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Criativos no mundo. “Prémios não são mandatórios, mas contam aos olhos dos recrutadores”

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No país onde ter uma arma é um direito constitucional, um português criou uma campanha anti-armas. Mexeu consciências. Mudou atitudes. Guns with History, de João Coutinho, ganhou 14 Leões no Cannes Lions. Um novo recorde para a Grey de Nova Iorque.

Chegou há pouco mais de um ano a Nova Iorque. Antes tinha estado na Ogilvy de São Paulo onde carimbou o passaporte para os Estados Unidos depois de 8 Leões e um Grand Prix para Fãs Imortais.

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Foi convidado para trabalhar a conta da Canon, uma das mais importantes contas da agência nova-iorquina. E trabalhou com o realizador Ron Howard e o ator Josh Hutcherson, de Os Jogos da Fome, no Project Imagination: The Trailer. O concurso convida as pessoas a partilhar elementos da sua vida em num trailer de 60 segundos, o escolhido irá dar origem a uma curta-metragem. Os resultados são conhecidos em julho.

Ao Dinheiro Vivo, João Coutinho revela alguns dos momentos que fazem o trailer da sua vida.

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Optaste por ir para o exterior. O que motivou essa decisão?

O desconforto do conforto. Tinha o meu espaço conquistado no mercado, trabalhava numa agência e com um dupla que adorava, dava aulas… Pensei “a minha vida vai ser assim nos próximos 20 ou 30 anos”. Isso assustou-me. Depois de ter trabalhado em Madrid, o bichinho de voltar a trabalhar fora nunca desapareceu. A núvem da austeridade deu um empurrãozinho.

Porquê o Brasil? Foste sozinho ou levaste família, o cão, o gato e o piriquito…

Quando me mudei, em 2011, o Brasil vivia um momento económico muito bom. O real valia mais 30 ou 40% do que hoje, havia muita coisa a acontecer. E a agência para onde fui trabalhar, a Ogilvy de São Paulo, estava numa curva ascendente. Em 2010 tinha ganho 10 leões, e em 2011, 11. Quando falei com o Anselmo Ramos [Vice President Executive Creative Director] e com o Fred Saldanha [hoje chief creative officer para as americas da Isobar] tive a certeza que se fosse para a Ogilvy, só dependia de mim ajudar a agência a ganhar mais Leões. E assim foi. Falei com a minha mulher, que sempre me acompanhou e me apoiou nestas aventuras, e decidimos em 5 minutos. Começámos a namorar (e depois viver juntos) quando eu trabalhava em Madrid, e desde então nunca mais paramos de viajar. Sempre gostamos conhecer outras culturas, diferentes formas de pensar, volta e meia falávamos de viver fora de novo. Dois dias antes de nos mudarmos para São Paulo soubemos que iamos ser pais. Os nossos filhos gémeos nasceram no Brasil, tem dupla nacionalidade. Não temos cão, gato ou piriquito.

Leia ainda: Cannes Lions. O homem do FCP que se fartou de caçar Leões

Não fosse a experiência no mercado brasileiro hoje existiria a Grey Nova Iorque?

Acho que não. Infelizmente, o mercado português tem pouca visibilidade, devido à sua dimensão e ao pouco investimento em prémios internacionais (reflexo da austeridade económica?). A ideia que tenho é que para entrar numa agência de topo em Nova Iorque, Londres ou São Paulo, é preciso ter algo de relevo no portefólio. Os prémios internacionais não são mandatórios, mas contam bastante aos olhos dos recrutadores e headhunters. Antes de me mudar para o Brasil, enviei e-mails para dois ou três headhunters. Não tive qualquer resposta. Era o mesmo criativo que sou hoje, mas sem prémios.

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O Brasil é um mercado com grande visibilidade, com grande tradição criativa e exportador de talento. As portas da Grey Nova Iorque e de outras agências abriram-se porque era criativo da Ogilvy Brasil (Agência do ano 2013 em Cannes) que ganhou Grand Prix com Fãs Imortais. Felizmente, os criativos portugueses começam a internacionalizar-se e hoje em dia temos grandes criativos portugueses a trabalhar em agências de topo mundial. Não é por virmos de um país de dimensão pequena que somos inferiores aos outros.

Como foi o confronto com a realidade da agência? Ou isto da criatividade é uma aldeia global e já não há choques culturais?

Este é o quarto mercado onde trabalho. Em Portugal, Espanha e Brasil não senti grandes diferenças na maneira das coisas funcionarem, salvo as diferentes dimensões. Nos Estados Unidos as coisas funcionam de uma maneira diferente. Tudo tem seguir um certo padrão de organização e de se respeitar as regras. E essa organização às vezes quer dizer 10 reuniões e mais de 150 e-mails por dia. No início fazia-me confusão tanta regra, mas depois pensei que se as coisas funcionam tão bem é porque as regras existem e são cumpridas. Não é bom nem é mau, é diferente. Sou o único português numa agência onde trabalham 1100 pessoas entre elas 400 criativos. No início pensavam que era brasileiro, por ter vindo do Brasil. Uma vez perguntaram-me se Portugal fazia fronteira com Panamá. Muitos não fazem ideia onde fica Portugal.

Qual dirias que foi o ‘teu’ momento ai na agência? Há algum trabalho que – pela repercussão, gozo pessoal – destaques em particular?

Cannes acabou com a Grey a ter um desempenho histórico, quer o escritório de Nova Iorque, quer a network global (113 leões, 3ª network mais premiada do mundo). Por pouco não fomos Agency Of The Year, com os 25 leões que ganhamos. Só ficamos atrás da R/GA New York. A campanha Guns With History ganhou 14 leões, entre eles 7 ouros e 7 pratas. O record de leões da Grey New York era de 10… Depois de ter ajudado (com 8 leões, entre os quais um Grand Prix) a Ogilvy São Paulo a se tornar Agency Of The Year em 2013, pensei que isso era uma vez na vida. Estivemos quase a subir aquele palco de novo e não vamos descansar enquanto não o voltarmos a fazer. A agência é extremamente bem gerida com todas as condições montadas para o fazer. É um orgulho fazer parte desta equipa.

O regresso a Portugal é uma possibilidade ou já colocaste isso de parte?

Penso voltar algum dia, mas para já estou a adorar esta experiencia. Vou aproveitar.

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