“Os tasqueiros não fazem ideia de quem é esse tal de ‘gurmê'”

Tasca Esteves é uma das histórias contadas em Guia Aliança Velha das Tascas de Lisboa
Tasca Esteves é uma das histórias contadas em Guia Aliança Velha das Tascas de Lisboa

Nestas tascas não há estrelas Michelin. Há bifanas, copos de tintol e muitas histórias para contar.

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Tiago Teixeira Cruz conta 25 dessas histórias no Guia Aliança Velha das Tascas de Lisboa que acaba de ser editado pela Oficina do Livro, com o patrocínio da aguardente Aliança Velha.

Tiago Teixeira Cruz é criativo na agência de publicidade JWT, mas no Guia veste a pele de contador de histórias e fotógrafo de serviço. Chamou ainda para o projeto Marco Silva Dias – “uma das pessoas mais talentosas que conheço, um diretor de arte excecional e um perfecionista inveterado” e sem o qual talvez “este Guia Aliança Velha das Tascas de Lisboa não tivesse passado de mais uma graçola no Facebook” – e Sónia Rodrigues da 2034. “Fizeram um trabalho irrepreensível, com muito talento, tempo e amor investido”, diz.

Tudo regado com muita aguardente, Aliança Velha, claro. “Poucas marcas têm tanta legitimidade para patrocinar um projeto destes como a Aliança Velha, uma aguardente velha 100% portuguesa, presente nas tascas desde sempre”, diz.

Um dia estavas a comer uma bifana e tiveste uma epifania: o que o país precisava era de um guia das Tascas de Lisboa. Foi assim?

Não foi assim, mas quase. Um dia, notei grande agitação nas redes sociais por causa da atribuição das estrelas Michelin para Portugal. Por piada escrevi um post em que dizia “Estou um bocado cansado desta conversa toda acerca do Guia para os melhores restaurantes. Vou fazer um Guia para as melhores tascas!”. Para além dos likes da praxe, recebi em poucos minutos duas mensagens privadas. Uma do Marco Dias [diretor de arte do 2034] em que dizia “se isso é verdade, eu quero fazer esse livro contigo”. E outra do Sérgio Marques [diretor de marketing] da Bacalhôa, dizendo “se isso é verdade a Bacalhôa está interessada em apoiar o projecto”. Pronto, não tinha como escapar.

Como selecionaste os espaços? Quanto tempo levaste a correr as tasquinhas?

Levei cerca de dois anos a selecionar as 25 tascas que entram neste Guia Aliança Velha das tascas de Lisboa. Umas já conhecia e outras foram-me dadas a conhecer por amigos tascófilos, outros tasqueiros, taxistas, barbeiros, etc. No total devo ter visitado mais de 50. Não sei como não engordei.

As fotografias no livro são tuas. Não pintam as tascas com ‘glamour’. É intencional?

As fotografias são minhas e a opção de serem assim mesmo, cruas e sem qualquer food styling foi minha e do Marco Dias. Não pintam as tascas com qualquer glamour, porque nas tascas não há glamour. As tascas são o que são. São puras, autênticas e genuínas, tal como estas fotos. O tal de “glamour” é mais um daqueles provincianismos que os portugueses tanto gostam de abraçar. Para quem procura glamour há por aí muito “rooftop lounge” com “sunsets” e gins com bagas à espera.

Contas histórias das tascas. Qual foi a que te mais tocou?

O mais fascinante das tascas é que cada uma tem histórias maravilhosas para serem contadas. Aliás, este Guia Aliança Velha das Tascas de Lisboa, procura muito mais dar a conhecer e eternizar estas histórias do que fazer crítica gastronómica, para a qual não estou minimamente habilitado. A que mais me tocou foi a dos dois sócios da Esquina da Fé. Conheceram-se ainda adolescentes, a jogar cartadas, no comboio que os trazia dos subúrbios para Lisboa, onde trabalhavam como moços de recados. Fizeram juntos a mesma viagem durante mais de trinta anos, todos os dias à mesma hora. Até que outro passageiro habitual os desafiou a lançarem-se juntos num negócio. Assim fizeram. Hoje continuam a fazer a mesma viagem juntos, mas de carro. Uma semana no carro de um, outra semana no carro do outro. É mais rápido mas acabaram-se as cartadas.

O Guia é bilíngue, podendo ter como público os turistas. Não receias contribuir para que as tascas percam o seu lado castiço? Virem gourmet?

Há um novo tipo de turistas a visitar Lisboa que procura e valoriza o lado autêntico da cidade, que já não se encontra noutras capitais europeias. Se estes turistas descobrirem as nossas tascas e aí se sentarem a comer e beber, os seus donos vão perceber que elas são valorizadas assim como são, sem necessidades de modernização para além daquelas que a ASAE já lhes exigiu. Para além disso, os tasqueiros não fazem ideia de quem é esse tal de “gurmê”.

O que se segue? O Guia das Tascas do Porto?

Essa é a resposta óbvia. Mas há outras hipóteses. Vamos ver como corre este projecto e logo vemos.

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