Os piratas Anónimos

Um dia antes do encerramento compulsivo, os donos do Megaupload escreveram um comunicado a reafirmarem a sua idoneidade e a garantirem que não iam a lado nenhum. No dia a seguir, kaput.

A impunidade na internet é quase total para quem vive às custas do trabalho dos outros; mas volta e meia acontece o improvável. E sim, o mesmo FBI que persegue assassinos e barões da droga encerrou o Megaupload e prendeu os seus fundadores. Kim DotCom vai ter imenso trabalho para evitar ser extraditado para os Estados Unidos e julgado pelos crimes de que é acusado.

Ora a primeira coisa que aconteceu quando o site deixou de funcionar foi quase cómica: centenas de pessoas a queixarem-se no Twitter e no Facebook de como a vida ia ser um inferno sem o Megaupload. Não porque tivessem perdido os seus ficheiros legítimos, arrestados com o encerramento; mas porque não sabiam como iam fazer para sacar filmes e séries em poucos minutos.

Uma coisa notável. As pessoas foram para as redes sociais admitir, para quem quisesse ler, que pirateavam à grande todo o tipo de conteúdos. Melhor: os comentários que li eram do género: “f**** para o FBI, acham que eu tenho dinheiro para andar a comprar CD e DVD? E a pagar para alugar séries de televisão??”

É verdade que muita gente tinha lá armazenados ficheiros legítimos e também houve críticas porque o FBI pôs tudo dentro do mesmo saco. Se calhar até era a maioria. Mas um site chamado Megaupload e conotado com pirataria da forte se calhar não era o melhor serviço possível de armazenamento.

É óbvio que os milhões de cibernautas que se resfastelavam diariamente com conteúdos gratuitos não estão nada contentes e vociferam contra este “ataque à liberdade na internet”. Porque para eles, liberdade equivale a borla. Não querem pagar pelos conteúdos e não querem publicidade pelo meio. Acreditam, talvez, que as coisas aparecem por imaculada concepção e não é preciso pagá-las.

Mais irónico ainda: muitos estão dispostos a pagar por um serviço premium a Kim DotCom, mas não aos próprios artistas. O alemão que vive na Nova Zelândia não comprou dois nem três carros de luxo com o dinheiro que ganhou: comprou vinte. É mais rico que muitos dos artistas que ajudou a piratear. Só em 2010, ganhou 42 milhões de dólares.

O Megaupload não foi encerrado por ser um simples cacifo digital que foi corrompido por pirataria. As autoridades apontam para uma série de ilegalidades, entre as quais o pagamento de incentivos aos utilizadores para que carregassem conteúdos ilegais. O GigaOm tem um resumo interessante do ficheiro do FBI.

Depois deste desfecho, uma série de outros sites começaram a tomar precauções para não terem o mesmo destino. O grupo de hackers Anonymous lançou um mega ataque em retaliação, mas nada pode fazer para impedir que a justiça siga o seu curso (seja este qual for).

O problema reside nos outros. Os piratas anónimos que vasculham a internet à procura de borlas, que se justificam com os preços elevados dos conteúdos – como se falassem da carne ou do arroz e fossem obrigados a consumir séries em doses regulares.

Não. Uma série não é serviço público. E mesmo que o modelo de distribuição esteja errado, isso não é desculpa suficiente para piratear tudo o que aparece à frente. Mesmo que artistas como o Will.i.am defendam o Megaupload ou outros digam que não se importam de ser pirateados, desde que as pessoas oiçam a sua música. É a sua escolha, não o standard da indústria.

Há cerca de um mês, a banda de rock Thirty Seconds to Mars lançou um site inovador, VyRT, onde disponibiliza o link para adquirir o seu MTV Unplugged por 4,99 dólares (3,8 euros). É uma maneira de contornar as despesas de distribuição e de controlar o processo.

No dia seguinte, todo o espectáculo estava já disponível no Megaupload. Aparentemente, 3,8 euros é um preço incomportável para um DVD. Afinal, qual é o preço que vai impedir a pirataria? Até onde têm de descer os preços para convencer as pessoas a comprar?

O problema não é o preço. É a impunidade.

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