Opinião

É mais barato utilizar bons conteúdos do que filtrar fake news

Protestos à porta do Capitólio, antes da audição de Mark Zuckerberg. Fotografia: REUTERS/Aaron P. Bernstein
Protestos à porta do Capitólio, antes da audição de Mark Zuckerberg. Fotografia: REUTERS/Aaron P. Bernstein

Plataformas continuam a preferir recompensar conteúdos polémicos e de má qualidade, muitas vezes criados de forma anónima.

Jonah Peretti é uma espécie de lenda da media digital. Em 2005 ajudou a criar o Huffington Post e em 2006 criou ele próprio o BuzzFeed. Os seus colaboradores mais próximos dizem que Peretti é fascinado em compreender porque é que determinados conteúdos se tornam virais e outros não e completamente obcecado com a qualidade daquilo que publica e com a capacidade de criar confiança na sua audiência. Quem o conhece define-o como um experimentalista, um pioneiro. Além disso, graças à forma como os sites que lançou cresceram, é uma voz ouvida com atenção cada vez que se fala de tendências no digital. Volta e meia escreve no seu BuzzFeed o que lhe vai no pensamento. A mais recente das suas análises começava assim: “A internet está numa encruzilhada – de um lado, um campo de batalha que afasta as pessoas e, do outro, um sentimento de alegria e partilha que nos junta – na realidade temos agora a oportunidade de fazer um futuro melhor.”

Para Peretti, o que aconteceu ao longo do último ano com as plataformas tecnológicas, comprova o perigo de, também na media digital, existirem crises que provocam disrupções. Foi o que aconteceu com a sucessão de acontecimentos despoletada pelo escândalo da Cambridge Analytica, com as fake news, manipulações políticas e eleitorais e outros casos que levaram a crise até às todo-poderosas grandes plataformas, como o Facebook. De repente o público, os jornalistas e os legisladores perceberam que as plataformas não controlavam o conteúdo que distribuíam a milhões e milhões de pessoas. Como diz Peretti, uma série de figuras sinistras compreenderam como manipular as plataformas e tornaram-nas no canal por excelência de ideias extremistas, de conspirações, falsificações e até de diversos incitamentos ao crime. Apesar dos esforços do Facebook e YouTube, dos milhões gastos quer em tecnologia, em desenvolvimento de sistemas de segurança baseados em inteligência artificial, quer em moderadores humanos, as plataformas ainda não conseguem garantir que as suas plataformas estão livres de manipulação.

Mas Peretti diz uma coisa ainda mais interessante: “Não basta remover conteúdo malicioso, as plataformas devem criar condições para que os bons conteúdos cresçam e se desenvolvam.” Por isso ele é da opinião que companhias digitais de media, como as suas, têm um papel a desempenhar – elas podem preencher o vazio criado nas plataformas com bons conteúdos – mas para isso precisam de o poder fazer de forma sustentável, o que quer dizer que as plataformas as devem ajudar a prosperar e não podem basear o seu modelo de negócio na utilização livre e não remunerada desses conteúdos de media digital. As plataformas continuam a preferir recompensar conteúdos polémicos e de má qualidade, muitas vezes criados de forma anónima, em vez de utilizarem e pagarem a empresas de media responsáveis.

“O afastamento das companhias de media digitais das grandes plataformas é exatamente o oposto daquilo que essas plataformas necessitam para reganharem a confiança – é muito mais difícil e caro moderar mau conteúdo do que criar, promover e distribuir bons conteúdos.” E sublinha: “O problema não vai ser resolvido eliminando conteúdos perigosos, precisamos de criar um ecossistema em que criar bons conteúdos seja sustentável – se a media e a tecnologia trabalharem em conjunto toda a gente beneficiará e o primeiro passo será conseguir para os media um modelo em que trabalhar com as grandes plataformas tecnológicas crie uma situação financeira sustentável.”

Diretor-geral da Nova Expressão, Agência de Planeamento de Media e Publicidade

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