"No futuro, os financiamentos passarão pela apreciação das boas práticas de sustentabilidade"

As preocupações ambientais têm de estar cada vez mais presentes nas estratégias das empresas para o futuro, não só para ajudarem ao cumprimento dos objetivos internacionais, como também para continuarem a ser competitivas e a acederem a capital. Recorde a segunda talk da parceria entre Crédito Agrícola e o Dinheiro Vivo.

Com a emergência climática que vivemos, deixaram de existir responsáveis específicos pela sustentabilidade do planeta. É, agora, uma responsabilidade de todos os agentes económicos a proteção desta que é a nossa casa. Nesse sentido, o papel das empresas continua a ser discutido no âmbito da parceria entre Crédito Agrícola e o Dinheiro Vivo, numa sessão que focou especificamente a "Sustentabilidade para Grandes Empresas".

Sofia Santos, Sustainability Champion in Chief na Systemic e parceira do Crédito Agrícola para a sustentabilidade, foi a primeira oradora da tarde. Para isso, começou por explicar como o PIB interfere diretamente nas alterações climáticas: "O PIB mundial aumentou exponencialmente nos últimos 70 anos, tendo trazido um desenvolvimento significativo às sociedades, mas tendo também exercido uma pressão significativa noutras variáveis do sistema terra, como as emissões de CO2 e a ocupação dos solos", começa por explicar Sofia Santos. Estes aumentos deram origem a um "desequilíbrio do planeta", com a desvantagem de estas variáveis não serem negociáveis: "Não nos conseguimos sentar com elas e negociar de forma a evitar o seu aumento. Não é possível negociar com a natureza".

Uma das consequências deste desequilíbrio é o aumento da temperatura e as alterações climáticas que daí decorrem. Para a Sustainability Champion in Chief na Systemic, este tema é "muito importante e urgente, porque se a temperatura mundial aumentar mais do que 1,5º C até ao final deste século, passa a ser difícil prever as consequências ambientais", o que levará a muitos danos ambientais, pessoais e económicos. Por tudo isso, "o grande desafio do planeta é que a temperatura não aumente mais do que 1,5º C e o planeta encontra-se já numa situação-limite".

Como consequência de tudo isto têm surgido variadas respostas a nível internacional e nacional. Uma das medidas tomadas foi a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, onde mais de 170 países acordaram em ser neutros em carbono até ao final do século XXI. Outra foi a Lei do Clima Europeia, de 2011, que transformou a promessa política de neutralidade carbónica até 2050 numa obrigação legal irreversivelmente vinculativa, proporcionando aos cidadãos, empresas e investidores europeus a previsibilidade e transparência da transição.

Nessa mesma linha, foi também criada a Lei do Clima Portuguesa, cujo objetivo é "reduzir as emissões de gases com efeito de estufa" com investimentos públicos e privados com recurso a fundos públicos aos princípios do financiamento sustentável, nomeadamente adotando a Taxonomia da União Europeia, uma métrica usada para definir o que são atividades sustentáveis.

Antes de terminar, e citando o Governante do Bank of England, Sofia Santos apontou que "as empresas que ignorem a crise climática irão à falência" e, para demonstrarem que optaram por um caminho sustentável, vai entrar em vigor, em 2024 para grandes empresas e 2026 para PME cotadas, uma diretiva de reporte de sustentabilidade que ajudará nesse sentido.

O papel da transparência na sobrevivência do ambiente (e das empresas)

Igualmente focado no futuro empresarial num planeta afetado pelas consequências imprevisíveis das alterações climáticas, Ricardo Pires foi o segundo convidado a tomar o lugar de orador. O Diretor de Empresas do Grupo Crédito Agrícola começou por destacar o exercício estratégico que a empresa realizou em 2019, tendo formalizado a sua visão no ano seguinte. "O Crédito Agrícola fez o que todas as empresas terão de fazer: um Programa de Sustentabilidade Corporativa", afirma.

Este programa começa, de um modo geral, com definição da estratégia central da empresa. Esse primeiro passo "vai caracterizar o tom e os recursos que as organizações vão investir para estarem nesta transformação necessária para a sua sobrevivência", diz. Depois, é necessário identificar as áreas de ESG (Ambiente, Social e Governança) mais relevantes, comparar a empresa às suas concorrentes e avaliar os riscos.

"Aqui, o Crédito Agrícola, em particular, estará atento para apoiar as organizações nos investimentos e financiamentos necessários à sua transformação. Acreditamos que esta é uma variável que vai fazer com que as empresas portuguesas consigam competir a um nível internacional. E estas vão ter de conseguir comunicar internamente e transversalmente os objetivos de alto nível e os resultados que estão a alcançar. Porque, sem partilhar objetivos e resultados, não é possível ir alinhando a organização", assegura Ricardo Pires.

É justamente na linha da comunicação transparente que, em abril de 2021, a Comissão Europeia adotou a Proposta Diretiva para o Relatório de Sustentabilidade Corporativa. Agora, "as grandes empresas e as PME cotadas em mercados regulares terão de reportar uma dupla materialidade", ou seja, "o impacto que a empresa está a ter nas pessoas e no ambiente, e a forma como as alterações climáticas e ambientais também impactam as empresas", refere.

Segundo o Diretor de Empresas do Grupo Crédito Agrícola, a finalidade última é que este tipo de reporte se assemelhe ao que já se verifica nos relatórios financeiros, com a diferença de que, agora, a sustentabilidade está no topo das preocupações. Em outubro deste ano, as regras para se fazer este reporte serão conhecidas, apesar da proposta de diretiva já ser do domínio público. O ano de 2023 será a oportunidade para as empresas prepararem o que apresentarão em 2024.

Em fevereiro deste ano, foi lançada também a proposta de Diretiva Due Dilligence para a Sustentabilidade Corporativa. Esta medida pretende "promover um comportamento empresarial responsável e deixar claro que é necessário respeitar os direitos humanos e ambientais ao longo da cadeia de valor", afirma Ricardo Pires. No fundo, as empresas terão de identificar e mitigar as consequências negativas das suas ações. Subsequentemente, os bancos estarão mais motivados a financiar as organizações que colham os bons frutos da influência que semearam.

Empresas alinhadas com a sustentabilidade

O Grupo Crédito Agrícola desenvolveu um conjunto de questionários para obter informação adicional das empresas que procuram financiamento para desenvolver projetos ambientais e sociais. Inês Martins, Accomplished Sustainability Athlete na Systemic, explicou, na sua talk dedicada a esse processo, que foram "identificados quatro setores de atividade diferentes que, em conjunto, representam mais de 50% dos créditos concedidos: agricultura e pesca, indústrias transformadoras, comércio e atividades imobiliárias".

Os questionários empresariais sobre os projetos gerais, sobre os projetos agrícolas e sobre os projetos imobiliários foram os questionários criados com o objetivo de perceber então quais os impactos dos projetos financiados pelo CA, em diversas vertentes, nomeadamente: mitigação climática; adaptação climática; uso e proteção de recursos marinhos; transição para a economia circular, prevenção dos recursos e reciclagem; prevenção e controlo da poluição; proteção dos ecossistemas saudáveis sustentáveis; e aspetos sociais.

Depois das empresas responderem, obtêm uma Notação Ambiental e Social, isto é, se se encontram alinhadas com os princípios da sustentabilidade. A avaliação vai do A (muito bom) ao D (muito baixo). Sendo que "esta avaliação não é apenas útil para o Crédito Agrícola, também permite à empresa que recebe esta notação perceber se se encontra alinhada com a Taxonomia Europeia, com os princípios de sustentabilidade e perceber se existe uma oportunidade de melhoria, quer a nível empresarial, quer a nível dos projetos".

Segundo Inês Martins, "até ao final de 2021, 50% dos clientes que responderam aos questionários tinham um alinhamento muito bom e bom com a sustentabilidade, o que significa que existe espaço para melhoria das práticas ambientais e sociais". "Só é possível gerir o que conhecemos. Ao sabermos estes resultados conseguimos tomar melhores decisões no futuro e é isso que nós queremos", concluiu a Accomplished Sustainability Athlete na Systemic.

Olhar para o bem que se faz lá fora

Diretamente de Washington DC, Ricardo Nogueira, Especialista Internacional de Financiamento Climático, juntou-se à conversa para apresentar um exemplo de como o setor privado e público se podem unir por um mundo melhor. Ainda em desenvolvimento, há um projeto de conservação brasileiro que junta o Estado do Pará à The Gordon and Betty Moore Foundation na luta contra a desflorestação da Floresta Amazónica.

Para diminuir este flagelo, Ricardo Nogueira explica que o projeto pretende proteger rios considerados "livres" e o ecossistema em torno desses rios de qualquer tipo de intervenção humana. O Rio S. Benedito foi o primeiro a ser escolhido para intervenção e abrirá caminho para a preservação de muitos outros no estado brasileiro.

De modo a tornar isso possível, será preciso fortalecer as ligações com entidades locais e estatais, nomeadamente a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS). Com uma imagem positiva e fidedigna de respeito pelo ambiente, as empresas locais que se juntarem a este projeto serão vistas como mais atrativas por parte dos investidores internacionais.

O projeto terá uma duração de 16 anos, durante os quais a fundação fará pagamentos a cada quatro anos ao estado. Mas, porquê quatro anos? "Pela nossa experiência, quando há um governo envolvido, é preciso criar um sistema que traz durabilidade política. O pagamento de quatro em quatro anos tem a ver com o calendário eleitoral do Brasil", afirma o Especialista Internacional de Financiamento Climático. No fim desse período, a verba final será paga e, se o Pará atingir as metas desejadas, os juros de financiamento serão a custo zero.

Assim, esta parceria é uma forma de, por um lado, o estado do Pará ter acesso a fundos para criar resultados concretos na comunidade, que nunca conseguiria ter de outra forma. Por outro lado, a fundação cumpre a sua missão de fazer parte de uma mudança social e ambiental. Mudança essa que está a atrair cada vez mais atores. "O apetite por títulos verdes existe e está a crescer", defende Ricardo Nogueira. E o crescimento desta atratividade torna-se cada vez maior à medida que as empresas compreendem os reais impactos das alterações climáticas para os seus negócios e para o Mundo, através de iniciativas como as talks promovidas pelo Crédito Agrícola.

Para fechar com chave de ouro, Licínio Pina, Presidente do grupo promotor da conversa sobre "Sustentabilidade para Grandes Empresas", reforça que "a sustentabilidade é uma questão de sobrevivência do planeta". E não se despede sem deixar uma mensagem aos seus clientes: "Pretendemos que olhem para esta questão, não como um custo, mas como um investimento tendente à sua sustentabilidade financeira. No futuro, os financiamentos da banca passarão muito pela apreciação que se faz em relação ao seu rating de sustentabilidade e ao cumprimento, por parte dos bancos, de um rácio que o banco é obrigado a reportar. Peço que nos ajudem a reportar um bom rácio verde. Queremos que participem connosco no caminho para a sustentabilidade ambiental, cumprindo as metas do Acordo de Paris. Estamos cá para ter um contributo positivo no Planeta Terra".

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