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Criativos no mundo. “Portunhol facilita a viagem de táxi e a compra na mercearia, mas pouco mais”

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Aos 42 anos pegou na família e mudou-se para Madrid, "com Elvas à vista". Susana Albuquerque não conseguiu dizer não ao convite para co-liderar a criativa da Tapsa Young & Rubican de Madrid.

Foi armada de mais de sete anos de direção criativa na Lintas (ex-Lowe Ativism) e outros tantos no sector da publicidade nacional. Presidia ao Clube de Criativos. A vida estava ‘arrumada’. Mas enfrentou o desafio de mudar de país, de aprender novas referências culturais, as que enriquecem o trabalho de um bom criativo, que fazem sair do anonimato para o reconhecimento instantâneo uma campanha.

Leia aqui o testemunho de outros criativos pelo mundo: João Coutinho (Grey de Nova Iorque) e Paulo Martins (72andSunny), Vasco Vicente (Wieden + Kennedy de Amesterdão) e Ricardo Adolfo (Ogilvy & Mather Japão)

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Mas o bom da criatividade, diz, é que as boas ideias são universais. A campanha de imprensa criada para a Mariskal Rock, uma rádio online espanhola, parece corresponder a esse conceito. Tanto que ganhou Leão em Cannes.

Susana Albuquerque fala do que é viver e trabalhar em Espanha, com Portugal aqui tão perto.

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Optaste por ir para o exterior. Porquê?

Não foi uma decisão planeada. Perguntaram-me se podiam incluir o meu nome numa lista de recomendações para a direção criativa da Y&R de Madrid e eu disse que sim. Já tinha pensado estudar fora ou trabalhar fora, mas a vida em Lisboa foi sempre ficando em primeiro lugar. Aos 42 anos, já não ia tomar a iniciativa de sair, já não era um plano. Mas quando a possibilidade apareceu, não tive dúvidas em dizer sim. Era uma experiência que queria ter, viver fora, ver como fazem os outros, e também era uma espécie de recomeço que tinha tanto de assustador como de atraente.

Porquê Espanha? Foste sozinha, levaste família, o cão, o gato, o piriquito…

Fui para uma agência que vinha de uma fusão, o que é um contexto difícil; pertence a uma network que tem crescido nos últimos anos em ambição criativa e em resultados, sobretudo em Cannes, com a direção criativa do Tony Granger; é uma agência com um histórico tradicional e com vontade de se renovar. Pareceu-me um desafio difícil. Mas também me pareceu uma grande oportunidade. Primeiro vim sozinha, passados dois meses a família juntou-se. As minhas filhas, que na altura tinham 9 anos, vieram em setembro e aterraram numa escola bilíngue sem saberem uma palavra de espanhol nem de inglês. O primeiro ano foi duro, mas agora já embirram entre elas em castelhano sem darem por isso. Corrigem-me o sotaque a toda a hora. Estão integradas e estudam numa escola que funciona (coisa que não se passava em Lisboa). Espanha tem grandes vantagens para um português. Estamos a 600 kms, por isso quando temos saudades, entramos no carro e em seis horas estamos em Lisboa. Essa proximidade geográfica pesou. Sais, mas Elvas está sempre à vista. E Madrid é uma cidade onde se vive bem, onde tudo é fácil.

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Como avalias a experiência até agora?

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Estou cá há dois anos. Há dias em que acho que está a correr bem, outros em que acho que está a correr mal. Sempre senti isso em todas as agências onde trabalhei. Nesta profissão, em que tudo é tão efémero, tudo demora demasiado tempo. Quando ganhamos um pitch, quando pomos uma boa campanha na rua, quando andam boas ideias a circular pelos corredores e pelas secretárias, é uma alegria e tenho a certeza de que estou no projeto certo. Quando nada disso acontece, sinto-me miserável e tenho vontade de abrir uma padaria. Acho que a montanha russa emocional, na nossa profissão, é uma realidade universal. A nível pessoal, costumo dizer que viemos viver para o Alentejo de Madrid. Parece que vivemos isolados num campo urbano, rodeados de restaurantes, teatros e museus, onde não conhecemos quase ninguém. Esse recolhimento, onde a vida social é feita sobretudo a quatro, às vezes é duro, mas em geral tem sido uma boa surpresa.

Como foi o confronto com a realidade da agência? Ou isto da criatividade é uma aldeia global e já não há choques culturais.

Quando aceitei o convite, ia segura de que o português e o espanhol eram parecidos, por isso o choque cultural seria mais pequeno. Errado. O portunhol facilita a viagem de táxi e a compra na mercearia, mas pouco mais. A língua é muito diferente, o vocabulário, a ordem dos pronomes, a conjugação dos verbos, mas o maior choque de todos é o cultural. Cheguei a um país onde não conheço a música, o cinema, a televisão, as piadas, a literatura e as conversas de café. Para um criativo é uma limitação, sabes que vai demorar muito até conseguires fazer um trabalho de sabor local. Talvez nunca aconteça. Para um redactor, que é de onde venho, sabes que vai levar anos até conseguires escrever algo que não tenha que ser revisto por um castelhano nativo. Mas o bom da criatividade é que as melhores ideias são universais. Ponho mais energia nesse tipo de trabalho, enquanto vou aprendendo a viver com as limitações de saber menos que os outros sobre o que é isso de ser espanhol.

Qual dirias que foi o ‘teu’ momento na agência? Há algum trabalho que – pela repercussão, gozo pessoal – destaques em particular?

O gozo maior para mim vem de ganhar new business ou de produzir uma boa ideia. Nestes dois anos, ganhámos alguns clientes e produzimos algumas campanhas de que me orgulho. Também soube bem subir ao palco em Bilbao para receber um sol de ouro com uma campanha da Opel e ganhar 2 pratas e um bronze em Cannes este ano, mais 17 shortlists.

O regresso é algo que está lá no fundinho da mente ou já colocaste isso de parte?

Tenho a certeza que quero voltar. Sair de Portugal ajudou-me a saber que pertenço a Portugal, sobretudo a Lisboa. Vou prolongar a viagem um pouco mais e depois espero conseguir voltar a casa.

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