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O 11 mais valioso da liga não chegava para pagar as obrigações das SAD

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As obrigações foram o plano alternativo das SAD para responder ao fim do crédito bancário. Crise no Sporting é teste à confiança dos investidores.

Quando os bancos começaram a jogar à defesa no financiamento ao futebol, os três grandes lançaram-se ao ataque nos empréstimos obrigacionistas, seduzindo milhares de aforradores. E o ritmo e a dimensão destas emissões têm aumentado. Até 2020, as sociedades anónimas desportivas (SAD) de Benfica, Porto e Sporting têm de pagar 265 milhões em obrigações que lançaram nos últimos anos.

Essa dívida é superior ao valor de mercado dos jogadores mais caros da liga portuguesa. Segundo dados do site especializado Transfermarkt, o 11 mais valioso do campeonato vale 214 milhões de euros.

O plano alternativo ao financiamento da banca até tem algumas vantagens para a SAD. Contrariamente aos empréstimos bancários, as obrigações não necessitam de garantias, como receitas futuras ou passes de jogadores, explica António Samagaio, professor de auditoria e controlo de gestão do ISEG ao Dinheiro Vivo.

Mas a tática de ataque intensivo a estes instrumentos aumenta os riscos de refinanciamento. “Os empréstimos obrigacionistas têm servido para reembolsar empréstimos passados, o que logo à partida traz um fator de risco”, explica o especialista.

Geralmente, estas obrigações são pagas com a emissão de novos títulos. E, se por algum motivo uma SAD não consegue financiar-se a tempo do reembolso, os investidores arriscam não receber o valor devido no prazo previsto. O primeiro exemplo disso foi o Sporting, que pediu e obteve o acordo dos obrigacionistas para adiar em seis meses o pagamento de 30 milhões de euros.

Além de querer emitir 30 milhões em obrigações para refinanciar essa dívida, o Sporting quer até mais 30 milhões nestes instrumentos. A SAD de Alvalade explicou ao mercado que essas emissões serviriam para financiar a “atividade corrente, designadamente o cumprimento do serviço de dívida e tesouraria”.

Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, sinalizou que sem uma emissão de obrigações em breve, operação que considera ter sido dificultada pela marcação de uma assembleia geral para o destituir, não poderia “garantir absolutamente nada” em termos de compromissos financeiros, incluindo salários.

A SAD verde e branca era a única das três grandes que não tinha aumentado a tática ofensiva na emissão de obrigações. Continua com os mesmos 30 milhões em dívida que tinha há três anos. Mas se o plano da direção se concretizar pode terminar 2018 com 60 milhões em dívida.

O Benfica foi o que mais meteu a carne no assador nas emissões de obrigações. Quase triplicou o valor de obrigações vivas para 155 milhões desde o início de 2015. Tem já três séries de obrigações ativas. Enfrenta um reembolso de 45 milhões em julho e poderá lançar um novo empréstimo obrigacionista para refinanciar essa dívida. Tem ainda amortizações de 50 milhões em 2019 e 60 milhões em 2020. Isto numa altura em que tem reduzido a dívida à banca, utilizando as receitas televisivas.

O Porto SAD também aumentou o valor das obrigações nos últimos anos. Os azuis e brancos têm de reembolsar 80 milhões até 2020. No início de 2015 devia 35 milhões. Os dragões estão no mercado até 1 de junho para angariar financiamento para ajudar a fazer face ao reembolso de 45 milhões de obrigações neste mês. Querem obter 35 milhões de euros, o que baixará o valor emitido em obrigações em dez milhões. O Porto SAD não reviu em alta o montante a emitir, já que acabou de encaixar cem milhões de euros com a cessão de créditos do contrato de direitos televisivos com a Altice.

Alertas vindos de Alvalade

As SAD têm conseguido pagar obrigações com a emissão de novas. Mas a crise no Sporting veio relembrar os investidores dos riscos destes títulos. António Samagaio diz que “ainda é cedo para perceber o impacto” da incerteza em Alvalade no apetite dos investidores por obrigações de outras SAD. E diz que “a emissão do Porto é um bom barómetro para medir” eventuais impactos.

Pedro Lino, administrador da Dif Broker, considera que os problemas do Sporting deverão “alertar os investidores para o risco de investimento em obrigações das SAD em geral. É um problema que pode ser comum a todos os clubes e esse risco não deve ser menosprezado”.

As SAD portuguesas “têm uma forte dependência das mais-valias com jogadores” e no negócio do futebol o sucesso desportivo depende do financeiro e vice-versa, lembra António Samagaio. Tradicionalmente, as SAD emitem obrigações com prazos de três anos.

O professor do ISEG refere que a incerteza sobre o desempenho desportivo nesse período “é um risco acrescido”. E Pedro Lino realça que “este tipo de atividades não é previsível, ao contrário dos cash-flows de uma empresa de energia, distribuição ou banca”. É que uma bola à trave ou um penálti falhado podem ser a diferença entre ter dinheiro nos cofres ou entrar em crises de tesouraria.

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