BlackBerry

BlackBerry, a agonia do fim

Em 2004, não se conseguia dar um passo numa convenção norte-americana sem esbarrar com os olhos num BlackBerry azul. Daqueles tipo bolacha, cheio de teclas maravilhosamente pequenas e uma rodinha de lado. Agora, não se consegue pôr um pé nos Estados Unidos sem ouvir os toques típicos do iPhone por todo o lado.

O BlackBerry vai acabar. Os fãs devem começar já a habituar-se à ideia, porque é fatal como o destino. A casa-mãe Research in Motion está a cair aos bocados e o desespero é gritante. Não é por falta de querer; e, ao contrário de quase todas as outras fabricantes, toda a gente torce para que a empresa se recomponha. O BlackBerry foi, talvez, o primeiro smartphone que gerou comportamentos tipo culto. Chamavam-lhe “CrackBerry” por algum motivo.

Mas neste momento é tarde demais. Assim que o novo CEO Thorsten Heins revelou que os novos modelos com BlackBerry 10 já não vão sair em 2012, soaram os alarmes. A marca não tem absolutamente nada para apresentar na reentré, e nada para a época do Natal. Vai lançar os novos modelos tácteis no início de 2013, quando o mercado desce brutalmente por causa da ressaca das compras de Natal?

Os analistas dizem que este adiamento é para sempre, e eu concordo. Já não vai sair, e é uma pena porque parecia bem interessante. O que vai acontecer é que a RIM será forçada a partir-se em duas ou a entrar num acordo contra natura com a Microsoft. Mais uma fabricante moribunda a entregar-se ao Windows Phone 7, como se isso fosse mudar alguma coisa. Claramente, pelo exemplo da Nokia, não mudou coisa nenhuma.

Mas assim como está, assim como nos habituámos, o BlackBerry vai desaparecer. O novo sistema operativo é desenhado especialmente para ecrãs tácteis; mesmo que a RIM mantenha os modelos com teclados QWERTY, para não alienar os seus fãs zelosos, que tipo de desenvolvimento pode prometer? Vai despedir cinco mil pessoas. Não pode trabalhar em múltiplos projectos ao mesmo tempo.

A desgraça do BlackBerry podia ter sido evitada, mas era mais difícil fazê-lo que no caso da Nokia. O BlackBerry tinha dois elementos distintos: o excelente serviço de email e os teclados QWERTY. Porque é que matariam isto e passariam para o táctil, só porque um senhor chamado Steve Jobs decidiu entrar no mercado? Se a RIM o tivesse feito, seria crucificada pelos seus fãs.

O pecado capital da RIM foi ter passado demasiado tempo a atender aos desejos das operadoras e menos a ouvir o que os clientes tinham para dizer. A queda começou há cinco anos, quando o iPhone apareceu, mas só se acentuou em 2011 – o ano em que os accionistas e o conselho de administração perceberam que o colapso era iminente.

O colapso está aí. Dois trimestres de prejuízos consecutivos, queda brutal das vendas, previsões de mais prejuízos para o resto do ano. Sem modelos novos, as operadoras desinvestem no BlackBerry. Sem novidades, os consumidores fazem fila para comprar um Android, que ainda por cima é mais barato e dá para instalar tudo o que é aplicação, legal ou não. O segmento mais alto do consumo, que tem poder de compra, dirige-se à loja da Apple mais próxima e regressa com um iPhone no bolso.

Sim, a RIM ainda tem uma comunidade de 78 milhões de utilizadores de BlackBerry e cerca de dois mil milhões de euros de liquidez. Mas é uma almofada frouxa. Compare-se isso com os 217 milhões de iPhones vendidos em cinco anos e com a Google, que activa um milhão de Androids por dia.

A solução é terrível. A RIM terá de fazer uma parceria qualquer, terá de se render ao táctil, terá de acabar com o BlackBerry que sempre conhecemos. Isto é, se sobreviver – na improbabilidade de alguém ter uma epifania dentro da empresa e trazer a magia de volta.

Jornalista

Escreve à terça-feira

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Mário Centeno 
(EPA-EFE/PATRICIA DE MELO MOREIRA)

Lentidão nos reembolsos fazem disparar IRS em plena crise

Fotografia: José Sena Goulão/Lusa

Costa. Plano de rotas da TAP “não tem credibilidade”

portugal covid 19 coronavirus

1342 mortos e 31007 casos confirmados de covid-19 em Portugal

BlackBerry, a agonia do fim