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Criativos no mundo.”O nosso mini mercado ajuda-nos a crescer como criativos”

Hugo Gomes segue para a Kettle em Cupertino
Hugo Gomes segue para a Kettle em Cupertino

Segui há oitos anos rumo a Londres por motivos misteriosos que não quis adiantar, mas com um objetivo. Deixar o meio da publicidade digital. Queria dedicar-se às fotografias. Mas a vida tem o dom de nos trocar as voltas e o mesmo aconteceu a Hugo Gomes.

Hugo Gomes até podia querer deixar o mundo da publicidade, mas o mundo da publicidade tinha outros planos. Em Londres bateu à porta da AQKA. Trabalhou Nike e XBox. Seguiu para São Francisco. “Um choque criativo” que na entrevista ao Dinheiro Vivo explica porquê.

Leia aqui o testemunho de outros criativos pelo mundo: João Coutinho (Grey de Nova Iorque) e Paulo Martins (72andSunny), Vasco Vicente (Wieden + Kennedy de Amesterdão), Ricardo Adolfo (Ogilvy & Mather Japão), Susana Albuquerque (Tapsa Y&R Madrid), Miguel Durão (Johannes Leonard), Hugo Veiga (AKQA São Paulo), Bruna Gonzalez (Ogilvy Paris), Frederico Roberto (VML Londres) e Frederico Saldanha (Isobar Américas)

Trabalhava a conta da Jordan/Nike até que uma nova marca e agência chamou por si. A partir de agosto vai integrar a Kettle, em Cupertino, como associate creative diretor. Vai trabalhar a Apple. Love brand maior no mundo não deverá haver. Portugal não está fora dos planos do criativo. Com um filho pequeno, Noah, as saudades do país pesam mais, admite. Depois de quase dez anos com a mochila às costas, “Portugal será sem dúvida a última paragem.”

O que te atraiu na Kettle?

Eram já muitos anos de AKQA e senti que a Kettle poderia ser um desafio bastante interessante para a minha carreira. Chegou a altura de trocar uma agência que foi recentemente adquirida pela WPP e fazer parte de uma outra independente que representa mais liberdade e autonomia para mim como criativo. Devo muito à AKQA e não foi uma decisão fácil mas, o facto de ter lá dois ex-colegas da Fullsix Nova Iorque fez-me voltar às origens e pensar como poderei a partir de agora ajudar a Kettle em novos desafios.

Conheça melhor o trabalho de Hugo Gomes aqui

Estiveste oito anos ligado à AKQA primeiro em Londres e até agora em São Francisco. O que motivou esta tua decisão de pegar nas malas e rumar a Londres?

Se contar agora a razão vou-me sentir culpado de não ter cumprido uma promessa. Queria mesmo deixar a indústria da publicidade digital e fazer algo mais relacionado com fotografia. Sempre pensei que seria uma mudanca demasiado grande mudar de área e de país ao mesmo tempo, mas senti que teria que experimentar uma last call para alguém com 27 anos em Portugal. Foi uma experiência interessante que não resultou, não pela dificuldade de assimilar uma cultura nova e um novo projeto, mas sim porque o responsável pelo projeto desapareceu do mapa sem dizer nada. Senti que estava por conta própria e que o melhor seria voltar a trabalhar naquilo que me sentia mais confortável. Fui a duas agências de referência, uma delas a AKQA, e arranjei trabalho com a minha marca preferida, a Nike, numa altura em que a conta estava a crescer e mais desafios se aproximavam.

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Como foi o confronto com a realidade das agências em Londres e depois nos Estados Unidos? Um choque ou já não há barreiras culturais?

O meu maior desafio não foi de integrar-me na cultura e no escritório, mas de ponto de vista criativo foi um grande choque. Gostava de referir que me mudei para a conta da XBox algo que tanto ambicionava antes de partir de Londres. No entanto, a realidade dos Estados Unidos era completamente diferente de uma realidade londrina europeia. Visualmente eram menos desenvolvidos e remetiam o projeto para a vertente da ideia, à qual chamavam a “big idea”. Passei mais tempo em conceito e ideia e menos em produção, algo interessante no início que se tornou mais tarde num cemitério de ideias e pouca produção. Passei por Red Bull, YouTube, Levis e Budwiser acabando por ser parte integrante do pitch para a Jordan, o qual ganhamos e no qual fiquei até ao meu último dia na AKQA.

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Nestes anos de êxodo criativo que campanhas destacas – pelo impacto ou gozo pessoal – do teu percurso?

Destaco três campanhas que realizei nestes últimos oito anos pelo gozo, pela experiência e por tudo o que apendi com elas. A primeira em Londres foi Nike Grid algo que acabou por ser o primeiro trabalho para a Nike em que fui responsavel criativo com o meu colega Guy Bingley (copy). Projeto que nos deu muito gozo e em que a ideia foi primeiro posta a prova por 24h, tendo-se estendido por uma semana. Briefing: como fazer a juventude em Londres gostar de correr. Resposta: criar um jogo social utilizando as antigas cabines telefónicas de Londres como início e fim da corrida, através do uso da tecnologia e de códigos inseridos no teclado dos telefones.

A segunda – que não chegou a ser produzida a uma semana de ir para o ar – foi para Youtube e o vídeo era o lançamento do novo álbum dos Coldplay [Paradise]. Ainda hoje se fala desta campanha dentro da agência de Sao Francisco com alguma frustração por ter sido cancelada a dias de ir para o ar, por causa do manager dos Coldplay. Uma ideia, mais uma vez, simples: um mashup pessoal do video de Coldplay introduzindo diferentes vídeos de outros artistas menos famosos ou “mais famosos pelo Youtube” a tocarem diferentes instrumentos musicais.

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Por último um projeto no qual fiz parte da equipa da Jordan: “The Last Shot”. Projeto premiado em Cannes, que irá correr o mundo fora de Nova Iorque, Paris ao Dubai. A ideia foi de recriar o último cesto de Michael Jordan contra os Utah Jazz, quando era ainda atleta da escola de North Carolina. A revista Wired referiu que se tratava de o simulador mais cool de basketball alguma vez criado.

Portugal vive uma espécie de êxodo de criativos para o exterior. Hoje dão cartas na publicidade, a avaliar pela última edição do Cannes Lions. A crise explica esta ‘troika’ de países ou nem por isso?

Sim, tenho muitos colegas meus que estiveram este ano em Cannes dos quais muito me orgulho. Nunca duvidei da qualidade dos criativos portugueses e muitos deles sinto que ajudei a darem o salto para a AKQA. Não me sinto pioneiro, mas sinto que muitos mais deixaram de lado a razão que os mantinha em Portugal, acabando por aceitar o desafio. Em muito se deveu à situação do país, mas a crise não é o único factor: as oportunidades são imensas quando deixamos o nosso país.

A visibilidade que os criativos portugueses estão a ter no exterior traz novo interesse pelos criativos nacionais lá fora? Há mais abertura quando chegas com o teu portefólio ou nem por isso…

Muitos dos criativos portugueses têm excelente trabalho além fronteiras, o que acaba por ser um excelente incentivo para alguns tentarem também a sua sorte. Não julgo que seja só a abertura do mercado mas também a qualidade. O português muitas das vezes julga-se inferior mas quando chega lá fora repara que afinal somos tão bons ou melhores que outros. A profissão é bastante competitiva, mas sinto que o nosso mini mercado ajuda-nos a crescer como criativos e a ter melhor preparação que outros paises.

O que falta em Portugal para o sector, como coletivo, dar o salto em frente?

Para Portugal o salto já foi dado num sentido de criar a mão-de-obra necessária para o sucesso na área. O grande dilema é a nivel de contas internacionais. Continuamos no nosso nicho de mercado, apesar de já termos exemplos de sucesso a trabalhar para projetos internacionais. É bom ver que também se pode criar trabalhos com visão internacional, mesmo sendo de projectos apenas nacionais. Precisamos de apostar em empresas que trabalham produto nacional também capazes de se expandir fora do mercado português.

Voltar a Portugal está nos planos?

Já são 10 anos de mochila às costas. Entretanto acabou por ser em São Francisco que o Noah nasceu e agora o futuro será voltar para Portugal brevemente. Agora é pensar no dia-a-dia e esperar que as coisas corram bem, mas Portugal será sem dúvida a última paragem. Por mais que as opiniões dos meus amigos portugueses mude, para mim e preciso estar fora para perceber o que se perde. Estou sempre com o pensamento em Portugal, principalmente agora com um filho a família pesa sempre mais que o resto. Agora é aproveitar ao máximo e estando em Silicone Valley essa é a oportunidade que não poderia perder.

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