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Criativos no mundo. “Ser copywriter português nos EUA é mais difícil. Tem que se trabalhar, ler e escrever mais”

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Mudou-se de Paris para Nova Iorque há sete meses. É sénior copywriter da Johannes Leonard. Tudo por causa de um quadrado de chocolate retirado às tabletes da Milka que lhe deu 4 Leões no Cannes Lions.

Se o percurso de Miguel Durão fosse uma rota de avião tinha como destino Nova Iorque, com ligação via Londres e Paris. Desde janeiro que chegou à Big Apple. A cidade que lhe tinha dito, sem lhe dizer, que tinha de ganhar prémios e reconhecimento antes de carimbar o passaporte de entrada.

Trabalha contas como Adidas, TripAdvisor, Coca-Cola ou Google. Miguel Durão é um dos criativos portugueses pelo mundo. Agora conta a sua história.

Leia aqui o testemunho de outros criativos pelo mundo: João Coutinho (Grey de Nova Iorque) e Paulo Martins (72andSunny), Vasco Vicente (Wieden + Kennedy de Amesterdão), Ricardo Adolfo (Ogilvy & Mather Japão) e Susana Albuquerque (Tapsa Y&R Madrid)

Optaste por ir para o exterior. Porquê?

Liberdade para criar e dinheiro para produzir. É inegável que fora de Portugal há mais dinheiro para a produção de campanhas mas esse dinheiro não vai resultar em melhores campanhas se não houver liberdade para criar. Em Portugal a mentalidade é conservadora e grande parte das marcas têm medo de fazer diferente. Mas acredito que isso está a mudar e que há cada vez mais marcas em Portugal a perceberem que, hoje em dia, o verdadeiro risco está em não fazer diferente.

Porquê Paris e a Buzzman?

Na verdade sempre escolhi Nova Iorque, Nova Iorque é que não me escolheu a mim. Disse-me, sem nunca o ter dito (porque é sabido), que para eu ir para lá teria que ganhar prémios internacionais e visibilidade. Por isso saí à procura do que me faltava. Escolhi Londres, a Nova Iorque da Europa. Um mercado espetacular e difícil de entrar. Quando me mudei para Londres fiz um vídeo de auto-promoção que chamou a atenção não só de agências de Londres mas também de Paris.

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Acabei por receber uma chamada da Buzzman, apenas 15 dias depois de chegar a Londres, a convidarem-me para ir para Paris. Pela primeira vez era a cidade que me escolhia a mim. Fiquei muito feliz com o convite mas tinha acabado de fazer uma grande mudança, não estava preparado para fazer outra tão cedo. Foi então que a Buzzman me propôs fazer alguns trabalhos como freelancer para eles. Naturalmente aceitei.

Enquanto estava em Londres a trabalhar como freelancer para agências londrinas, fiz três trabalhos como freelancer para a Buzzman, o último dos quais para a Milka. Depois desse último trabalho e 6 meses depois da chegada a Londres chegou um segundo convite da Buzzman para me mudar para Paris. Eu tinha gostado muito de trabalhar com a agência até então, por isso decidi aceitar. Quando se faz 3 freelances para a mesma agência, se apresenta uma média de 6/7 ideias por briefing e a que eles escolhem é, invariavelmente, a nossa preferida, não restam muitas dúvidas. No início fui sozinho e depois a minha mulher (então namorada) mudou-se para Paris, felizmente.

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Não fosse a experiência da Buzzman hoje existiria Johannes Leonardo?

Não sei. Apenas sei que a experiência na Buzzman foi fundamental para o meu crescimento e para conseguir os prémios e visibilidade que procurava. Foi uma agência onde aprendi muito, com pessoas muito talentosas, apaixonadas pelo que fazem e que, acima de tudo, não têm medo de arriscar.

Estou na publicidade há nove anos. A experiência da publicidade no exterior é muito enriquecedora. Aprendi muito com gente muito talentosa. Não mais talentosa do que as pessoas com quem tive o prazer de trabalhar e aprender em Portugal mas com culturas de trabalho diferentes, das quais procurei absorver tudo o que têm de positivo e esquecer o que têm de negativo.

Como é ser um criativo português em Nova Iorque? Ou isto da criatividade é uma aldeia global e já não há choques culturais.

Não foi um grande choque. Tenho amigos que já cá trabalham há algum tempo por isso vim pré-avisado da intensidade do trabalho cá. Não há sábados e domingos em Nova Iorque, há sétimas-feiras e oitavas-feiras. Durante os primeiros três meses [está na agência desde janeiro] não tive nenhum domingo livre. Agora é 50/50. Aqui não me parece que olhem a nacionalidades, ao contrário de outros países. Ser um criativo português nos EUA é o mesmo do que ser de qualquer outra nacionalidade. Pelo menos pelo que vivi até agora. Agora ser um copywriter português nos EUA já é outro assunto. É mais difícil. Tem que se trabalhar mais, ler mais, escrever mais.

Leia ainda: Criativos no mundo. A crise que abriu geografias

Qual dirias que foi o ‘teu’ momento ?

A campanha da Milka. Foi um ano e meio de incertezas, luta e muito trabalho que compensou. Quando tens consumidores a ligar para o serviço de apoio a clientes (usado 99,9% das vezes para queixas) a dar o parabéns à Milka pela campanha, a gratificação é enorme.

O regresso é uma possibilidade?

Quero muito regressar um dia mas não sei quando. Ambiciono fazer a minha parte para ajudar a colocar a criatividade portuguesa no mapa mundo. Os melhor criativos com quem alguma vez me cruzei são portugueses e a maior parte deles trabalham em Portugal. Não nos falta talento para sermos um país muito forte no panorama internacional da publicidade e gostava muito de poder ajudar a tornar isso uma realidade, a partir de Portugal.

(notícia atualizada às 20h26 com correção ao número de Leões)

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