Última emissão de dívida do ano é para pagar ao FMI

O Tesouro quer obter até 1,25 mil milhões de euros em dívida a cinco e a dez anos para fazer um novo reembolso antecipado ao FMI.

O Tesouro já tinha o plano de financiamento do ano praticamente concluído. Mas um novo reembolso ao Fundo Monetário Internacional (FMI) levará a mais uma operação de financiamento na próxima quarta-feira. A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) quer obter entre 1000 e 1250 milhões de euros em obrigações a cinco e a dez anos na próxima quarta-feira, naquela que deverá ser a última operação de financiamento de médio e longo prazo do ano.

Desde o início do ano, o Estado já emitiu cerca de 15 mil milhões em Obrigações do Tesouro. Esse era o objetivo para o total de 2018. Mas a intenção de se fazerem reembolsos adicionais ao Fundo levará a uma nova emissão, que aumentará o total do ano para mais de 16 mil milhões de euros. “Com este leilão, o IGCP tenciona pagar antecipadamente parte do empréstimo do FMI”, disse a agência liderada por Cristina Casalinho.

Ricardo Mourinho Félix, secretário de Estado Adjunto e das Finanças, tinha já sinalizado essa opção numa intervenção no Parlamento. Depois disso tinha especificado, numa entrevista ao Jornal Económico, que o Tesouro pretendia reembolsar dois mil milhões de euros até final do ano.

A estratégia de reembolsar o FMI foi iniciada em 2015 ainda com o anterior governo. Desde então foi amortizado antecipadamente mais de 80% do empréstimo concedido pelo Fundo, o que permite poupar em juros. É que o valor a que os investidores emprestam ao Estado é bem inferior às taxas exigidas pelo FMI.

O empréstimo inicial da instituição liderada por Christine Lagarde foi de mais de 26 mil milhões. Falta abater 4,6 mil milhões de euros. Mas Portugal precisa ainda da autorização formal do Mecanismo Europeu de Estabilidade para poder fazer novos reembolsos ao FMI, algo que já terá sido solicitado.

Foco em Itália

A operação de financiamento agendada pelo IGCP acontecerá um dia depois do fim do prazo para o governo italiano responder às preocupações da Comissão Europeia sobre os planos orçamentais do país. E do lado de Roma não se esperam grandes concessões no choque com Bruxelas. O ministro das Finanças, Giovanni Tria, disse na sexta-feira, citado pela Reuters, que reduzir o défice de 2,4% para os 0,8% defendidos por Bruxelas seria “suicídio económico”.

Apesar da tensão no mercado em relação a Itália, os juros portugueses têm resistido. No mercado secundário, que serve como um barómetro de quanto o Estado terá de pagar, os investidores exigem menos de 2% para deter dívida portuguesa a dez anos. Já a cinco anos, o outro prazo do leilão da próxima quarta-feira, a taxa no mercado secundário é de 0,739%. Valores inferiores ao custo médio da dívida nacional, que era de 3% em 2017.

As obrigações portuguesas têm beneficiado da tendência de melhoria do rating da República. No passado mês de outubro Portugal conseguiu o pleno, após a Moody’s ter retirado a notação do nível visto como lixo pelos investidores. É a primeira vez, desde a crise, que Portugal vai ao mercado com ratings de grau de investimento concedidos pelas agências mais influentes.

A ida ao mercado era já antecipada pelos analistas do Commerzbank. Portugal terá na próxima semana a concorrência de Itália, Alemanha e Holanda para obter dinheiro dos investidores. Mas, ainda assim, o banco alemão prevê, numa nota a que o Dinheiro Vivo teve acesso, que não deverão existir grandes contrariedades nessas colocações de dívida pública.

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