Alda, Elvira, Liliana & Nádia

Eu até gostava de voltar a fazer anúncios; dos clássicos, dos
modernos, dos normais, dos digitais, dos virais. Mas não é possível
a 4,85 euros por hora. É que eu preciso da Alda e a minha Alda ganha
mais do que isso. Gostava de fazer uma campanha como a da prevenção
rodoviária inglesa (ver aqui). Ou como a do Metro de Melbourne de que aqui já
falei
(que pode ver aqui). Ou como a campanha da Guinness para o dia de São Patrício (aqui).
Ou como a campanha neozelandesa Driving dogs. Ou como a da Microsoft
feita em Portugal
pelo Nuno Jerónimo (e não pela sua Elvira). Mas a
4,85 euros por hora é difícil.

Vem isto a propósito do caderno de encargos do concurso que a CP
abriu para escolha de agência de publicidade. Um caderno de encargos
que, embora formalmente bastante bem feito, tem como condição
remunerar os profissionais da comunicação com um valor inferior ao
que se paga a uma mulher-a-dias. (leia mais aqui)

De acordo com a análise que a Sofia Barros, executive manager da
Associação Portuguesa das Empresas de Publicidade e Comunicação
(Apap), fez ao dito caderno, a CP pretende ter uma equipa equivalente
a 3,9 profissionais a tempo inteiro e pagar-lhes 4,85 euros por hora.
Muito menos do que a Sofia paga à sua Liliana.

Eu sei que o grande problema da economia portuguesa assenta nos
elevados salários que auferem as mulheres-a-dias. Se as pudéssemos
escravizar e pagar-lhes nada, então os salários cairiam em cascata
e poderíamos, sem desmerecimento, pagar a um gestor que estudou e
completou o seu curso ou a um director de arte de talentos raros bem
menos do que o meu sócio Wengorovius paga à sua Nádia.

O que a CP parece procurar, para planear, conceber e executar a
sua comunicação, é uma agência de publicidade que tenha menos
habilitações do que as necessárias para ir à mercearia comprar
fruta. Quem as senhoras Cristina Maria dos Santos Pinto Dias, vogal
responsável das área do marketing, e Filipa Ribeiro, da direcção
de marketing, procuram para interlocutores são pessoas com menos
talento do que o necessário para fazer camas. Nem a agência Alda,
Elvira, Liliana & Nádia caberia dentro dos critérios deste
caderno de encargos. É ridículo.

(Pergunto-me se este caso de procurement irracional não terá já
chegado a outras áreas da companhia? Por exemplo, a segurança. Não
me admirava que qualquer dia os comboios começassem a chocar uns
contra os outros.)

“Ah pois é, mas não temos dinheiro”, dirão os responsáveis
da CP, como dizem muitos outros anunciantes que querem continuar a
viver como dantes (com o mesmo número de projectos e o mesmo número
de fornecedores). Ora eu digo-lhes que a solução não é fazer o
mesmo muito pior; é ter melhores pessoas a fazer muito melhor,
embora menos. Como diria Isabel Jonet com crua lucidez: “Comam
menos bifes”.

Publicitário, psicossociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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