pirataria

Fnac. A tempestade perfeita

A Fnac vai ser vendida, e o único motivo pelo qual não será desmantelada é a força dos sindicatos em França e a ameaça do governo francês ao grupo que a detém. Se o PPR sonhar em encerrar a cadeia de eletrónica, que emprega 12 mil pessoas em França, vai ter Hollande à perna.

A solução é tentar vendê-la, mas quem quer comprar um negócio em queda? Tirando a eletrónica e os cafés, o que a Fnac vende é potencialmente pirateado à grande e à francesa.

Música, DVD musical, filmes, até os livros começam a enfrentar o problema da pirataria. A Fnac, marca criada em 1954, está à beira do colapso. Como maior cadeia de retalho em França, com 156 lojas em vários países, a sua estrutura estava adaptada a um mundo que comprava música e filmes.

O que sucedeu a seguir foi uma tempestade perfeita. À histeria dos downloads ilegais juntou-se a recessão na Europa e esta revolta generalizada com tudo o que nos está a acontecer. “Cortaram-no no salário, ide-vos lixar eu vou sacar a discografia inteira dos Beatles, era o que mais faltava pagá-la.” É certo que a crise da Fnac não se deve só à pirataria, e tão pouco a cadeia vende apenas música e filmes. Mas alguém consegue negar a relação entre os dois factores?

Por estes dias, em que o Ministério Público diz que não há problema nenhum em partilhar ficheiros online, é tudo cópia privada, até parece que fica mal ser contra os downloads ilegais. Uma pessoa é contra e cai-lhe logo meio mundo em cima, a arte devia ser gratuita, a indústria é uma cambada de ladrões, as lojas lucram fortunas à nossa custa. Já me disseram que cópia privada é cópia privada, e se uma pessoa tem um milhão de amigos, azar. É legal.

Desconfio que não seja legal, mas tenho a certeza que é imoral. A culpa é em boa parte das editoras, dos estúdios, que ainda optam pela via das ameaças de prisão em vez de se fazerem à vida e perceberem que o modelo tem de mudar. Façam acordos uns com os outros, disponibilizem os conteúdos mais facilmente, esqueçam a era do CD e do DVD físico = a sua morte é uma questão de tempo.

Esta culpa não justifica, no entanto, que se roube. Qualquer pessoa que rouba sabe que está a roubar, e pode argumentar o quanto quiser – há sanguessugas na indústria, os artistas são uns lambões, os CD são caros demais, o Blu-ray não compensa.

O problema aqui, o que justifica que as pessoas não sintam que estão a roubar, é a ideia não verbalizada de que aquilo não é trabalho a sério. Um cantor, um actor, um romancista não trabalham no duro, fazem arte. São uns românticos, talvez uns intelectualóides, uma espécie diferente de trabalhadores. As pessoas que sacam tudo o que mexe têm empregos, e se calhar ficariam de boca aberta se o patrão lhes dissesse no final do mês que não pagava porque a indústria é composta por tubarões e o sistema merece ser distorcido.

Se me falarem no Kazaa que usavam em 2000, percebo perfeitamente. Se me disserem que foram ao MediaFire buscar uma raridade que nunca chegou a estar à venda, também percebo. Discografias inteiras, filmes que ainda estão no cinema, concertos que ainda nem chegaram às lojas já não entendo. O best of da Jennifer Lopez está a 5 euros no iTunes. É o que muita gente gasta por dia em tabaco e café.

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