criativosnomundo

Criativos no mundo. “Portuga, se voltar a entrar aqui com trocadilhos, pode voltar pra terrinha”

ng4468376

Há poucos criativos do mundo que têm 29 Leões lá em casa. Hugo Veiga é um deles. O copy português que seguiu para o Brasil fazer um estágio, nem sonhava que um dia ia criar uma das campanhas mais virais de sempre com mais de 66 milhões de visualizações.

Retratos da Vida Real, para a Dove, foi considerada uma das campanhas da década pelo YouTube. Ganhou praticamente tudo o que havia a ganhar em festivais de publicidade em 2013. No Cannes Lions ganhou 20 Leões, um Grand Prix.

Hugo Veiga, que tinha ido em 2005 para a Ogilvy & Mather de São Paulo para fazer um estágio, foi considerado o melhor copy do ano pelo The Gun Report. No ano seguinte foi liderar a abertura da AKQA de São Paulo, agência do grupo WPP (o mesmo da Ogilvy), com o seu dupla, Diego Machado. Retratos da Beleza Real está bem arrumado na sua cabeça. “Se eu tivesse a ambição de superar estes resultados, não conseguiria dormir e já teria enlouquecido por esta altura. Aconteceu, é passado e abriu-nos as portas para esta nova fase, que não é sobre prémios”, diz.

Leia aqui o testemunho de outros criativos pelo mundo: João Coutinho (Grey de Nova Iorque) e Paulo Martins (72andSunny), Vasco Vicente (Wieden + Kennedy de Amesterdão), Ricardo Adolfo (Ogilvy & Mather Japão), Susana Albuquerque (Tapsa Y&R Madrid) e Miguel Durão (senior copywriter da Johannes Leonard)

Optaste por ir para o exterior prosseguir a tua carreira. O que motivou essa decisão?

Eu sempre alimentei a ambição de ter uma experiência profissional fora de Portugal, principalmente pela dificuldade do desafio. Por abandonar a área de conforto e enfrentar um ecossistema pessoal, cultural e institucional completamente diferente. Em 2002 decidi ir a Londres mostrar portefólio, mesmo com apenas um ano de experiência em que não tinha muito para mostrar. Não deu em nada, mas as entrevistas que tive foram importantes para formatar o pensamento com que regi o resto da minha carreira.

Porquê o Brasil?

Em 2005, ganhei o concurso de jovens criativos num festival Internacional de publicidade cujo prémio era um estágio na Ogilvy de São Paulo. Como o Brasil é uma das potências mundiais de criatividade publicitária, não pensei duas vezes em aceitar o desafio. Mudei-me sozinho, sem conhecer uma única pessoa em São Paulo.

Leia ainda: Criativos no mundo. Na selva da publicidade, os reis são portugueses

Como avalias a experiência até agora?

Quando nos mudamos para outro país tornamo-nos uma espécie de esponja que absorve tudo. É um ato instintivo. Como estamos em ambiente estranho, os nossos sentidos ficam mais apurados e atentos ao mundo, pelo que absorvemos uma quantidade muito maior de informação. Por outro lado, o contato com outras formas de pensar e agir também nos faz crescer como profissionais e pessoas. Felizmente, no Brasil fui muito bem recebido e só guardo boas recordações dos 10 anos que vivi aqui.

Como foi o confronto com a realidade da agência? Ou isto da criatividade é uma aldeia global e já não há choques culturais.

Na McCann Lisboa, onde trabalhei em 2001, tinha um amigo brasileiro que dizia “Hugo, você é o português mais brasileiro que conheço”. Acho que ele tinha razão porque quando me mudei para o Brasil em 2005 senti-me imediatamente em casa. Fui muito bem acolhido e encarava qualquer programa. Churrascos, aniversários, pic-nics, viagens para a praia, casamentos, batizados,… era só chamar que eu ia. Talvez por isso, durante 3 anos evolui de “Portuga, você é o português mais brasileiro que nós conhecemos” para “Portuga, você está ficando mais brasileiro que português” e finalmente “Caraca portuga, você já é mais brasileiro que a gente”.

O primeiro contato com a dinâmica de agência brasileira foi de pura admiração. Na altura, a Ogilvy era uma das agências mais premiadas do Brasil e via vários projetos incríveis a serem produzidos nas mesas dos criativos. Estar rodeado de criativos obcecados com bom trabalho, incentivou-me ainda mais a dar o meu melhor.

A carregar player...

Como é ser um criativo português no Brasil?

A publicidade portuguesa é povoada de trocadilhos. A título de exemplo: “Worten sempre”, “Menta maçã, corpo são” para Compal de Maçã e Menta e “Dó, Ré, Mi, Fá Só 2 euros” para uma coleção de CD”s do JN. Na propaganda brasileira, copywriters fogem de trocadilhos como o diabo da cruz. Alheio a esse facto, fui para a minha primeira apresentação de headlines orgulhoso pelos inúmeros que consegui amontoar em diversas páginas. “Portuga, se você voltar a entrar aqui com trocadilhos, pode voltar pra terrinha”, foi o feedback da minha diretora criativa. E como é o mercado brasileiro? Como tudo na vida, tem coisas boas e más. Dentro das agências é um mercado extremamente criativo e apaixonado. Ótimo. Mas que ainda não conseguiu exteriorizar toda essa criatividade. Estamos em meio a uma revolução, impulsionada pelas redes sociais, que só tende a melhorar o mercado criativamente e modernizar a forma de pensar das agências e clientes. A parte má é que ainda não sabemos cuidar mais das pessoas. Cada vez mais, ótimos profissionais abandonam suas carreiras por causa do dia a dia desgastante e agressivo imposto pelo mercado de que fazemos parte hoje.

Qual dirias que foi o ‘teu’ momento na agência?

Em fevereiro de 2014, eu e o meu dupla fomos convocados para liderar o processo de concurso da campanha Digital de Visa para o Campeonato do Mundo. Agências tendem a jogar pelo seguro neste tipo de projetos, mas eu e o meu dupla decidimos apostar tudo numa ideia. Mesmo estando recém chegados ao escritório da AKQA de São Francisco, com uma equipe que não conhecíamos. Mesmo estando a 4 meses do início do evento, apresentamos uma ideia que incluía a produção de um vídeo e uma música nos 32 países qualificados para o Campeonato do Mundo. Um pesadelo logístico, sem garantias de sucesso, mas cujo potencial levou os clientes a embarcarem na loucura. Felizmente, tudo deu certo. Conseguimos produzir o projeto e os resultados superaram os objetivos.

A carregar player...

Foste autor de uma campanha super-premiada em festivais criativos e hiper-partilhada nas redes sociais. Depois disso, como é que se produz uma nova campanha? Sentes o peso do ‘ai tenho de ter tanto sucesso como…’

Real Beauty Sketches ganhou 20 Leões, sendo 10 de ouro e o primeiro Grand Prix de Titânio da América Latina. Se eu tivesse a ambição de superar estes resultados, não conseguiria dormir e já teria enlouquecido por esta altura. Aconteceu, é passado e abriu-nos as portas para esta nova fase, que não é sobre prémios. A AKQA está a dar-nos a oportunidade de recriar o modelo de agência adaptada ao mundo que vivemos e acreditamos. Começar esta agência do zero, dá-nos a autonomia para planear as condições ideais para gerar as melhores ideias. Ajaz Ahmed, fundador da AKQA, deu-nos toda a autonomia para comprar nossa futura casa, escolher e brifar o arquiteto e moldar a filosofia da agência com a nossa. Também teremos o apoio global da network. Recursos, intercâmbio de talentos, suporte técnico e principalmente experiência. Vemos na AKQA São Paulo uma grande oportunidade de criar no Brasil o ambiente ideal para acolher grandes talentos e produzir projetos junto de clientes ambiciosos.

O regresso está lá no fundinho da mente ou já colocaste isso de parte?

Não sei se o meu futuro longínquo passa por Portugal ou por outro país. Sei que o meu Presente passa pela AKQA São Paulo e que esta tem apenas 6 meses. É uma criança. Quero vê-la dar os primeiros passos, limpar qualquer cagada e ajuda-la a ser o melhor que ela pode ser.

(notícia atualizada às 23h13 com correção ao número de Leões ganhos pelo criativo)

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Base Aérea n.º 6, no Montijo, que será adaptada para a aviação civil caso aí avance a construção do novo aeroporto de Lisboa. Fotografia: Paulo Spranger/Global Imagens

Montijo: Novo aeroporto já tem luz verde definitiva

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva  (MIGUEL A. LOPES/LUSA)

Ministro defende atuação do Governo: Portugal “fará o que tem feito”

Cláudia e Paulo Azevedo
(José Carmo/Global Imagens)

Sonae “está a acompanhar com atenção e preocupação”

Criativos no mundo. “Portuga, se voltar a entrar aqui com trocadilhos, pode voltar pra terrinha”