Mário Mandacaru sobre a nova Sumol. “Sinto falta de genuinidade. E dores nas costas”

ng4179379

A Sumol mudou de imagem e assinatura. "Sentes?", pergunta agora aos fãs a marca portuguesa de refrigerantes.

A identidade, criada pela britânica Bluemarlin, inspira-se na street art e visa colocar a marca, que assinala mais de 60 anos, de um público mais jovem.

O Dinheiro Vivo foi ouvir os criadores de marcas nacionais sobre o que sentem sobre a nova identidade da Sumol.

Depois de Pedro Albuquerque, do atelier Albuquerque Designing Business, agora é a vez de Mário Mandacaru, de A Equipa, analisar a nova identidade da marca de refrigerante.

2

Leia ainda: Pedro Albuquerque sobre a imagem da Sumol. “Desde que não mudem o sabor do Sumol de ananás”

Leia o artigo na íntegra aqui:

“Sentes a idade que tens?

O filme “While we”re young“, que abriu o Indie Lisboa há dias, é passível de várias leituras e gerador de bons tópicos para conversas à volta da mesa entre amigos e copos, mas o ponto central (talvez para mim que conto com alguma idade) está na questão de sabermos envelhecer. Supostamente há que haver uma certa dose de sabedoria, que acompanha como bónus a experiência que ganhamos com os anos. Afinal isso não é só cabelos brancos, rugas, hérnias discais e um armário vintage.

Muitas marcas que nos acompanham há algumas décadas fazem-no com maestria, utilizando com sensatez o seu património gráfico, evoluindo sem abandonar ou renegar o seu passado.

Quando em 2008 a Coca-Cola recebeu merecidamente o Design Grand Prix Grande em Cannes, lembro-me de ler a notícia com algum espanto. Inaugurava-se nesse ano essa categoria no mais prestigiado festival até então voltado para a publicidade e a expectativa era grande para saber qual o trabalho que se destacaria num evento que enaltece o arrojo criativo (muitas vezes em detrimento da veracidade, mas isso é tema para outra conversa). Curiosamente o trabalho vencedor pertencia a uma marca com mais de 100 anos, que decidiu se reinventar retirando toda a tralha visual que a rodeava, exibindo-se de cara lavada. Sem muletas visuais a marca ganhou mais do que um Leão, ganhou respeito.

Há pouco tempo a PepsiCo faz o mesmo com a marca 7Up, de forma menos grandiosa mas bem realizada à sua escala, assumindo um novo visual baseado na sua história. A assinatura “Feels good to be you” faz lembrar uma frase de Clint Eastwood, no livro “Wisdom” do fotógrafo A. Zuckerman, justamente a respeito de saber envelhecer: “You don”t have anything to prove, you can just be what you are.” [Não tens nada que provar, podes ser apenas o que és]

A “nossa” Sumol também resolveu mudar de visual, e fê-lo abandonando o seu património de marca, ignorando qualquer referência aos seus 60 anos de existência. Ao contrário das duas marcas que referi anteriormente a decisão tomada foi a de ruptura, com a intenção de agradar um público mais jovem. Entretanto a utilização de códigos com “intenção street art” parece-me chegar fora de tempo e de forma limitadora, espartilhando o desenvolvimento do seu universo visual no futuro.

Imagino que tenham sido feitos estudos e testes de mercado, e o próprio portfolio da Bluemarlin, empresa que desenvolveu o rebranding, é digno de respeito; mas não terão menosprezado demais a bagagem que a Sumol trazia? É que dá pena vermos desperdiçar uma oportunidade de rejuvenescermos uma marca portuguesa a partir de elementos que fizeram dela o que é hoje (ontem) para tentarem criar uma marca mais “nova”. Sentes? Sinto, sim. Sinto falta de genuinidade. E dores nas costas.”

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje

Página inicial

Pedro Queiroz Pereira

Pedro Queiroz Pereira deixa império de mil milhões

Pedro Queiroz Pereira, presidente do conselho de administração da Semapa

Semapa: “Mais do que um património, PQP deixa força e deixa valores”

Outros conteúdos GMG
Mário Mandacaru sobre a nova Sumol. “Sinto falta de genuinidade. E dores nas costas”