Os jornais acabam em 2028

Disse-me em conversa a gente esperta da TBWA Lisboa que, em
Portugal, os jornais acabam em 2028. Fiquei alarmado. Julguei tratar-se de uma
cabala contra a democracia perpetrada pelos suspeitos do costume. Não era o caso.
Eram apenas projecções que se apressaram a fazer-me chegar, o que agradeço. A
previsão vinha postada no Future Exploration Network. Lá pode consultar-se um
colorido mapa mundo sobre o futuro negro dos jornais. Chamam-lhe a Newspaper
Extintion Timeline e prevê a extinção em Portugal em 2028.

Ainda temos, apesar de tudo, mais tempo do que os americanos
para inventar formas de obter receita e manter o jornalismo vivo. Lá, na
América, os jornais acabam já em 2017.

Um outro paper do Pew Research Center, The search for a new
business model, explicava melhor a coisa. Punha o dedo na ferida. Embora as
receitas das edições digitais cresçam muito, o decréscimo das receitas do papel
é sobre uma base maior, o que faz com que o negócio não funcione. Por cada dólar
ganho no digital, perdem-se sete no papel.

Mas a ferida é outra.

Como o velho papel ainda é o responsável por quase toda a
receita, são os velhos hábitos, os velhos modelos, a velha organização, a velha
geração, as velhas formas de pensar que dominam o negócio.

É verdade que é incómodo passar 90% do tempo a falar de
digital quando este representa só 10% das receitas. Mas é inevitável. Lembra-se
da história da Kodak, que em 1976 detinha 90% do mercado do filme e que em 2012
declarou falência? Provavelmente terão passado pouco tempo a falar do digital e
quando o fizeram já era tarde. Se já se tivesse descoberto a roda da
substituição das receitas era fácil. Era copiar. Mas isso ainda não aconteceu e
por isso a solução passa, antes de mais, pelos recursos humanos.

O grande desafio dos meios de comunicação, sobretudo dos
jornais, é o de conseguir resolver um problema de competências que é, antes de
tudo, um problema geracional. Enquanto as marcas do jornalismo e da comunicação
não tiverem nos seus quadros competentes e inteligentes nativos digitais, o
problema não se resolve. E quando falo dos quadros não me refiro só a
jornalistas que, apesar de tudo, são mais amigos do digital do que outros
profissionais. Falo na gestão, nos departamentos comerciais e de operações, nos
departamentos financeiros e, sobretudo, nos conselhos de administração. Falo de
nativos digitais, não de emigrados para o digital – que, afinal, hoje somos
quase todos.

Falo de quem já nasceu com o computador, com o telemóvel e com a
Internet, quem respira digital desde que nasceu e por isso tem uma relação
digital com a comunicação; sem qualquer sotaque analógico.

Claro que não é criando um gueto digital dentro das velhas
organizações que a coisa se resolve. Isso é o que tem vindo a ser feito e não
resulta. O que resultaria era pôr nativos digitais a gerir o velho negócio. Era
um instante enquanto o velho ficava novo.

Mas isso só lá para 2017 (nos Estados Unidos). Que é quando
os que nasceram nos anos 90, com a web, estiverem nos seus trintas e tomarem
conta do negócio.

Publicitário, psicossociólogo e autor

Escreve à sexta-feira

Escreve segundo a antiga ortografia

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