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Opinião. E depois do Adeus?

Mario Draghi, presidente do BCE
Mario Draghi, presidente do BCE

Tem prevalecido nos mercados uma política monetária bastante amigável, mas isso não irá durar eternamente.

Os mercados acionistas tiveram um verão agitado, sobretudo nos mercados europeus que registaram fortes correções por todos os sectores industriais e financeiros, condicionadas pelos riscos relacionais com intensificação do ruído associado à guerra comercial, ou expectativas geopolíticas que alimentam o sentimento eurocético na zona euro, com Itália à cabeça das preocupações. Até ao momento tem prevalecido nos mercados uma política monetária bastante amigável, em conjunto com melhores níveis de crescimento das economias europeias – mas isso não irá durar eternamente, e existem efetivos sinais de que se começa a chegar ao fim de um ciclo.

E se na verdade não se espera que o Banco Central Europeu entre num processo de subida de taxas rápido, na realidade isto também acontece porque a Europa mantêm ainda muitas fragilidades para descolar e tornar-se menos dependente do ciclo de crescimento global – as importantes reformas estruturais estagnaram por completo. E isso, podendo ser ainda descurado pelos investidores nesta altura, deixa preocupações no horizonte para os próximos trimestres.

Nunca é demais repetir. Enquanto nos Estados Unidos a normalização monetária é um processo incontornável – os estímulos fiscais tem vindo a suportar maior crescimento, na Europa, o ciclo de recuperação ainda se encontra numa fase menos madura do ciclo. Acresce a este fator uma esperada quebra no comércio internacional que advém numa primeira linha do facto do euro ter andado apreciado no mercado de divisas face ao que estava um ano atrás, e depois numa segunda linha pelas expectativas de maiores dificuldades no próximo ano provenientes dos Estados Unidos, mas também da China em certa medida, que estão a levantar maiores barreiras comerciais.

Os maiores obstáculos na Europa olhando a um ano, continuam a ser originados pelos problemas crónicos que o euro tem evidenciado para fechar o ciclo da crise das dividas soberanas. Os últimos anos trouxeram muito poucas novidades em termos de avanços estruturais que permitam a economia recuperar o ímpeto de crescimento que seja indutor de melhores perspetivas para as empresas, e por c consequência para os mercados de capitais – e também capaz de criar maior pressão inflacionista. E enquanto se mantém dependente da crise de identidade, com aumento do euroceticismo e protecionismo mais difícil se torna reformar para uma Europa mais solidária. Neste cenário de “cada um por si” vai valendo a credibilidade do BCE para manter a estabilidade financeira na região, e garantindo um enquadramento de curto prazo mais favorável para os investidores.

Contudo, e como consequência disto no curto prazo, as leituras e suportes fundamentais não são tão desfavoráveis para as ações europeias. Os indicadores avançados para a atividade continuam a indiciar expansão e o crescimento global continuará a beneficiar a zona euro, sobretudo via Estados Unidos. Por outro lado, a maioria das empresas cotadas em bolsa continua a surpreender as expectativas dos analistas e a suportar o movimento de expansão de múltiplos de lucros sobre preços. Por fim, quando se olha de forma comparativa para as ações europeias e norte americanas, verifica-se que as empresas do velho continente não se valorizaram tanto, e a recente depreciação do euro pode até favorecer o comportamento das mesmas em bolsa.

Contudo, esta é uma realidade que pode mudar durante o curso do próximo ano. A Reserva Federal poderá ter que responder com varias subidas da taxa diretora em 2019, e isso terá o seu impacto nos custos de financiamento e finalmente no crescimento económico, que deverá abrandar. E com isso arrastar também a Europa.

Esta necessidade resultará essencialmente da pressão inflacionista criará nos Estados Unidos no último trimestre do ano, e que irá atirar o crescimento da economia para um valor muito próximo dos 3% em 2018. Atualmente de facto os valores da inflação não são suficientes para criar muita pressão sobre o consumo das famílias norte americanas que são um catalisador relevante para a economia norte americana, mas também para o comportamento das economias avançadas.

Contudo, à medida que entremos em 2019, a pressão para subida de salários no mercado de trabalho deverá fazer-se sentir de forma mais efetiva, e isso deverá ser decisivo para levar a autoridade monetária a atuar, subindo taxas – que os analistas estimam em média que possa chegar a um valor final entre 2,5% a 3%.

Por outro lado, Não existe uma opinião generalizada de que existirá um impacte significativo ou uma escalada para uma guerra comercial com impactes severos para as principais economias, mas sem dúvida causará um abrandamento na atividade global, ao qual a Europa não será isenta.

Ou seja, o mundo deverá continuar a crescer em 2019, mas os investidores deverão prepara-se para um menor ímpeto e também para uma política monetária menos amigável para as classes de risco – um cenário de descida de lucros das empresas em virtude de menor economia, e maior impacte nas condições de financiamento por via de juros mais altos. Contudo, não parece certo que se verifique uma recessão a curto prazo, o que significa que pelo menos na Europa, continuará a valer a pena deter posições em risco, mas devidamente ponderadas, e privilegiando sectores mais resilientes (como healthcare) e em empresas onde se privilegie uma distribuição de resultados aos acionistas via dividendos acima da média do mercado.

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