O Turismo promove um país de criados

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A campanha de reeducação de massas,
veiculada no site visitportugal.com, é uma coisa tão bafienta, tão
neo estado-novo, tão “Ó tempo volta p’ra trás”, que não me
admirava que os verso da Grândola (sem eu querer) começassem a
aparecer pelo meio deste texto (ver vídeo aqui).

O filme começa com dois estrangeiros suspirando pela Ana. “Ai a
Ana, ai a Ana”, dizem. “O melhor de Portugal foi a Ana.” E quem
é a Ana? Uma rameira? Uma portuguesa comum? A sua filha?

Desconfio que se trata da sua filha, caro leitor. E o Turismo do
governo de Portugal quer que ela e os outros portugueses todos, para
além do couro e do cabelo que dão aos credores, dêem também o
corpo e o conho a quem nos visita.

Este parece ser o objectivo desta indigna campanha, assumida, pelo
próprio Turismo, como campanha interna. Uma campanha que visa
(imagine-se) educar os portugueses na servidão. É uma campanha que
nos incentiva a sermos rameiras e gigolôs ao serviço de quem vem de
fora. Uma campanha que reforça a ideia de Portugal como país de
serventes sorridentes e lavados, prontos para todo o serviço; que
reforça a ideia de um povo criado para ser criado; uma ideia
enraizada já por esse mundo fora e que, como estudos demonstraram
(como se não bastasse o bom senso), nos retira valor. Uma
imbecilidade, portanto.

Mas apostar no valor económico da subserviência parece ser a
estratégia do Turismo do governo de Portugal. E para tal, vai de
fazer o impensável: uma campanha de doutrinação e reeducação de
massas; à boa maneira nazi/estalinista.

No filme, para além dos bifes que suspiram de saudades pelo
docinho da Ana, ainda se vê uma holandesa que, vinda a Portugal
jogar golfe, acabou enrolada com um português; vêem-se duas
francesas a recordar a maneira delicada como o senhor António
arrumava as toalhas e tinha as camisas bem passadas e tratava da
casa-de-banho; vê-se o pobre do Avillez a servir à mesa, tão
simpático, tão deferente, tão pouco chef e tão criado; vê-se um
senhor de meia idade que sofre de uma estranha compulsão para a
subserviência e se manifesta a fazer de guia a uma família de
brasileiros. Vêem-se criados. Criados. Só criados, nada mais. Nada
de digno, criativo, inteligente, elevado, aspiracional. Só criados.

Esta indecorosa ofensa, esta imbecilidade, esta falta de
competência, bom senso, valores e escola, conclui-se com uma citação
de Fernando Pessoa. Mas não é bem uma citação de Fernando Pessoa.
É um sucedâneo, uma citação tipo-Pessoa. Em vez de “Põe quanto és no mínimo que fazes”, lê-se o erro ” Põe tudo o que
és na mais pequena coisa que fazes”.

Tudo o que aquela gente do governo de Portugal é, pôs nesta
campanha; e não é nada de bom.

Nunca me senti tão envergonhado com uma coisa feita em meu nome.

Publicitário, sociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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