Filhos do 25 de Abril

Somos quase todos filhos do 25 de Abril, mas uns são mais filhos
do que outros.

A geração que fez o 25 de Abril era filha do outro regime. Era
filha da ditadura, da falta de liberdade, da pobre e permanente
austeridade e da 4.ª classe antiga.

Tinha crescido na contenção, na disciplina, na poupança e a
saber (os que à escola tinham acesso) Português e Matemática.

A minha geração era adolescente no 25 de Abril, o que sendo bom
para a adolescência foi mau para a geração.

Enquanto os mais velhos conheceram dois mundos – os que hoje são
avós e saem à rua para comemorar ou ficam em casa a maldizer o dia
em que lhes aconteceu uma revolução – nós nascemos logo num
mundo de farra e de festa, num mundo de sexo, drogas e rock &
roll, num mundo de aulas sem faltas e de hooliganismo juvenil em tudo
semelhante ao das claques futebolísticas mas sob cores ideológicas
e partidárias. O hedonismo foi-nos decretado como filosofia ainda
não tínhamos nem barba nem mamas.

A grande descoberta da minha geração foi a opinião: a opinião
como princípio e fim de tudo. Não a informação, o saber, os
factos, os números. Não o fazer, o construir, o trabalhar, o
ajudar. A opinião foi o deus da minha geração. Veio com a
liberdade, e ainda bem, mas foi entregue por decreto a adolescentes e
logo misturada com laxismo, falta de disciplina, irresponsabilidade e
passagens administrativas.

Eu acho que minha geração é a geração do “eu acho”. É a
que tem controlado o poder desde Durão Barroso. É a geração deste
primeiro-ministro, deste ministro das Finanças e do anterior
primeiro-ministro. E dos principais directores dos media. E do Bloco
de Esquerda e do CDS. E dos empresários do parecer – que não do
fazer.

É uma geração que apenas teve sonhos de desfrute ao contrário
da outra que sonhou com a liberdade, o desenvolvimento e a cidadania.
É uma geração sem biblioteca, nem sala de aula mas com muita RGA e
café. É uma geração de amigos e conhecidos e compinchas e
companheiros de copos e de praia. É a geração da adolescência sem
fim. Eu sei do que falo porque faço parte desta geração.

Uma geração feita para as artes, para a escrita, para a
conversa, para a música e para a viagem. É uma geração de
diletantes, de amadores e amantes. Foi feita para ser nova para
sempre e por isso esgotou-se quando a juventude acabou. Deu bons
músicos, bons actores, bons desportistas, bons artistas. E
drogaditos. Mas não deu nenhum bom político, nem nenhum grande
empresário. Talvez porque o hedonismo e a diletância, coisas boas
para a escrita e para as artes, não sejam os melhores valores para
actividades que necessitam disciplina, trabalho, cultura e
honestidade; valores, de algum modo, pouco pertinentes durante
aqueles anos de festa.

Eu não confio na minha geração nem para se governar a ela
própria quanto mais para governar o país. O pior é que temo pela
que se segue. Uma geração que tem mais gente formada, mais gente
educada mas que tem como exemplos paternos Durão Barroso, Santana
Lopes, José Sócrates, Passos Coelho, António J. Seguro, João
Semedo e companhia. A geração que aí vem teve-nos como
professores. Vai ser preciso um milagre. Ou então teremos que
ressuscitar os velhos. Um milagre, lá está.

Publicitário, psicossociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve de acordo com a
antiga ortografia

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