Holocausto, dívida e alemães

Quis o destino que eu lesse, na semana passada, dois textos sobre
o mesmo assunto. Textos que junto aqui porque foram feitos um para o
outro. Se acharem demagogia ou mau gosto juntar holocausto e
economia, culpem o destino que os emparelhou no meu stream noticioso.

Um li no Público, “Milagre económico alemão teve ajuda de
perdão de dívida”, o outro no New York Times, “The Holocaust
just got more shocking”
. O Público relembra-nos que, em 1953,
setenta países perdoaram a dívida alemã acumulada antes e depois
da guerra – e que ajudou a financiar. O montante do perdão
equivaleu a 62,6% da dívida, tendo sido também acordados valores de
juro abaixo do mercado e uma amortização, da dívida e do juro,
limitada a 5% do valor das exportações.

(Espero que estes valores, que li no Público, estejam certos que
eu é mais Ciências Sociais e História).

Para conseguir este perdão, continua o artigo, foi decisiva a
pressão dos EUA e o assentimento dos outros dois membros da troika
da altura: França e Inglaterra.

Já o New York Times dá conta de outros números e de uma
contabilidade mais negra. Os números são apresentados pelos
investigadores e historiadores do Holocaust Memorial Museum. Segundo
eles, durante o reino de terror nazi, de 1933 a 1945, os alemães
implementaram, da França à Rússia, uma rede de 42.500 campos de
terror. Quando esta investigação começou, no ano 2000, estimava-se
que o número andasse pelos 7 mil, mas a História veio a revelar-se
seis vezes mais negra. A contabilidade é esta: 30 mil campos de
trabalho escravo, 1150 guetos judaicos, 1000 campos de prisioneiros
de guerra, 980 campos de concentração, 500 bordéis de escravatura
sexual e mais uns milhares de sítios dedicados à eutanásia de
velhos e doentes e à prática de abortos forçados.

O curioso é que, apenas oito anos depois de toda esta germânica
atrocidade, setenta países, encabeçados por uma troika deles,
resolveram perdoar 62,6% dívida alemã, reconhecendo que, se assim
não fosse, Berlim nunca recuperaria e todos tinham a perder ainda
mais.

Talvez a explicação esteja no ensaio “Morale and National
Character”, escrito pelo antropólogo G. Bateson em 1942, sobre
americanos, ingleses e alemães. Diz ele que americanos e ingleses,
mais dados a padrões de relacionamento simétricos – um cresce
quando o outro cresce e um relaxa quando o outro relaxa – não têm
normalmente estômago para “bater em quem já está no chão”; ao
contrário dos alemães, mais dados a relacionamentos complementares,
do tipo dominação/submissão – quando mais fraco te sentes mais
forte me sinto. Segundo escreveu, impor punições à Alemanha
implicaria uma dominação constante dos vencedores o que, a médio
prazo, resultaria num abrandamento e numa nova escalada alemã.

Em 1953, por muitas razões, fez-se o que estava certo.
Perdoou-se. Perdoou-se, ao povo que implementou 42.500 campos de
terror, o dinheiro que deviam e que tinha sido usado (também) para
os financiar.

O perdão é a dívida da Alemanha. É bom lembrar e, já agora,
cobrar.

Publicitário, psicossociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve de acordo com a
antiga ortografia

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