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Criativos no mundo.”Devíamos estar motivados. Temos o mais difícil: talento”

Nuno Pestana Teixeira é senior art director na Crispin Porter  Bogusky em Boulder, Colorado
Nuno Pestana Teixeira é senior art director na Crispin Porter Bogusky em Boulder, Colorado

De Singapura apanhou o avião rumo a Boulder, Colorado. A cidade norte-americana é conhecida pela beleza natural, tem as Rocky Mountains como pano de fundo, mas não foi por isso que Nuno Pestana Teixeira a escolheu como destino.

Chegou em novembro do ano passado para ser senior art director na Crispin Porter + Bogusky, em Boulder, com o seu dupla, o australiano Jexy, que conheceu na TBWA de Singapura.

Juntou-se ao seu espelho criativo há sete anos, depois de em 2009 ter ganho o Young Lions em Imprensa, na época fazendo dupla com Clara Tehrani. Anos depois regressou ao Cannes Lions, já com Jexy, para representar Singapura. Voltou a ganhar em imprensa. Estávamos em 2012.

Leia ainda: João Coutinho (Grey de Nova Iorque) e Paulo Martins (72andSunny), Vasco Vicente (Wieden + Kennedy de Amesterdão), Ricardo Adolfo (Ogilvy & Mather Japão), Susana Albuquerque (Tapsa Y&R Madrid), Miguel Durão (Johannes Leonard), Hugo Veiga (AKQA São Paulo), Bruna Gonzalez (Ogilvy Paris), Frederico Roberto (VML Londres), Frederico Saldanha (Isobar Américas), Hugo Gomes (Kettle Cupertino), José Filipe Gomes e Pedro Lourenço (DDB Berlim) e Daniel Soares (R/GA LA)

Trabalhou marcas como a Corona, Airbnb, Pernod Ricard, Adidas, Singapore Airlines, Standard Chartered Bank ou a Energizer. Este ano a campanha criada para a Airbnb, Welcome to Airbnb, deu-lhe um Leão de Bronze em Craft. Recebeu a notícia já estava há vários meses em Boulder na Crispin Porter + Bogusky – “agência onde tudo está virado para a criatividade” -, onde tem vindo a trabalhar contas como a Infiniti ou a Hotels.com. “Em Boulder vivemos todos no meio do nada, rodeados de quintas e vacas e montanhas, portanto quem aqui está, veio pelo trabalho”, diz.

De Lisboa rumaste a Singapura, agora estás em Boulder, Colorado. O que te levou a fazer este ziguezague geográfico?

Apesar de não ter planeado mudar-me sempre para continentes diferentes, acabei por o fazer, e sempre motivado pelo trabalho. Comecei na FCB Lisboa (na altura Draftfcb), que foi uma escola importantíssima para mim como criativo, sobretudo como diretor de arte. Lá comecei a trabalhar com a Clara Tehrani, e depois de algum sucesso em Cannes [ganharam o Young Lions em Imprensa em 2009], fomos convidados para ir para a TBWA de Singapura. Era uma excelente oportunidade de crescimento profissional e pessoal, portanto aceitámos imediatamente. Cinco anos mais tarde, depois de aprender muito, fazer bastante trabalho, e experimentar de tudo o que havia na Ásia, mudei mais uma vez pelo trabalho, quando surgiu esta oportunidade de vir para a CP+B com o meu atual copywriter, o Jexy. Foram mudanças muito grandes, mas sempre com o mesmo objetivo: aprender e tentar fazer o melhor trabalho possível.

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Na TBWA Singapura trabalhaste a conta da Airnb, marca internacional. Há uma forma efectivamente diferente de fazer publicidade no Oriente?

Em Singapura não há um grande mercado local, porque trata-se de um país minúsculo, por isso acaba-se sempre por trabalhar em marcas globais ou regionais. Isto por vezes torna a tarefa bastante difícil porque, ao contrário da Europa (onde regra geral os países são relativamente homogéneos em termos de mentalidade), na Ásia cada país difere muito na sua cultura, riqueza, religião, raça e insights. Portanto, as marcas correm muito menos riscos, com receio de poder ofender alguém. Dos três continentes onde já trabalhei, a Ásia é sem dúvida onde é mais difícil vender bom trabalho aos clientes. A exceção está talvez nas marcas mais globais, como a Airbnb, que estão dispostos a correr os mesmos riscos em todo o mundo.

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E agora nos Estados Unidos há uma ‘american way’ de abordar a criatividade?

É sem dúvida diferente de tudo o que já tinha experimentado. O ambiente de trabalho é muito mais competitivo, muita política dentro do trabalho, e ninguém se auto-promove como os americanos. Usando um termo inglês, aqui há uma enorme quantidade de “bullshit” diária. Mas isto não quer dizer que se perca tempo, porque aqui produz-se muito trabalho, e há uma quantidade inigualável de campanhas fantásticas. Toda a indústria nos Estados Unidos está virada para produzir trabalho, e embora nem sempre aconteça, quando uma campanha é feita, é feita com qualidade.

Como foi a adaptação à máquina criativa da Crispin Porter + Bogusky? Qual é o mindset da agência?

No início, é um choque. Sem desrespeito pelas agências onde trabalhei antes, nunca tinha estado numa agência onde tudo está virado para a criatividade. Planners, Accounts, Tráfego, Produção, todas as pessoas que aqui trabalham partilham o mesmo objetivo: fazer bom trabalho. Aqui, os accounts e os planners também se preocupam com manter uma boa “pasta” e com fazer trabalho merecedor de prémios. Aqui em Boulder vivemos todos no meio do nada, rodeados de quintas e vacas e montanhas, portanto quem aqui está, veio pelo trabalho.

Nestes anos de êxodo criativo que campanhas destacam – pelo impacto ou gozo pessoal – do teu percurso?

Como diretor de arte, o filme da Airbnb deu-me imensa satisfação, porque basicamente passei dois meses a construir – com a ajuda de 40 “cromos” neozelandeses – um enorme set em miniatura da maneira que eu queria.

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Outra campanha que foi importante para nós foi a “Reinventing the Autograph” que fizemos para a Adidas, porque apesar de ter tido muitos problemas, e do case study ser terrível, foi uma campanha que podia ter morrido umas 10 vezes em duas semanas, mas nunca desistimos de a fazer. Como muitos criativos, as minhas ideias favoritas nunca viram a luz do dia, mas eu sou português e sou do Sporting, por isso estou habituado a sofrer e a continuar sempre a lutar!

Portugal vive uma espécie de êxodo de criativos. Hoje dão cartas na publicidade, a avaliar pela última edição do Cannes Lions. A crise explica esta ‘troika’ de países ou nem por isso?

A crise afeta a nossa indústria, os budgets dos clientes, e os riscos que os mesmos estão dispostos a correr. E não há nada mais frustrante para criativos de que ter boas ideias que nunca vêem a luz do dia, por falta de dinheiro, coragem ou oportunidade. Para mim essa será a principal motivação para os criativos emigrarem. Para nós, mais importante que o dinheiro, é a oportunidade de trabalhar num sítio onde as nossas ideias consigam ser mais do que um “deck” para apresentar numa reunião.

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A visibilidade que os criativos portugueses estão a ter lá fora traz novo interesse pelos criativos nacionais no exterior? Há mais abertura quando chegas com o teu portefólio ou nem por isso…

Infelizmente, a maior parte do mundo ainda nos confunde com brasileiros! Aqui na CP+B, há uns 5 brasileiros, e quase toda a agência acha que eu sou mais um… Curiosamente, o próprio Chuck Porter sabia que eu era português, e quando me conheceu, disse “Finalmente, um original!”. Eu acho que, para haver mais interesse em criativos portugueses, são as agências em Portugal que têm de ser mais visíveis. Os criativos brasileiros são muito respeitados porque, ao longo dos anos, há campanhas fenomenais vindas de agências no Brasil que todo o mundo reconhece. E foi isto que elevou a percepção da criatividade brasileira. Portugal tem muito talento, e para este ser visível, as agências em Portugal têm de ser vistas em todo o mundo a “dar cartas”.

E o que falta em Portugal para o sector, como coletivo, dar o salto em frente?

Este ano em Cannes, falou-se muito que houve mais “leões” ganhos por portugueses no estrangeiro, do que por agências portuguesas. Muita gente disse que isto foi a prova de como o problema está no país – eu acho que isto é uma maneira tão negativa de pensar… Em vez de olharmos para estes números como uma desculpa, devíamos estar motivados por sabermos que temos o mais difícil: talento. Em Portugal, sinto que falta, coletivamente, uma vontade de nos abrirmos mais ao mundo. Lisboa devia ser uma cidade muito mais internacional do que é atualmente. Temos de tentar ter ideias que sejam relevantes para o mundo globalizado. Espanha tem a mesma crise, mais desemprego e, no entanto, a indústria do marketing é mais reconhecida, e é um destino atrativo para criativos. Temos de meter na cabeça que também podemos ser uma potência criativa (talento não falta, como se vê), em vez de nos resignarmos com o facto de que as coisas não são fáceis. As coisas não são fáceis em lado nenhum.

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Voltar a Portugal está nos planos?

Por enquanto planeio estar mais alguns anos nos Estados Unidos, talvez ainda tentar outra cidade por cá. Também gostava muito de trabalhar na Austrália, onde tenho muitas ligações profissionais e pessoais. Mas mais à frente não me oponho à ideia de voltar. Já ouvi dizer que ninguém gosta tanto de Portugal como quem está ou esteve fora. E depois de 6 anos fora, confirmo!

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