Google

Ele inventou a pesquisa do Google

Amit Singhal é Google Fellow
Amit Singhal é Google Fellow

Enquanto crescia na Índia,
nos anos setenta, o maior fascínio estava naquela caixa com imagens
a preto e branco onde pessoas com fatos muito justos em naves
espaciais faziam perguntas ao computador e recebiam respostas
inteligentes. Amit Singhal, um jovem brilhante da cidade de Jhansi,
foi estudar com esta ideia na cabeça: queria construir um computador
igual ao do Star Trek (O Caminho das Estrelas).

“Devíamos ser
capazes de falar com os computadores e pedir o que precisamos. E eles
deviam responder”, explica Singhal, agora na casa dos 40. Este é
o homem que inventou o algoritmo de pesquisa do Google, o cérebro
por detrás de tudo o que se passa no Google Search.

Quando se licenciou, em
1989, Singhal percebeu que o sonho era quase impossível. “Descobri
que os computadores não entendem a linguagem como nós.”

Passou
a ter a noção de que eram apenas máquinas de correspondência.
“Pegam numa sequência de letras do utilizador e é assim que
encontram coisas. É o fundamento da pesquisa desenhada nos anos
1960”, refere, em entrevista exclusiva ao Dinheiro Vivo.

Singhal trabalhou durante
os dez anos seguintes como académico da pesquisa. E não estava
perto do seu sonho. Mas ainda não tinha entrado na Google.

Foi este passo que mudou
tudo, em 2000. Singhal, um homem simpático e humilde, apesar de ser
considerado um dos maiores génios do mundo, chegou à gigante e
disse: “Ouçam, tenho estado a estudar como os algoritmos de
pesquisa devem funcionar, como académico. Acredito que é assim que
deve ser.”

Pegou no algoritmo e
reescreveu–o integralmente. Este código tornou-se a base de
pesquisa da Google no verão de 2001, e continua a ser o seu
fundamento até hoje. No entanto, o homem que inventou a pesquisa da
Google como a conhecemos quer ir mais longe, ao encontro do Star
Trek. E o futuro, para já, chama-se “gráfico do conhecimento”.
Trata–se de uma base de dados gigantesca onde a Google deposita todo
o conhecimento que tem sobre o máximo de coisas possíveis. Singhal
explica, num tom pausado e temperado com um sotaque inconfundível,
como é que a Google vai passar a ser um motor de pesquisa decidido
por pessoas e não apenas por algoritmos.

“É um mito que a
Google se baseia apenas em algoritmos e matemática. A tecnologia
Page Rank é baseada nos links que as pessoas fazem. O fundamento do
Page Rank são, na verdade, as recomendações feitas por seres
humanos. O que a Google fez foi pegar na criatividade humana que
reside nos conteúdos e links da Internet e usar fórmulas
matemáticas para distinguir os relevantes dos não relevantes. O que
estamos a fazer agora é usar mais ações humanas, como o que
observamos nas pesquisas, e a partir daí construir um sistema de
correção ortográfica de classe mundial.”

No fim do dia, é apenas
uma sequência de letras correspondida com outra. Em computadores,
isto é chamado string (ligações). A verdade é que o mundo não é
uma coleção de ligações strings, mas uma coleção de coisas. Um
bom exemplo é a sequência de letras Taj Mahal.

“Parece uma
sequência simples de palavras, mas significa pelo menos três
coisas: o monumento, a banda e o grande casino nos Estados Unidos. E
se começar a olhar para restaurantes locais, há centenas com esse
nome. A verdade é que para construir a pesquisa do futuro teremos de
entender que Taj Mahal não é apenas uma sequência de carateres,
são várias coisas.”

A isso o Google chama
“gráfico do conhecimento”. Esta base de dados gigantesca
vai demorar anos a construir, de tal forma que Amit Singhal não se
compromete com datas. Mas vai dizendo que já se veem pequenos
resíduos no motor de pesquisa da Google. Por exemplo, se procurar
por Van Gogh vai receber resultados com trabalhos do pintor.

“A
pesquisa do futuro vai ser mais próxima do sonho da inteligência
artificial do que a de hoje”, diz Singhal, com orgulho. “Uma
vez que se começa a representar o mundo com estas coisas e as
relações entre elas, emerge um novo tipo de conhecimento que não
existia antes”, completa.

Isto não quer dizer que o
Google do futuro tenha personalidade, como o carro Kit do Michael
Knight. Mas significa uma enorme evolução nas tecnologias de
pesquisa que estiveram estagnadas durante 30 anos até Singhal
aparecer no terreno. A evolução começou por se basear no contexto,
e só uma empresa com milhões de buscas poderia fazê-lo com
precisão:

“Normalmente, GM significa General Motors. Mas se a
palavra a seguir é “comida” ou “tomate”, sabemos
que GM quer dizer “geneticamente modificados”. Usar o
contexto não apenas com base na Internet mas com a base de dados de
pesquisas feitas no site permitiu entender estas diferenças”,
diz Singhal.

Se tomar a pesquisa B&B
in AB, faz ideia do que significa? Provavelmente não. Mas a base de
dados da Google sabe. Significa “bread & breakfast in
Alberta”; pessoas à procura de alojamento com pequeno-almoço
numa das fronteiras entre o Canadá e os Estados Unidos.

A seguir ao contexto veio
a intenção. O Google Search percebeu que, “no processo de
encontrar informação, os utilizadores estavam preocupados em fazer
a pesquisa com as palavras certas”. Foi daí que veio o Google
Suggest; e a seguir o Google Instant – por exemplo, basta escrever W
para encontrar o estado do tempo (weather), porque é a busca mais
comum.

Diz-me onde pesquisas…

Um dos fenómenos mais
interessantes dos últimos anos foi a mudança da pesquisa móvel,
cortesia da Apple e do Android. “As pessoas faziam muito mais
pesquisas locais nos telemóveis. Mas agora a pesquisa no móvel está
cada vez mais parecida com a pesquisa no desktop”, sublinha.

No entanto, os picos de
utilização são diferentes. “A pesquisa móvel sobe muito à
noite, algo que não acontece no desktop” diz Singhal, porque as
pessoas preferem pesquisar enquanto jantam à mesa ou estão a fazer
coisas com a família – basta tirar o smartphone do bolso. “Também
vemos um pico nos aparelhos móveis à hora de almoço”,
acrescenta, sublinhando o crescimento explosivo a que se assistiu
recentemente.

A próxima tendência? Não
é apenas a pesquisa por imagens, que se faz com o Google Goggles
(tira uma foto e descobre o que é, se já estiver na base de dados).
É a pesquisa por voz. “Digitar sequências ainda é difícil”,
refere, mas a voz “é natural”.

Singhal fala com paixão.
Não dá muitas entrevistas, apesar de ser um dos cérebros mais
solicitados do mundo da tecnologia. Percebe-se que ainda é um cromo
da pesquisa e que continua a ver o trabalho em Mountain View como se
fosse uma criança numa loja de doces.

Quando questionado sobre a
polémica do ano passado, quando a Google “descobriu” que o
Bing da Microsoft copiava os resultados, não se alongou. Confirmou a
teoria. Mas disse que prefere olhar para o futuro. “É um
círculo virtuoso positivo. Na Internet, a concorrência está a um
clique. Basta digitar quatro letras B-I-N-G e enviá-lo-emos
alegremente para a concorrência. Acreditamos profundamente em fazer
o melhor pelo utilizador. Trabalhamos muito para não perder essa
confiança e o amor dos nossos utilizadores.”

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