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Da Prisa à chegada de Mário Ferreira: Cronologia de uma venda difícil

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Depois de PT, Ongoing e Cofina terem ficado pelo caminho, Prisa consegue vender parte da Media Capital, dez anos depois da primeira tentativa.

Praticamente dois meses depois de a Cofina ter desistido da compra da Media Capital, contrariando o velho ditado segundo o qual “à terceira é de vez”, o dono da Douro Azul, através da Pluris Investments, assume 30,22% da dona da TVI, numa operação realizada por meio da transferência em bloco das ações por 10,5 milhões de euros.

Além disso, tanto a Prisa como Mário Ferreira comprometem-se a encontrar potenciais investidores, o que significa que esta operação é o início de uma nova fase na vida da Media Capital, empresa com quase três décadas de existência, e o primeiro passo de desinvestimento do grupo espanhol neste ativo.

Em março, quando o mercado dava praticamente como certa a compra da Media Capital pela dona do Correio da Manhã, o anúncio da desistência — em 11 de março e em vésperas de estado de emergência — apanhou a maioria de surpresa, incluindo Mário Ferreira, que tinha sido desafiado pelo presidente da Cofina, Paulo Fernandes, a envolver-se no negócio. A operação de aumento de capital da Cofina, de 85 milhões de euros, ficou aquém do objetivo por cerca de três milhões de euros.

Leia aqui: Acordo fechado: Mário Ferreira fica com 30,2% da TVI

Esta decisão não deixou a espanhola Prisa, dona da Media Capital, contente, contactando Mário Ferreira logo no dia seguinte, em busca de um parceiro português, o que acabou por chegar a bom porto. Com a entrada de Mário Ferreira, espera-se uma nova etapa na Media Capital, depois de na última década a sua venda ter sido assunto na ordem do dia, com muita polémica envolvida.

Em julho de 2005, a Prisa tornou-se acionista principal da Media Capital, levando na altura o líder do PSD, Marques Mendes, a acusar os governos português e espanhol de cumplicidade no negócio com a empresa espanhola, lembrando a ligação do grupo ao PSOE, com o executivo da altura a negar qualquer envolvimento na matéria.

Em outubro de 2006, a Prisa lançou uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a totalidade da dona da TVI e passou a controlar a Media Capital. Entretanto, no final de 2008, a Prisa atravessa um período de crise financeira e propõe-se a avançar com cortes para enfrentar a dívida e a queda de receitas.

As dificuldades financeiras continuaram em 2009 e, no âmbito das medidas para enfrentar a situação, a Prisa anuncia em junho desse ano a intenção de vender 30% da Media Capital, levando na altura a PT (operadora entretanto comprada pela Altice) a manifestar o seu interesse. No entanto, o negócio seria inviabilizado à nascença pela polémica lançada à volta do assunto, nomeadamente de tentativa política de controlo da TVI.

Em 26 de junho de 2009, o então primeiro-ministro, José Sócrates, anuncia a sua oposição à compra pela PT de parte da Media Capital para que não haja a mínima suspeita de que esse negócio se destina a alterar a linha editorial da TVI. O Estado tinha uma golden share na PT que lhe permitia vetar a operação. Com a PT fora da corrida, as portas ficaram abertas para a Cofina e a Ongoing.

Na altura, a dona do Correio da Manhã adiantou que pretendia comprar uma posição de controlo na Media Capital e não estava interessada em ficar apenas com os 30% da empresa.

Entretanto, em setembro de 2009, a Prisa anuncia a venda de 35% da Media Capital à Ongoing, empresa que era acionista da Impresa. Em janeiro do ano seguinte, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) chumba a operação, colocando como condição à Ongoing a venda da totalidade da participação na SIC.

Em 30 de março de 2010, sem que a Ongoing tenha vendido a sua participação na Impresa, a Concorrência opõe-se ao negócio, contando já com o parecer vinculativo da ERC, que inviabiliza a operação.

Sete anos depois, a Altice, que comprou em junho de 2015 a PT Portugal por cerca de sete mil milhões de euros, anunciou que tinha chegado a acordo com a espanhola Prisa para a compra da Media Capital por 440 milhões de euros.

Quase um ano após o anúncio do acordo de compra — e depois de a ERC, na altura liderada por Carlos Magno, não ter chegado a consenso sobre o negócio, apesar de os serviços técnicos da entidade terem dado parecer negativo —, a Concorrência rejeita os compromissos apresentados pela Altice na operação por entender que “não protegem os interesses dos consumidores, nem garantem a concorrência no mercado”.

Perante isto, em junho de 2018 a Prisa anuncia a desistência do negócio, com a dona da Meo a lamentar as decisões dos reguladores portugueses. Pela segunda vez, a compra da Media Capital falhava.

Entretanto, em 21 de setembro do ano passado, a Cofina anunciou que tinha chegado a acordo com a espanhola Prisa para comprar a totalidade das ações que detém na Media Capital, valorizando a empresa (enterprise value) em 255 milhões de euros (a operação incluía a dívida).

Três meses depois, a Cofina revia em baixa de 50 milhões de euros o entreprise value e apontava para 205 milhões de euros. Oito dias antes da declaração do estado de emergência em Portugal, e pela terceira vez, o negócio da compra da Media Capital falhava.

Leia também: Comprar 100% não está nos nossos horizontes

Durante o mês de abril, o grupo Bel, do empresário Marco Galinha, confirmou à Lusa que tinha feito uma proposta de compra. Mas a Prisa anunciou, entretanto, negociações exclusivas com Mário Ferreira, cujo prazo terminava na sexta-feira. Um dia antes do final prazo, hoje, o negócio concretizou-se, mesmo com notícias dando conta de que Cofina teria tentado novas negociações.

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