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Euro bate recordes, mas diferença para o dólar ainda não assusta

Fotografia: AP Photo/ Jan Bauer
Fotografia: AP Photo/ Jan Bauer

A moeda única já valorizou 12% face ao dólar desde o início do ano. Exportadoras, de lá e de cá, já começam a fazer contas

O arranque do ano foi tímido. E 2017 não fazia adivinhar grandes conquistas. Mas, degrau a degrau, o euro foi subindo até que, no final de julho, atingiu o valor mais elevado em mais de dois anos e meio. Desde janeiro de 2015 que, para adquirir um euro, não eram precisos 1,19 dólares.

As previsões dos analistas no início de 2017 apontavam para o contrário. Um dólar forte, empurrado pelas expectativas em torno das promessas de Donald Trump para a economia norte-americana.

A 31 de dezembro de 2016, o Barclays apostava que o euro iria valer 0,99 dólares no final deste ano. O Morgan Stanley apontava para os 0,97 dólares, enquanto Deutsche Bank, Ebury e Standard Chartered projetavam o valor da moeda única em 0,95 dólares.

As empresas exportadoras e o setor do turismo esfregaram as mãos. Mas saiu tudo ao contrário. O efeito Trump desvaneceu-se antes de se começar a sentir.

“No início do ano esperava-se que Trump conseguisse implementar cortes fiscais e políticas de promoção da economia. Oito meses depois o que verificamos é que o presidente dos EUA não consegue implementar praticamente nada em nenhuma dimensão. Há o risco de a economia norte-americana começar a andar para trás”, explica ao Dinheiro Vivo Filipe Garcia, economista da IMF.

O especialista acredita que nas últimas semanas, o “adensar das dificuldades” do presidente norte-americano acelerou a subida do euro, e a queda do dólar.

REUTERS/Jonathan Ernst/File Photo

Mas não é só na Casa Branca que se joga o sobe e desce. A subida do euro e a queda do dólar também têm o toque de Mario Draghi e Janet Yellen. São os efeitos da política monetária, pois claro.

“No início do ano a expectativa era de que a Fed iria subir os juros três vezes em 2017 e o BCE iria continuar a expandir os estímulos. Hoje o que se vê é diferente. A Fed, se subir os juros, é só mais uma vez até ao fim do ano e o BCE começa a falar aos poucos da retirada dos estímulos”, observa Filipe Garcia.

O economista aponta ainda um terceiro fator para a escalada da moeda única. Um fantasma chamado política. “Os riscos políticos no início do ano eram elevados. Havia eleições em França e na Holanda, onde os partidos de extrema-direita acabaram por não vingar. Em Itália, o Movimento 5 Estrelas está a perder importância e na Alemanha as coisas parecem encaminhadas. E até a Grécia conseguiu ir aos mercados”, nota o responsável da IMF.

Leia também: O amor está no ar. Portugueses nunca gostaram tanto do euro

A isto acresce a aparente acalmia no sistema bancário europeu e os problemas do Brexit, que foram empurrados quase exclusivamente para o Reino Unido. O euro está de boa saúde, e isso vê-se pelas curvas.

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Desde o início do ano, a subida ronda os 12,5%. Poderá continuar a este ritmo? “A esta altura é perfeitamente possível falar num valor a rondar os 1,20 dólares. Mas a este ritmo chegaríamos ao fim do ano com o euro a valer 1,40 dólares e não me parece que isso vá acontecer”, antecipa Filipe Garcia.

O valor fica ainda longe do máximo histórico registado em julho de 2008, quando a moeda única chegou a tocar os 1,60 dólares. Ainda assim, para as empresas que dependem das exportações, é altura de começar a fazer contas.

O alerta foi dado há dias pelo Credit Suisse. A instituição reviu em alta as previsões sobre o valor da moeda única, de 1,15 para 1,22 dólares até ao final do ano. Os analistas do Credit Suisse estimam que uma subida média do euro na casa dos 10% até ao final do ano pode custas às empresas que dependem das exportações um corte de 6% das receitas.

Filipe Garcia não é tão pessimista. O economista recorda que nos entre novembro de 2005 e 2015, o euro esteve sempre acima dos 1,20 dólares. Por vezes até bem acima. Pelo que os valores atuais não devem ser “dramatizados”.

“É preciso ter alguma calma sobre este tema. Nos dez anos anteriores o euro/dólar andou na casa dos 1,30. Estamos muito abaixo dos níveis médios que tivemos durante muito tempo”, destaca.

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Fonte: IMF

O economista reforça ainda que nos últimos dois anos, as empresas que exportam para os Estados Unidos “beneficiaram de um mercado muito melhor”. Além de que, “se as empresas competem só com base no preço, já estão vulneráveis por natureza. Uma diferença de 5% ou 6% já tem impacto”.

Segundo a Bloomberg, empresas do índice EuroStoxx 50 como a Bayer, BMW, Unilever, Siemens ou Volkswagen, serão das mais prejudicadas pela valorização do euro, devido à elevada percentagem de receitas proveniente dos Estados Unidos.

Até ao momento, a empresa que sofreu o golpe maior foi a AB InBev, a maior cervejeira do mundo, que é também a empresa do EuroStoxx 50 com mais exposição ao mercado norte-americano.

Cerca de 70% das receitas da fabricante de marcas como a Budweiser ou Corona dependem dos EUA. A subida do euro face ao dólar fez com que os analistas revissem em baixa as previsões de ganhos para este ano em 20% para 7,16 mil milhões de euros.

Do outro lado da moeda está a energética alemã E.ON., que sendo dependente da zona euro, viu as estimativas de lucros serem revistas 38% em alta. De acordo com o Credit Suisse, à volta de 45% das receitas das empresas europeias provêm de fora da zona euro.

 

Do lado de lá do Atlântico as empresas também já estão de calculadora na mão. Segundo o Goldman Sachs, 6% dos ganhos das empresas do índice S&P provêm do Velho Continente. O que no final do ano poderá traduzir-se num aumento dos ganhos para nomes como a Apple ou a Nike.

E o turismo?

São cada vez mais os visitantes que chegam a Portugal vindos de terras do Tio Sam.

Segundo dados do Turismo de Portugal, aterraram em Portugal em 2016 mais de 505 mil visitantes provenientes dos Estados Unidos. Que deixaram no país 593 milhões de euros. A aposta no mercado norte-americano é forte e está a dar frutos, sendo o programa stopover da TAP um dos melhores exemplos.

Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens

Fotografia: Orlando Almeida / Global Imagens

Pode o braço de ferro cambial travar este potencial? “A prazo, se houver uma alteração muito estrutural nos preços, pode afetar alguma coisa. Se um turista vem com a previsão de gastar três mil euros, se tem menos 10% são 300 euros. Claro que é dinheiro, mas será que vai deixar de gastar? Para este nível de variação de preços tenho dúvidas”, realça Filipe Garcia.

Segundo a AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal), o poder de compra dos turistas norte-americanos é entre 10% a 15% superior ao dos visitantes europeus. Para já, não há preocupações sobre a perda do poder de compra.

“Este turista permanece mais tempo e investe mais, per capita, em relação ao europeu, tem mais capacidade aquisitiva. É um turista muito bem visto pelos restaurantes e hotéis. A subida do euro face ao dólar é um movimento natural, nada indica que se vá intensificar perigosamente. Para além de que o destino Portugal ainda tem uma grande margem de progressão no preço. Nada indica que vamos deixar de ser competitivos”, diz ao Dinheiro Vivo Jorge Loureiro, vice-presidente da AHRESP. Thank you very much, dizemos nós.

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