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O inverno chegou às bolsas. E teme-se que seja longo

REUTERS/Brendan McDermid/File Photo
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Bolsas vivem o pior ano da década. Fim do apoio dos bancos centrais, guerra comercial e fraqueza da economia preocupam.

Dez anos depois do pico da crise financeira, o inverno regressou às bolsas. Há analistas a recomendar cautela aos investidores. Os sinais de alerta são muitos e existe o risco de os investidores terem baixado a guarda e da noite nos mercados vir a ser longa.

Os bancos centrais estão a retirar as muralhas que construíram durante a crise para proteger a economia e os mercados financeiros. As empresas e os estados arriscam não ter aproveitado essa proteção e os juros baixos para colocar a casa em ordem. A juntar a isso, o mercado teme que as guerras comerciais de Trump e Pequim venham a causar danos à economia mundial que tem mostrado sinais de fraqueza. E os riscos geopolíticos, como o Brexit e a ascensão de partidos populistas, também começam a tirar o sono aos investidores.

Apesar de estes riscos não serem novos abateram-se em força sobre os mercados a partir de setembro. O índice que mede a pulsação às bolsas mundiais, o MSCI World, perde mais de 15% nos últimos três meses. No acumulado do ano leva uma descida de mais de 11%. Está a caminho do pior desempenho desde 2008, que marcou um dos invernos mais violentos nos mercados financeiros. Os principais índices europeus e americanos apresentam o mesmo padrão, com descidas de 13,5% e 8%, respetivamente.

“A política monetária global está a tornar-se mais restritiva, com os bancos centrais a afastarem-se do prolongado apoio aos mercados. Tem havido sinais claros desta tendência, mas, após quase uma década de taxas de juro excecionalmente baixas, há grande complacência nos mercados acionistas quanto aos riscos de taxas mais altas e elevado endividamento das empresas”, avisam os especialistas da Schroders, uma gestora de ativos britânica.

Dívida a bater recordes

Depois da anestesia dos biliões de dólares, de euros e de ienes injetados pelos maiores bancos centrais nos mercados financeiros, os investidores começam a dar sinais de estarem preocupados com o fim desses apoios.

Nesta semana, por exemplo, a decisão da Reserva Federal dos EUA (Fed) de ter feito mais uma subida, a quarta de 2018, dos juros foi recebido com ansiedade pelo mercado. E para 2019 a entidade liderada por Jerome Powell conta manter a tendência de aumento do custo de dinheiro. Na zona euro, o Banco Central Europeu (BCE) termina neste ano as compras líquidas de ativos e está a preparar o delicado terreno para começar o processo de subida das taxas de juro.

O problema é que há “grandes quantidades de dívida a ser refinanciada nos próximos anos e taxas de referência mais elevadas indicam custos de financiamento mais altos tanto para empresas como para consumidores”, explicam os especialistas da Franklin Templeton, uma gestora americana. A política de juros negativos e de dinheiro a custo zero por parte dos bancos centrais ajudou a alimentar o crescimento da dívida global.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) indicou recentemente que em 2017 o endividamento mundial bateu máximos. O total da dívida pública e privada global superou os 160 biliões de dólares, mais do dobro da riqueza mundial. Em média, a dívida mundial excede 75 mil euros por pessoa.

Procura por abrigo

Após os anos de segurança proporcionada pelas muralhas de liquidez quase infinita construídas pelos bancos centrais, agora é altura de serem os próprios investidores a construírem o seu próprio abrigo. O antigo presidente da Fed Alan Greenspan indicou, numa entrevista à CNN, que as bolsas já não têm margem para o subir. E que se valorizarem isso será sol de pouca dura. Nesse caso, o conselho que tem para os investidores é para que “fujam” e “procurem abrigo”.

Apesar da correção das últimas semanas, as bolsas mundiais ainda estão com níveis de avaliação elevados. O índice mundial triplicou de valor desde os mínimos de valor. “Tal como o quantitative easing impulsionou muitas classes de ativos, criando um ambiente de tomada de risco, a normalização da política monetária pode expor avaliações sobrecarregadas e tornar os mercados mais voláteis”, alertam os especialistas da Allianz Global Investors.

Os profissionais da gestão de ativos aparentam levar as ameaças a sério. Estão a tirar dinheiro das bolsas para o guardar em aplicações mais seguras semelhantes a depósitos, segundo uma sondagem feita este mês pela Reuters junto de 45 fundos de investimento.

A proporção da carteira alocada em ações caiu de mais de 50% para 47,2% neste ano. E o valor resguardado em liquidez subiu de 4% para mais de 6%. Este é um indicador de quando os gestores decidem sair do mercado para evitar perdas nas suas carteiras. De acordo com a agência financeira, desde que iniciou estes inquéritos que não tinha existido uma rotação tão elevada para ativos seguros e líquidos.

“Os investidores duvidam do crescimento global e receiam uma recessão devido à incerteza sobre o desfecho das guerras comerciais numa altura em que a maioria dos bancos centrais entrou, ou está prestes a entrar, no ciclo de aperto” das condições monetárias, explicou, citado pela Reuters, John Husselbee.

O consenso até pode ser de cautela. “Estamos a mudar cada vez mais para território defensivo”, indica Eugene Philalithis. Mas o gestor de carteiras da Fidelity realça que isso não invalida que se façam algumas incursões por ativos de maior risco. Apesar de o mau tempo ter chegado às bolsas, isso não invalida que possam existir oportunidades. Até porque apesar dos alertas para o mau tempo nas bolsas, ninguém antecipa um inverno tão destrutivo como o que aconteceu há dez anos.

Com Elisabete Tavares

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