Nokia

Nokia, o fim anunciado

Aquilo que há muito se julgava provável aconteceu.
Ontem à noite, a Microsoft chegou a acordo com a Nokia para comprar
a sua divisão de telemóveis por 7,2 mil milhões de dólares, ou
5,4 mil milhões de euros.

É o fim da Nokia como fabricante de
telemóveis. O fim de uma marca que dominou a indústria durante mais
de uma década e em momentos pareceu invencível. O CEO Stephen Elop
regressa à Microsoft, de onde saíra para liderar os esforços de
recuperação da marca finlandesa, e a ele juntam-se 32 mil
trabalhadores da Nokia. A Microsoft, que fez tudo para vencer neste
mercado sem sucesso, tem agora a sua própria divisão móvel.
Isto vai ser muito interessante.

Questiono-me se não terá sido este o plano da
Microsoft desde o início. Depois de as duas empresas assinarem o
acordo para que os telemóveis Nokia passassem a ter o sistema
operativo Windows Phone, aconteceram duas coisas: os primeiros
modelos da nova era demoraram estupidamente a chegar ao mercado,
perdendo timing, e a Microsoft não fez o esforço que era esperado
para promover os aparelhos. Isto segundo a Nokia, claro, que esperava um investimento maior da parceira.

Outra coisa estranha que
aconteceu é que não foi sequer a Nokia a estrear a última versão
Windows Phone 8 – a Portugal chegaram primeiro os HTC e Samsung. A
Nokia queixou-se, no Verão do ano passado, que a Microsoft não
estava a esforçar-se para desenvolver um ecossistema de aplicações
robusto e apelativo.

Na verdade, esse continua a ser o principal
problema dos Windows Phones: os telemóveis são fantásticos, o
sistema operativo está bem desenhado e é intuitivo, mas as
aplicações disponíveis ainda estão muito longe da variedade e
dimensão da App Store e Google Play. E para que querem hoje as
pessoas um smartphone se não conseguem descarregar o jogo da moda, a
aplicação que põe bonecada no Instagram ou o gestor de páginas do
Facebook?

De maneira que a Nokia vendeu meia dúzia de milhões
de Lumia, o que é bom para uma marca mediana, mas é terrível em
comparação com a Apple e a Samsung – que despacham dezenas de
milhões de smartphones por trimestre.

A Microsoft tem agora a oportunidade de controlar
tudo, o hardware e o software, e mandar um golpe “a la Apple” no
mercado. Várias questões se colocam a partir daqui: a empresa vai
deixar de licenciar o Windows Phone 8 às outras fabricantes? Os
engenheiros que transitam da Nokia vão liderar o desenvolvimento dos
telemóveis, ou vão estar sob alçada dos engenheiros da Microsoft?
Stephen Elop poderá substituir Steve Ballmer como CEO?

O potencial
de sucesso da Microsoft é razoável, embora as anteriores tentativas
tenham sido desastrosas (lembra-se dos telemóveis Kin? Ninguém se
lembra). Também há outros casos que podem servir de alerta para a
fabricante: a HP comprou a Palm numa tentativa de ressuscitar a
anterior rainha dos PDA e o resultado foi humilhante para ambas. A
Blackberry, que passou os últimos dois anos a reinventar-se, está à
procura de opções, incluindo a venda. A própria Apple está muito
pressionada para apresentar um iPhone que volte a entusiasmar o
mercado e constitua um desafio à Samsung, que esmaga a concorrência
de trimestre para trimestre.

Do ponto de vista do consumidor, esta aglutinação
da unidade de telemóveis da Nokia na Microsoft pode ser positiva. A
fabricante do Windows vai apostar seriamente no negócio e tentará
expandir o mercado, em especial com um ecossistema mais forte.
Significa mais oportunidades para os programadores, maior qualidade
na escolha para os consumidores e mais variedade de oferta para as
operadoras, que em tempo de decréscimo das vendas tendem a apostar
no que é mais popular.

Para a Nokia, que chegou a ser uma das maiores
empregadoras na Finlândia e a grande responsável pela massificação
dos telemóveis, é um fim que atingiu o orgulho nacional. Um
executivo estrangeiro vem da Microsoft, despede milhares de pessoas
ao longo de três anos e no final vende os telemóveis à fabricante
norte-americana e regressa à sua empresa de origem. A imprensa
finlandesa não está satisfeita, diz a Reuters. Um tabloide diz hoje
que Elop foi um “cavalo de tróia” que entrou disfarçado na
Nokia para acabar com ela. Seja como for, já se esperava um desfecho
neste estilo. Nokia, connecting people no more.

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