Ann-Katrin Petersen

“O sentimento de verão que vimos nos mercados chegou ao fim”

Ann Katrin Peterson, especialista em geo-estratégia da Allianz GI.
(Leonardo Negrão / Global Imagens)
Ann Katrin Peterson, especialista em geo-estratégia da Allianz GI. (Leonardo Negrão / Global Imagens)

Ann-Katrin Petersen, especialista da Allianz Global Investors, enumera vários riscos para os mercados financeiros.

Acabou a festa nas bolsas. Este é o alerta da responsável de estratégia de investimento da Allianz Global Investors, Ann-Katrin Petersen. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, a especialista aponta que, provavelmente, chegou ao fim a tendência de valorizações que se tem registado em muitas classes de ativos na última década, desde a crise financeira de 2008.

Como vê a situação atual nos mercados?

Na nossa visão, o verão acabou. O sentimento de verão que vimos nos mercados nos últimos dez anos, depois da crise financeira – com retornos de dois dígitos em muitas classes de ativos de risco e muito baixa volatilidade -, provavelmente chegou ao fim. Este ambiente de goldilocks – nem muito quente nem muito frio – tem ficado mais vulnerável e frágil. O outono está claramente a bater à porta, como se vê na correção que temos visto nos mercados e também na volatilidade mais elevada.

Nem o setor tecnológico tem escapado à correção.

Desde a crise financeira, o setor da tecnologia tem sido o setor com a melhor performance nos mercados. Sobretudo as FANG [Facebook, Amazon, Netflix e Google]. Algumas avaliações foram ambiciosas. Alguns setores estão a sofrer com a pressão regulatória. E é um dos setores vulneráveis a protecionismo. Enfrenta aqui uma nova frente desafiante.

O que espera de 2019?

Esperamos taxas de juro mais altas, retornos mais baixos, especialmente para ações, e maior volatilidade nos mercados financeiros.

Porquê?

Para começar, esperamos que o crescimento económico continue a perder força, mesmo que não haja sinais de uma recessão iminente. Isto implica menos vento favorável para os lucros das empresas. Em segundo lugar, os bancos centrais continuarão a normalizar a sua política monetária, sobretudo tendo os mercados de trabalho uma recuperação moderada do crescimento dos salários. Taxas de juro mais altas nos EUA, a redução contínua do balanço da Reserva Federal, o fim do quantitative easing – programa de compra de ativos – do Banco Central Europeu, provavelmente reduzirão a liquidez, criarão uma maior volatilidade do mercado e resultarão em menores correlações entre ativos. Noutras palavras: ações individuais movem-se menos em conjunto. Por último, mas não menos importante, a incerteza política provavelmente permanecerá elevada, com as tensões comerciais, mas também o final da negociação do Brexit tomando o centro das atenções. À medida que entramos num período de retornos mais baixos, menores correlações entre ativos e maior volatilidade, a alocação ativa de ativos e a seleção ativa de títulos provavelmente se tornarão cada vez mais importantes para os investidores em 2019.

Qual a visão para as obrigações soberanas portuguesas?

A situação económica em Portugal continua muito sólida. Portugal ficou acima da média da zona euro em termos de crescimento económico real e deverá continuar a superar. A taxa de desemprego caiu significativamente e deverá ficar abaixo dos 7% em 2019. O nível de dívida é ainda elevado mas está a descer. E o défice orçamental é baixo. Mas todas as obrigações soberanas da zona euro vão ter perdas, caso haja uma subida de taxas de juro.

Que tipo de carteira deve ter um investidor?

Deve preferir ações dos EUA, estar neutro em relação a outros mercados acionistas, evitar mercados emergentes, estar cauteloso nas obrigações soberanas de longo prazo e muito cauteloso no mercado de dívida. O dólar continuará forte. Algumas matérias-primas, como o cobre, deverão reagir bem. O petróleo é exceção.

No imobiliário e no crédito tem havido avisos de bolhas.

É um tema para alguns países e não para outros. É uma nuvem que paira no horizonte. Sobretudo, quando as taxas de juro vão subir.

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