O mercado explosivo da marijuana

No último ano, surgiram dezenas de startups ligadas ao mercado da marijuana. A droga é legal em cada vez mais países para fins terapêuticos e começa a ser legalizada também para uso recreativo. A mudança de mentalidades quando ao consumo de erva reflecte-se na margem de manobra dos governos para aprovarem legislação que não só despenaliza como também aprova a produção, comercialização e consumo - com certas condições.

Uma pesquisa na CrunchBase (plataforma que agrega empresas inovadoras) devolve 53 startups ligadas à canábis, sobretudo na área de comércio electrónico, aplicações móveis e software. Há um Facebook da erva, o WeedWall; um software para pontos de venda, Green Bits, uma consultora que já está em bolsa, American Cannabis Company, uma app que dá para fazer check-ins e oferece recompensas, Indago; e muitas outras.

No último ano, dez startups ligadas a este mercado levantaram mais de um milhão de dólares em investimento cada uma; não contando com a Privateer Holdings, que angariou 75 milhões e se prepara para lançar a marca de produtos “Marley Natural”, com a família de Bob Marley.

Os investidores estão atentos e disponíveis para injectar capital nestas empresas, porque a procura é um dado garantido, e uma vez que chegue a legalização total, haverá muito dinheiro para ser ganho. Tal como no álcool.

Na semana passada, fui a vários estabelecimentos médicos na Califórnia que se especializam em prescrição de marijuana (eles preferem usar o nome da planta, canábis) para tratar doenças, maleitas e afins. Todos tinham pacientes à espera de consulta, e num cheirava intensamente a erva, porque alguém estava a fumar nas redondezas. Isto apesar de os consultórios serem negócios separados dos dispensários, que funcionam como farmácias: a pessoa vai lá com a receita e avia na hora.

No único dispensário onde consegui entrar – porque eles são rigorosos, sem receita não há motivo para estar ali – os seguranças não deram margem de manobra. À espera do avio estavam sentados alguns pacientes, entre novos e velhos, e à escolha havia diversas estirpes com vários preços. Disseram-me depois que são preços baixos tendo em conta a qualidade do produto e em comparação com o mercado negro.

Entretanto, falei também com o director da NORML, uma organização fundada em 1970 que luta pela reforma das leis que penalizam o consumo desta droga. Paul Armentano defende que, no máximo, esta questão deve ser encarada como de saúde pública, nunca como um crime. E garante que a maioria das pessoas percebe que a proibição já não faz sentido.

Ora, Portugal há muito que tomou uma posição pioneira, descriminalizando o consumo de drogas em 2001 com resultados encorajadores – uma medida que foi recentemente louvada num debate da HBO nos Estados Unidos, onde Portugal foi considerado um caso de estudo.

No que toca à canábis medicinal, no entanto, ainda não há grande progresso. Várias iniciativas do Bloco de Esquerda para a legalização (total) foram rejeitadas na Assembleia da República, a última das quais em Abril. Existe uma petição pública para que se legalize a sua utilização para fins terapêuticos, mas não é expectável que tal aconteça num futuro próximo – apesar de vários profissionais de saúde, como o psiquiatra Luís Patrício, defenderem a sua comercialização controlada para estes fins.

Ainda assim, acredito que seja uma questão de tempo. Carecemos ainda de um consenso sobre como usar esta planta para tratamentos e quais os riscos associados, mas basta ler a bula de muitos medicamentos para perceber que quase tudo tem efeitos secundários. É mais o estigma que impede a sua legalização.

Se a recusa em ter “clubes sociais de canábis”, como já foi aventado, é porque incentiva o seu consumo, então o que são bares, discotecas e restaurantes, senão “clubes sociais” onde se incentiva, de forma perfeitamente legal, o consumo exacerbado de uma substância com potenciais efeitos adversos – o álcool?

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