Criativos no Mundo

Criativos no mundo. Emigrar “é a forma mais brutal de mudarmos de dieta”

ng4468336

Correu meio mundo. Há três anos que Ricardo Adolfo está no Japão. Tóquio. O novo carimbo no passaporte depois de 12 anos em Amesterdão.

Partiu de Lisboa, onde em 1997 tinha ganho um Leão de Ouro em Imprensa para a campanha para uma marca de pensos rápidos, a Derban. Uma mão aberta, dois pingos de sangue onde estaria o agrafo da página. Na época estava na Z, depois passou pela JWT. DDB de Amesterdão e Londres, 180 Amsterdam são algumas das agências por onde passou.

É escritor. De contos como Os Chouriços são todos para Assar (2003), Mizé-Antes Galdéria do que Normal e Remediada (2006) ou Depois de Morrer Aconteceram-me muitas Coisas (2009).

Filmou com Wong Kar Wai, There’s Only One Sun. Campanha de 2007 para a Philips, filmada em Xangai, montado em Hong Kong e produzidos em Los Angeles.

A carregar player...

Há três anos decidiu mudar radicalmente de dieta criativa. Chegou a Tóquio em 2012. Primeiro como consultor para agências como Hakunodo, Mori Inc ou Projector. Desde novembro de 2013 é diretor criativo da Ogilvy& Mather Japão, para quem conquistou um Leão no Cannes Lions para a campanha criada para a Condomania.

Leia aqui o testemunho de outros criativos pelo mundo: João Coutinho (Grey de Nova Iorque) e Paulo Martins (72andSunny) e Vasco Vicente (Wieden + Kennedy de Amesterdão)

Optaste por ir para o exterior. O que motivou essa decisão?

Uma das formas de evoluirmos em termos criativos é procurarmos trabalhar em espaços fora da nossa zona de conforto. Obriga-nos a fazer novas aprendizagens, a questionar o que tomamos como certo e expões-nos a estímulos novos. Emigrar é mudar de país, de família, de amigos, de comida, de cheiros, de cores, de oxigénio. É a forma mais brutal de mudarmos de dieta.

Porquê o Japão, a agência? Foste sozinho ou com o cão, o gato…

Vim de boleia com todos os elementos do circo. Depois de 12 anos em Amesterdão a trabalhar em contas regionais e globais, conclui que precisava de um desafio novo. Um desafio que me tirasse mais uma vez da minha zona de conforto e me oferecesse uma experiência cultural e social dispare das que tive até hoje. O Japão é um dos mercados líderes mais interessantes de momento, pois combina como nenhum outro o conservador e o inovador. O espaço criativo é todo e nenhum ao mesmo tempo. É uma proposta quase impossível para quem não é nativo e não trabalha para as duas grandes agências locais. As probabilidades de insucesso são tão grandes que tornam o desafio irresistível.

Como avalias a experiência até agora?

Cheguei no início de 2012 e comecei a trabalhar freelance para várias agências, o que me ofereceu uma visão geral do mercado num curto espaço de tempo. Nos últimos dois anos tenho estado a trabalhar para a Ogilvy & Mather. Tem sido uma experiência muito positiva visto que a agência evolui nos últimos 24 meses de uma agência de alinhamentos comum para uma das agências internacionais mais premiadas no mercado, e com uma performance única na conquista de contas novas.

Isto da criatividade é uma aldeia global ou não é bem assim?

A minha entrada na agência coincidiu com um período de reinvenção da agência em termos criativos e de novos clientes, e um sistema em transformação oferece sempre mais resistências. Numa perspectiva puramente criativa, a criatividade a Este é diferente de a Oeste. A forma também pode ser o conceito. A ideia pode ser a execução. Naturalmente as diferenças sociais e culturais vem todas ao de cima e se é verdade que há uma série de referências comuns de Tóquio a Lisboa, também é verdade que as especificidades locais podem as mais díspares.

Como é ser um criativo português em Tóquio? Qual diria que foi o ‘seu’ momento na agência?

Felizmente, tenho conseguido produzir vários trabalhos que têm sido muito premiados e um sucesso em termos de negócio. Um dos mais aliciantes foi o lançamento nacional de um detetor de mentiras para um dos maiores fabricantes de brinquedos. O produto é intrinsecamente japonês e a execução do projeto foi feita na sua totalidade em japonês também. Tendo em conta que ideia estava baseada no testar do produto nos personagens locais mais peculiares, não foi fácil confrontar com a verdade um monge, um travesti, uma oportunista e alguns outros sem saber o que me diziam.

Saiba mais sobre a campanha aqui

O regresso é uma possibilidade?

Quando se emigra deixamos para trás um espaço e um momento que rapidamente é preenchido por outros. O nosso espaço deixa de existir. Não temos como voltar para onde estávamos, podemos apenas emigrar para o país de onde um dia saímos e começar tudo mais uma vez.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
TimVieira_1-1024x683

“Fui quem mais investiu e mais perdeu no Shark Tank. E também quem ganhou mais”

João Lourenço, Presidente de Angola. Fotografia: ESTELA SILVA/LUSA

Dívida externa angolana financiou “enriquecimento ilícito de uma elite”

Lisboa, 12/06/2019 - Mariana Vieira da Silva, ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, fotografada esta tarde nos estúdios da TSF, durante uma entrevista 'A Vida do Dinheiro'  TSF/Dinheiro Vivo.
( Gustavo Bom / Global Imagens )

Mariana Vieira da Silva: Repetir a geringonça “é possível e desejável”

Outros conteúdos GMG
Criativos no mundo. Emigrar “é a forma mais brutal de mudarmos de dieta”