Tecnologia

Da era móvel ao espaço. 10 avanços tecnológicos que marcaram a década

Starship SpaceX
A nave Starship, da Space X, que começou a ser testada pela empresa da Elon Musk com ajuda da NASA já este ano e promete levar humanos à Lua

Naquela que pode ser definida como a era dos aparelhos móveis, destacamos as inovações que marcaram a década e, quem sabe, a humanidade para sempre

Nunca se evoluiu tanto a nível tecnológico em tão pouco tempo, ao ponto de mudarem os próprios comportamentos humanos, quanto nesta última década. Se há tecnologia que entra na perfeição nessa descrição de revolução do estilo de vida dos seres humanos é a tecnologia móvel que alimenta os smartphones, tablets e wearables e que tornou, em certos casos, milhões de seres humanos do planeta numa espécie de zombies, colados aos ecrãs dos seus smartphones, incluindo a andar na rua.

É certo que o smartphone como o conhecemos chegou ao mercado de forma mais óbvia com o lançamento do primeiro telefone da Apple, o iPhone, em 2007. O telefone que foi ridicularizado pelo responsável na altura da Microsoft, Steve Ballmer – é famosa a sua expressão a propósito do iPhone: “nunca ninguém vai dar 500 dólares por um telefone” – tornou-se numa referência para os aparelhos que nos tornam numa espécie de ciborgues – por termos uma espécie de supercomputador de informação e comunicação ilimitada no bolso – nos tempos que correm.

Só depois de 2009, com o iPhone 3G S (já com a relevante App Store, introduzida em 2008 e com extras como GPS e 3G incluídos) é que a era móvel ficou pronta para arrancar. Esse modelo foi o primeiro telemóvel a vender um milhão de unidades no seu primeiro fim de semana à venda, já o iPhone 4 de 2010 vendeu 1,7 milhões de unidades nos primeiros três dias e, hoje, o mercado de smartphones a nível mundial onde a Samsung é líder significa mais de 1,5 mil milhões de aparelhos por ano (e está a estagnar).

Em Portugal, o primeiro ano da era dos smartphones foi 2011, quando a Samsung com os seus smartphones Galaxy roubou a liderança na venda de telemóveis à Nokia, rainha incontestada com telefones sem ligação à internet durante a década anterior.

A era móvel despoletou toda uma série de tecnologias que nos permitem, hoje, além de potenciar a comunicação nas redes sociais e nos serviços de mensagens, chamar um Uber, encomendar comida ou pedir entregas variadas ao domicílio, controlar um drone ou um aspirador robô em casa e até abrir a porta do carro e controlar à distância a sua temperatura.

Segue-se, então, a lista de alguns dos avanços tecnológicos da década que não inclui, mas até poderia incluir, outras tecnologias. Quais? A das criptomoedas e blockchain, os aparelhos da Internet das Coisas, a realidade virtual e realidade aumentada (que foi mais bem sucedida em jogos como o Pokémon Go) ou as consolas de jogos com formatos diferentes do habitual como é o caso da interativa Nintendo Switch.

Era móvel – smartphones, tablets e afins

A era móvel contagia por completo o nosso modo de vida atual, ao ponto de pessoas em África que nunca tiveram conta bancária, nem tão pouco telefone fixo ou telemóvel, conseguirem hoje ter acesso a um mundo de informação e serviços com um smartphone barato. Estima-se que 42,6% das pessoas no planeta (3,3 mil milhões) usam smartphones, mas são 66,6% (5,15%) com acesso a aparelhos móveis em geral – podem também ser além de smartphones, tablets ou outros aparelhos ligados à internet – os chamados aparelhos IoT. O iPhone, um dos vários produtos-chave lançados por Steve Jobs, despoletou a era móvel, que alimenta hoje um sem número de serviços, como vamos ver de seguida. Curiosamente, o mesmo Steve Jobs lançava em 2010, um ano antes de morrer, o iPad, o tablet que abriu caminho a uma categoria que não brilhou tanto quanto os smartphones, mas foi ainda assim relevante.

Associado a estes aparelhos móveis também estão os chamados wearables. Os relógios inteligentes são hoje uma presença frequente no pulso de muitos, ao ponto da Apple, com o seu Watch lançado em 2015, ter hoje o relógio mais vendido no mundo.

Outra gama onde a Apple também marcou a tendência mundial mais recentemente, foram os earbuds sem fios, pequenos auscultadores que podemos por nos ouvidos para ouvir música ou fazer chamadas. Os AirPods foram lançados no final de 2016 e são hoje um grande negócio para a Apple, ao ponto de quase todas as marcas tecnológicas terem hoje os seus próprios earbuds para tentarem ter algum desse negócio.

Não incluímos nesta temática, embora também tenham sido relevantes, os aparelhos inteligentes, que fazem parte da chamada Internet das Coisas, e robotizados que têm-se destacado nesta década, dos aspiradores robô, luzes e termóstatos inteligentes.

Netflix

Streaming (vídeo, música e gaming)

Com a melhoria das conexões da internet através do 4G (que surgiu também nesta década) e do Wi-Fi tornou-se também moda começar a fazer-se streaming de conteúdos. O YouTube já tinha iniciado o processo do vídeo em streaming, mas foi a Netflix que tornou o acesso pago a conteúdos como filmes e séries em streaming (e como substituto da televisão convencional) uma moda. O YouTube foi lançado em 2005 e em 2006 foi comprado pela Google, mas só por volta de 2010 começou a tornar-se num fenómeno global. Foi nesse ano que começaram a ser transmitidos conteúdos como jogos e que atingiu a visualização de dois mil milhões de visualizações de conteúdos por dias. A Netflix começou a tornar-se sinónimo de ver conteúdos vídeo em streaming no início da década, especialmente depois de ter começado a fazer conteúdos originais próprios com a série House of Cards, em 2013. Este ano a empresa produziu 371 séries e filmes e regista 148 milhões de subscritores pagos um pouco por todo o mundo, numa altura em que os rivais Amazon, HBO, Apple, Hulu e, agora, Disney+ tentam ganhar tração nesse segmento.

Na música, o serviço de música sueco Spotify tornou-se sinónimo de canções em streaming em qualquer aparelho móvel. A partir de 2011 começaram a ter dimensão planetária (foi o ano em que chegaram aos EUA) hoje contam com 113 milhões de subscritores pagos e 248 milhões no total, onde se inclui os que usam o serviço gratuito que inclui publicidade entre músicas. Não faltam rivais nesta altura a tentarem um pedaço do sucesso, com Amazon, YouTube e Apple a terem serviços semelhantes.

Este ano começou a aposta nos videojogos por streaming por subscrição paga para aparelhos móveis (e não só), com a Apple a apresentar o Arcade e a Google o Stadia.

Na verdade, os serviços de subscrição baseados em apps móveis começam a proliferar para outras áreas, ao ponto da Uber estar a testar subscrição para o seu serviço de ridesharing ou até para entrega de comida ao domicílio.

Uber – Plataformas de ridesharing

Fundada em 2009, a Uber tornou-se numa expressão para quando queremos chamar um transporte através do nosso telemóvel. É o chamado ride-hailing que tem crescido (com muita polémica) em torno do mundo e que veio perturbar o negócio estabelecido dos táxis. Em Portugal chegou, também com protestos dos taxistas, em julho de 2014.

Tudo funciona pela app. Além de permitir que se chame um carro para o local onde estamos, permite ver o tempo de chegada, ser notificado para quando chega mesmo e evitar pagamentos dentro do veículo – é tudo feito pela app graças ao cartão de crédito associado. O motorista, normalmente, usa o Waze ou o Google Maps, outra das tecnologias (o GPS) que começou a proliferar de forma fácil nesta década. O serviço não só levou a novos rivais como a Lyft, Bolt ou Mytaxi, como foi o ponto de partida na mobilidade inteligente e partilhada, com serviços como o Uber Eats, para entregas de comida (e não só) ao domicílio a proliferaram, mas também as trotinetes e bicicletas elétricas partilhadas. O próximo passo deverá ser serviços áereos de ridesharing ao estilo táxi aéreo, eventualmente com modelos que se conduzem sozinhos (autónomos).

Tesla Model 3

Mobilidade elétrica (e semi-autónoma)

A Tesla tornou a mobilidade elétrica uma moda com capacidade de crescimento notável. A empresa de Elon Musk lançou o seu modelo chave, o Model S, em 2012, e assim mudou a era da mobilidade elétrica que se prolongou com o mais acessível Model 3 – chegou a Portugal já este ano. Só este ano e até setembro a Tesla já vendeu 255 mil veículos a nível mundial e superou em vários mercados no segmento premium marcas como a Audi, BMW e Mercedes. O Model 3 foi, inclusive, eleito este ano em várias votações especializadas como Carro do Ano.

A Tesla tem sido vista como referência nos modelos elétricos (e também nas opções semi-autónomas nos veículos, que já se conduzem sozinhos em várias situações), onde a Nissan e o seu Leaf também têm dado cartas. Os modelos 100% elétricos são cada vez mais e todas as grandes marcas têm já planos para ter este tipo de veículos como força motriz de vendas nos próximos tempos. A moda ‘elétrica’ também chegou às trotinetes e bicicletas.

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Cloud computing

A cloud é o que alimenta, por exemplo, as apps, sites e um sem número de serviços. A computação da cloud promete desbloquear a chamada Internet das Coisas nos próximos anos, permitindo que aparelhos minúsculos e conectados à internet não precisem de ter sequer um computador no seu interior, visto que a computação é feita de forma remota e transmitida para o próprio aparelho. A tecnologia será fulcral inclusive para os carros autónomos – já existem os semi-autónomos, onde a Tesla também tem sido pioneira.

A tecnologia não é nova, mas só depois de 2006 começou a ganhar contornos mais práticos e globais. Esse foi o ano em que a Amazon criou o AWS, Amazon Web Services, uma divisão da empresa que é hoje uma verdadeira galinha dos ovos de ouro. A AWS só arrancou em força já com a era dos aparelhos móveis, depois de 2012, e hoje fornece serviços de cloud para a maioria dos sites, apps e serviços que usamos no mundo digital – ou seja, é a base para todos eles operaram. A Microsoft é um dos grandes rivais, com o serviço Azure, lançado em 2010, como também o é a Cloudflare.

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Mark Zuckerberg Facebook privado cibersegurança encriptação

Mark Zuckerberg, Facebook
Reuters

Redes sociais

O rei das redes sociais é o Facebook, mas o seu domínio é mais amplo do que a rede social criada por Mark Zuckerberg e que tem hoje 2,4 mil milhões de utilizadores ativos. Ao comprar a rede social especialista em fotos (e vídeos) Instagram, em 2012, e já em 2014 o WhatsApp (plataforma de mensagens e chamadas através da internet), o Facebook criou um ecossistema de que poucos conseguem fugir.

As redes sociais explodiram graças à era móvel de disseminação dos smartphones, mas com ela também explodiram outros fenómenos bem humanos. Um deles é o receio em torno da privacidade dos dados de cada um, com vários escândalos como o Cambridge Analytica, a revelaram como os dados pessoais foram e são usados por empresas para tentar manipular os utilizadores de forma, considerada por muitos, ilegítima.

Outro fenómeno preocupante em torno desta maneira virtual de ver e ser visto é a forma como se cria uma certa pressão social e se alimenta um vício digital. Isto graças ao conceito que alimenta as redes sociais (é o chamado fake engagement) onde uma presença e participação constante é importante para aumentar as receitas destas empresas através da publicidade personalizada.

As redes sociais, com o Facebook à cabeça, também se tornaram, em certa medida, num espaço que permitiu a proliferação relativamente fácil (embora existam cada vez mais filtros para o evitar) de notícias falsas e mensagens de ódio, onde muitos sentem-se protegidos atrás de um ecrã para dizer tudo aquilo que não diriam a ninguém na rua – o YouTube sofre do mesmo problema, tal como o Twitter.

O lado positivo das redes sociais e que trouxe uma promessa aliciante para a maioria no seu início é a forma como a comunicação se tornou tão global e ampla através destas redes. Podemos anunciar ao mundo de forma fácil desde o nascimento de um filho até ao prato que comemos ao almoço, isto a uma audiência enorme que pode ir muito além dos amigos próximos. A facilidade de encontrar pessoas que nunca mais vimos e saber o que fazem também é um ganho claro onde redes sociais mais profissionais como o LinkedIn também contribuem.

As redes sociais também têm potenciado os criadores de conteúdos e também a expansão de vários negócios. O Facebook foi o primeiro e houve negócios criados totalmente com base na rede social (hoje já é mais difícil, já que implica cada vez mais o pagamento de publicidade), mas o YouTube e a sua comunidade de criadores e, mais recentemente, o Instagram, tornaram-se num modo de vida para milhões de pessoas em todo o planeta.

No caso do Twitter, além de se ter tornado no palco principal de Donald Trump, o presidente dos EUA, também é uma forma interessante de ler conteúdos noticiosos ou de pessoas que queremos seguir e foi o que despoletou a chamada Primavera Árabe e várias manifestações e revoluções.

Amazon Alexa

Poder da voz – Colunas (e não só) inteligentes

É um misto de tecnologias que vão desde o reconhecimento da voz até ao machine learning, onde as máquinas conseguem perceber o que queremos dizer, respondem-nos em conformidade e executam os nossos desejos. A Siri, da Apple, foi uma das primeiras assistentes virtuais a surgir no mundo móvel, integrada em 2011 no iPhone 4S e que respondia ao comando “Hey Siri”. Na verdade, a empresa do visionário Steve Jobs – que morreu em 2011 – comprou em 2010 a Nuance, a startup que criou a app Siri. Apesar de terem sido dos primeiros a lançar um produto com dimensão global com assistente de voz, acabou por ser a Amazon e a sua assistente Alexa que deu o empurrão que faltava para a voz tornar-se mainstream.

Em 2014 a empresa de Jeff Bezos lançou a coluna inteligente Echo, que permitia a qualquer um falar com a assistente digital Alexa. Desde 2016 que a Google, com a sua Google Assistant, juntou-se à festa e, hoje, estima-se que existem 3,25 mil milhões de aparelhos usam assistentes digitais (os smartphones também contam) em todo o mundo. No final deste ano, a Google estreou pela primeira vez o Google Assistante em português de Portugal – algo que Amazon e Apple ainda não fizeram.

Certo é que a lista de aparelhos diferentes em que estes assistentes podem ser integrados e a lista de funcionalidades que conseguem fazer (desde por o aspirador robô a aspirar à hora certa, como desligar a televisão ou ligar as luzes) continua a crescer.

Leia também | Veja o combate de colunas inteligentes Alexa vs Google Assistant

Drones

Os veículos aéreos não tripulados não são novos, mas o que era comum para aviões militares tornou-se numa realidade para miúdos e graúdos. Os drones começaram a tornar-se globais e para todos graças à marca chinesa DJI – têm 70% do mercado civil de drones. Foi o Phantom, lançado em 2013, que deu protagonismo à marca, especialmente como drone com câmara de vídeo e controlável por um simples smartphone.

Este drone com quatro hélices começou por ser usado por profissionais, incluindo da televisão, mas à medida que os preços começaram a descer e surgiram novos modelos mais pequenos (onde a marca Parrot também teve influência) mais pessoas começaram a usar, ao ponto de se ter de criar regras e regulamentos para limitar o seu uso. O seu potencial parece ilimitado, daí que hoje sejam já vistos como o futuro das entregas de encomendas, com empresas como a Amazon, DHL, entre outras a testarem esse tipo de solução.

Impressão 3D

As impressoras 3D foram criadas na década de 1980, mas só chegaram à idade adulta de forma a fazerem diferença de forma relativamente acessível a partir de 2011 com uma das empresas a ajudar nesse caminho a ser a norte-americana MakerBot. Nesta década os preços desceram muito e as máquinas tornaram-se mais acessíveis mesmo em processamento ao utilizador comum. Também melhorou a precisão da execução e começou a ser mais fácil de fazer os desenhos 3D com software gratuito disponível.

O seu uso vai muito além podermos fazer uma peça específica para a GoPro, um brinquedo para uma criança ou uma arma de fogo (um problema real nos EUA). Tornou-se peça central na indústria para produzir peças à medida para equipamentos, mas também importante para a indústria espacial onde torna mais fácil a criação de peças e produtos que não podem ser transportados. É usado também na área médica, para produzir partes humanas, mas o seu uso já chegou à construção existindo mesmo casas já construídas com esta tecnologia.

Starship

Starship

Espaço – A vez dos privados inovarem

A tecnologia espacial não evolui tanto quanto se esperava nas últimas décadas, mas houve uma empresa que tem tentado mudar isso nesta última década, a SpaceX. O seu fundador? Elon Musk, o mesmo visionário por trás da Tesla.

Os feitos da SpaceX – que tem agora concorrência entre os milionários da Blue Origen, de Jeff Bezos, incluem o primeiro foguetão privado (Falcon 1), a ser lançado com sucesso em órbita, a primeira empresa privada a lançar uma nave para a Estação Espacial Internacional (Dragon, em 2012) e, mais importante ainda, o primeiro foguetão a aterrar em solo firme (Falcon 9, em 2015) e o primeiro a ser reutilizado para um voo orbital (Falcon 9, em 2017).

A SpaceX já fez 18 missões para a Estação Espacial Internacional, em colaboração com a NASA e promete chegar a Marte em 2024. Antes disso, em 2021, esperam criar um serviço comercial espacial e fazer a primeira viagem turística à Lua em 2023. A ajudar deverá estar a nave espacial Starship, que já começou a ser testada em 2019.

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