Isto já não é um país de poetas

As manifestações de indignação pelas medidas que o
governo quer experimentar nos portugueses foram um sucesso de
mobilização graças ao poder das redes sociais. Infelizmente o
“texto” foi mau. Tão mau que nada ficou; uma palavra de ordem,
um slogan, um pensamento, nada de memorável e politicamente
relevante para o movimento que acabou sem nome. De tudo o que se viu
apenas sobrou uma fotografia de uma giraça com um polícia. Uma
imagem de concórdia e paz que não podia ter calhado melhor ao
governo que foi absolvido de toda a culpa quando os organizadores
escolheram a palavra de ordem “Que se lixe a troika”.

Que pobreza! Mas ninguém teve uma ideia melhor? Ninguém soube
convocar um poeta, um escritor, um redactor publicitário ou até um
destes novos jornalistas semi-iletrados, c”os diabos!?

“Que se lixe a troika”, e a profusa “Vão-se foder”, não
ajudaram a causa da indignação. Para além de impropérios são
banalidades – o que é muito mais grave. Como impropérios, a imprensa
não lhes pega pois não servem para debates e entrevistas. Ninguém
vê a Judite de Sousa a perguntar ao Passos Coelho, “Senhor primeiro-ministro: o sr.
primeiro-ministro está disposto a ir-se foder como pediu
no domingo passado mais de meio milhão de portugueses?”; e o Pedro
… “Sabe Judite, um
primeiro-ministro tem de pôr os interesses do país
em primeiro lugar: um primeiro-ministro, por muito que tenha vontade, não
pode ir foder-se quando em causa está o interesse nacional”. E
depois são impropérios banais que não alimentam conversa pois as
conversas alimentam-se de assunto e não de banalidade.

A outra coisa irritante é que o “Que se lixe a troika”, que
significa “estou-me nas tintas para a troika”, é um paradoxo. Se
me estou nas tintas para quê esta mobilização? E estar-me nas
tintas significa o quê? Que não lhes falo quando os vir na rua? Não
devia a manifestação ter como alvo o governo? Não são eles que
até hoje não tiveram o engenho (as habilitações) e a arte para
negociar, ter ideias e, sobretudo, dar-se ao respeito lá fora
mostrando carácter e não subserviência de marrão?

Havia tanto a dizer e nada ficou a não ser indignação sem
texto. A única coisa que viaja pelos meios é a tal foto da giraça
e do polícia – que, aposto, fez parte do relatório que o ministro
das Finanças fez ao patrão alemão para ilustrar a “manifestação
de carácter”
, como lhe chamou e com a qual concordou. Estou mesmo
convencido que os juros no leilão da dívida desta semana baixaram
porque os mercados julgam que cá está tudo bem: “Afinal não há
sangue”, terão pensado os tubarões que foram para outros mares.

Faltou elevação, ironia, sarcasmo, rima, comparação, metáfora.
Faltou texto à indignação. Isto já não é um país de poetas.

Publicitário, psicossociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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