O Ronaldo é muito irritante

O Ronaldo é muito irritante. O modo como corre mais do que os
outros irrita todos os que ficam para trás. O modo como festeja, à
matador, irrita os que, estocados, jazem por terra. O modo como olha,
de viés, os repórteres que lhe fazem sempre perguntas previsíveis
e imbecis, irrita. O modo como se exibe, escultural e em cuecas, em
anúncios de roupa interior, irrita tudo o que é balofo. O modo como
se penteia irrita os carecas. O modo como é diferente irrita.

Ninguém faz nada de diferente sem irritar muita gente. Ronaldo
não imita ninguém. Não imita Maradonas nem Pelés nem Cruijffs.
Ronaldo é Ronaldo. Ninguém joga como ele joga; nem ele joga como
alguém alguma vez jogou. Isto é ser original. Único. Nunca ninguém
teve este estilo. Nunca ninguém correu como ele. Nunca ninguém
bateu os recordes que ele bate todos os dias.

O statu quo bem pode gostar mais do imitador do Maradona. E o
imitador do Maradona é um bom imitador de Maradona. É quase igual
ao que imita. Às vezes nem se distingue. É como aquela banda que
imita os Pink Floyd na perfeição. Mas o Maradona não imitou
ninguém. Nem podia. Tinha o corpo que tinha e um talento maior do
que o corpo que suplantou. Criou o modo de ser Maradona, que hoje o
imitador do Maradona do Barcelona imita.

Ronaldo nasceu com um talento que é grande. Ainda assim um
talento mais pequeno que o corpo que tem ou que fez por ter. Um corpo
magnífico, um animal, um cavalinho lusitano, como escreveu Manuel
Fonseca no melhor texto sobre futebol escrito em Portugal nos últimos
anos (leia aqui).

Ronaldo pegou no que tinha e inventou um novo tipo de jogador. Não
havia este jogador antes dele. Ele é o primeiro a ser assim e isso
irrita os colegas que toda a vida se esforçaram por imitar os seus
ídolos. Os imitadores preocupam-se em agradar aos seus pares, os
originais preocupam-se em desafiar as convenções.

Ronaldo é diferente de todos os que antes foram os melhores do
mundo porque o seu modo de jogar não se enquadra nas convenções; é
um novo padrão de melhor do mundo.

A grande diferença entre o Ronaldo e o imitador do Maradona é
que não haverá nunca jogadores a imitar o Messi porque na verdade
estão a imitar o Maradona. Mas há-de haver muito jogador de futebol
a imitar o Ronaldo. É um estilo novo, atlético, animal que vai
fazer escola. Só há no mundo mais dois desportistas com estas
características: LeBron James no basquetebol e Nadal no ténis.
Desportistas talentosos dedicados a melhorar os seus corpos, que
entregam ao espectáculo, que entregam aos fãs. Comparados com estes, todos os outros são quase anões.

Não se consegue nada de diferente sem irritar muita gente. Mozart
irritou o Salieri, Almada irritou o Dantas, Duchamp irritou toda a
gente, Hemingway irritou o Faulkner, Steve Jobs irritou a IBM, o
Pinto da Costa irritou Lisboa… Não há progresso, invenção,
génio e glória sem irritação.

Que bom seria que Portugal fosse mais como o Ronaldo, mais
diferente. Em vez de se esforçar por agradar, devia antes tentar irritar
toda a gente.

Publicitário, psicossociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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