A chorar ferrugem

Gare do Oriente
Gare do Oriente

Ia a caminho do Porto quando o comboio parou na Gare do Oriente e eu vi as colunas que sustentam a estrutura da estação a chorar ferrugem. Ao princípio não me parecia choro, parecia uma baba de ferrugem a escorrer pelo branco das colunas, sujando-as. Mas depois olhei com mais atenção e vi dois olhinhos de onde escorriam as marcas da água ferrosa, dois olhinhos tristes e ferrugentos.

Era mesmo um choro ferrugento. E não era apenas uma coluna que chorava. O choro propagava-se, convulso, por todas as colunas que sustentam as ogivas neogóticas deste templo à mobilidade. Em todas elas, pares de olhos ceguinhos choravam o peso do ferro que as pilastras suportam. Um espetáculo melancólico, até algo gótico, nos antípodas dos sentimentos que vivemos naqueles anos em que se inaugurou o optimismo, a alegria e o novo.

Apesar de o meu olhar poético e melancólico me fazer ver nas pilastras olhos ceguinhos a chorar um castanho-encarniçado sob o peso das monumentais ogivas góticas, e enquanto fotografava o momento no meu dispositivo móvel, a arquitecta com quem viajo rapidamente me fez ver que aquilo não eram olhinhos, eram apenas pares de parafusos de má qualidade; acrescentando que durante a obra se tinha provavelmente poupado no parafuso, escolhendo os mais rascas, e que o resultado era este: ferrugem a escorrer pelas colunas abaixo.

A Expo, hoje uma coisa longínqua, foi, naquele tempo, um bálsamo para o ânimo da nação. Com ela, e depois com o Europeu de futebol, quase nos deixámos convencer de que tínhamos atravessado o deserto e chegado ao outro lado: a um jardim civilizado, ordenado, limpo, moderno e criativo. Quase nos convencemos de que havia qualidade no que fazíamos: que os edifícios eram bem construídos, que as contas eram bem feitas, que os médicos eram competentes, que as universidades ensinavam bem, que as marcas eram honestas e que os reguladores eram atentos.

A Expo foi o cenário de um novo Portugal. Não para os estrangeiros, que continuavam (e continuam) a procurar as ruas esconsas com roupa ao sol e velhas de bigode à janela, mas para os portugueses. E afinal era mesmo, e apenas, um cenário. Uma coisa feita com parafusos de má qualidade para poupar na obra. Uma coisa provisória enquanto Portugal não voltava. E voltou.

Quando eu trabalhava para aquelas zonas, era raro o dia em que não via uma equipa de fotografia ou de cinema a aproveitar a promessa de futuro proporcionada por aquela paisagem moderna e urbana. A Gare do Oriente – nome maravilhoso, de aventura, mistério e riqueza – que serviu de cenário a inúmeros filmes promocionais, anúncios e obras de ficção, era um símbolo então e é um símbolo agora.

O símbolo de uma empreitada que, embora bem desenhada, foi aparafusada com roscas e parafusos rascas; e, por isso, chora ferrugem do mesmo modo que muitos portugueses choram por ver o tempo a andar para a frente e a vida a andar para trás.

É importante lembrar as roscas e os parafusos agora que se fala de recuperação e se começa a desenhar o futuro. É que o diabo, como se diz em arquitectura e como sabe quem sabe trabalhar, está nos detalhes.

Publicitário, psicossociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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