O mau discurso

Exmo. Sr. Presidente da República, Exmo. Sr. Presidente da Câmara
Municipal de Lisboa, minhas senhoras e meus senhores:

Neste passado dia 5 de Outubro, os discursos da nossa classe
política, seguindo o costume da terra, foram todos muito graves,
muito chatos e muito pesados; foram todos muito maus, como é costume.

É doloroso para mim, que sou da escrita e da comunicação, ouvir
esta velha e datada retórica republicana, sem emoção nem nobreza,
sem modernidade nem futuro, e que narra apenas a desgraça do
quotidiano.

É normal dizer-se que não se fazem discursos como antes, que já
não há Kennedy nem Luther King nem Churchill. Mas esse não é o
problema. O problema é que cá na terra ainda se fazem discursos
como antes. A oratória, que não é arte estática e evolui com os
costumes e os media, tem permanecido, por cá, inalterada a ponto de
políticos novos, como o A. J. Seguro, soarem, quando discursam, mais
velhos que os velhos, como se tivessem frequentado uma escola de pose
republicana. A retórica dos nossos políticos é velha e soa a
velha. Os seus discursos, com raríssimas excepções, são a banda
sonora do fim de um velho regime, moribundo num atasco de dívidas.

Não admira portanto que todas as velhas figuras e responsáveis deste regime, desde o velho Fazenda ao velho Soares, passando pelos
novos velhos, tenham aplaudido o discurso do Presidente. É o tom do
regime que eles aplaudem, o desfilar de argumentos que agradam a
gregos e troianos, a repetição de “la paliceanas” evidências,
entregues num pathos grave, para dar peso à mensagem.

E qual foi ela? A narrativa, o logos do discurso?

Apenas um apanhado de tudo o que se diz e escreve nos media, um
resumo das notícias e opiniões dos actores secundários desta
tragédia que são os jornalistas e os opinadores profissionais: que
gastámos o dinheiro que nos mandaram e mais o que pedimos
emprestado, que vivíamos acima das nossas possibilidades, que agora
acabou, que vai voltar a pobreza que era onde estávamos quando a
democracia começou.

Como se ainda não tivesse sido dito, como se a notícia da
desgraça só fosse oficial se saída da boca de sua excelência o
PR. Mas já foi dito. E mesmo que tenha de ser dito outra e outra
vez, o PR deve dizê-lo de forma diferente. Não precisa de estar escrito na Constituição que um dos poderes presidenciais é o de mobilizar, de
motivar e de convocar a esperança. Isso é algo que um líder faz, assim
consiga inspirar, pela palavra, quem o ouve. Um discurso, quando é
bem escrito, é uma arma eficaz. O seu poder, que é o poder da arte,
é imenso pois é capaz de tocar a razão e o coração e de
mobilizar vontades para a acção. O PR podia ter usado o poder da
oratória para o bem em vez de para o tédio. Para a esperança em
vez de para o medo.

Discursos houve que ajudaram a derrubar tiranos, a mudar sistemas,
a corrigir injustiças, mas este, o que oiço diariamente, nada faz
para combater o desespero nem para convocar a coragem necessária
para enfrentar a besta da pobreza que se aproxima. Este, o que oiço
diariamente, não é escrito por pessoas para pessoas, é escrito por
políticos para políticos. Políticos paternalistas e narcisos a
olharem para si e para as suas carreiras e, com distância, para o povo.

A oratória pode ser usada para o bem e para o mal. O desespero e
o medo em que começamos a viver é propício à oratória demagógica
e é pasto para o mal.

E o mau discurso do regime, sem emoção nem esperança, não
ajuda.

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