não aprovação dos termos da saída poderia custar até 5% às bolsas europeias.

Merkel e Macron sob pressão

As maiores economias do euro enfrentam instabilidade social e política. Em França a revolta dos coletes amarelos ameaça a presidência de Macron e na Alemanha a coligação de Angela Merkel pode vir a ficar desfeita antes de 2021. A chanceler vai saber quem a irá suceder na liderança da CDU esta sexta-feira.

“A maioria das sondagens aponta para uma vantagem confortável de 10 pontos para Annegret Kramp Karrenbauer que é vista como quem assegura maior continuidade no partido e na coligação com o SPD”, referem os analistas do Commerzbank numa nota a investidores. No entanto, realçam que essas sondagens não foram feitas com base na opinião dos delegados que irão votar no congresso.

“Assim, não excluímos as hipóteses de Friedrich Merz, antigo rival de Merkel”, dizem os analistas do banco alemão. Notam que Merz “recebeu esta semana o apoio explícito do muito respeitado Wolfgang Scäuble”. O Commerzbank acredita que a estabilidade política não ficaria afetada com uma vitória de Merz. Mas reconhece que nesse cenário “a incerteza iria aumentar sobre se Merkel poderia permanecer como chanceler e se a grande coligação iria continuar”.

O sinal de alerta no padrão dos juros dos EUA

Em circunstâncias normais, os juros de curto prazo de um determinado país são mais baixos que as taxas de prazos mais longos. Mas em períodos de stress financeiro ou de receios com o desempenho económico esse padrão altera-se. A chamada curva de rendimentos (que compara as taxas nos diferentes prazos) fica invertida. Nesses casos, o valor dos juros de prazos curtos supera o de maturidades mais longas. Isso, geralmente, é sinal de problemas e aconteceu esta semana nos EUA.

“A especulação sobre uma iminente recessão nos EUA intensificou-se esta semana com várias parte da curva de rendimentos dos EUA a inverter, por exemplo entre os prazos de dois e oito anos”, observam os analistas do Commerzbank. Ainda assim, o banco alemão e outras entidades de análise têm defendido que o padrão observado ainda não é igual ao de que ajudou a prever todas as recessões nos EUA desde 1950, que mostra uma inversão na curva entre a dívida a três meses e os títulos a dez anos.

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