Reestruturação

Páginas Amarelas. A dois dedos da insolvência ou da salvação

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O último ano em que a Páginas Amarelas teve lucro foi 2008. Quem tem uma lista telefónica dessa altura pode guardá-la como recordação, porque em um ano ou dois este produto deixará de existir. E não é certo sequer que a própria empresa sobreviva: a Páginas Amarelas está à beira da insolvência.

Veja aqui como a Throttleman ressuscitou

O negócio das listas telefónicas impressas, em grandes calhamaços entregues em todas as casas e empresas com telefone, começou a sofrer no início da década passada – devido à massificação da internet e à substituição dos telefones fixos por telemóveis. Em 2005, a empresa começou a mudar o foco para o digital. Em 2008, a recessão que atingiu sobretudo as pequenas e médias empresas – mercado para o qual a Páginas Amarelas se virou na internet – atirou-a para o vermelho.

Desde então, metade dos trabalhadores foi para a rua. Mudou a estrutura acionista. O diretor-geral saiu. E em junho deste ano o novo líder da empresa, Fernando Bernardino, apresentou um Plano Especial de Revitalização (PER). É o último passo antes da insolvência da empresa histórica, fundada em 1959.

“Temos vindo a acompanhar o processo na medida da informação que nos é entregue”, diz ao Dinheiro Vivo fonte dos trabalhadores da empresa. “Sabemos da necessidade de saída de mais funcionários, mas nada mais: nem quantas pessoas, nem quando ou como.” A preocupação é de todos.

Queixam-se de que a informação tem sido escassa e com pouca abertura – apesar de Fernando Bernardino se ter reunido com a Comissão de Trabalhadores na quarta-feira. A intenção é reduzir a massa salarial em 5 milhões de euros, um corte de 30%. Os quadros estão hoje reduzidos a 260 trabalhadores. Há três anos, eram 420. Em 2006, mais de 500.

Se recuarmos dez anos, as vendas passavam 91 milhões de euros e os resultados operacionais eram 18 milhões. Em 2013, as vendas serão quase cinco vezes inferiores: 19,7 milhões, com prejuízos de 4,01 milhões. O que, ainda assim, é uma melhoria em relação a 2012, em que os prejuízos ultrapassaram 5,5 milhões.

Fernando Bernardino, em declarações ao Dinheiro Vivo, diz que se “encontra em discussão e negociação o projeto de recuperação da empresa”. O Plano Previsional para o período 2014-2018 foi mostrado aos credores e decorrem neste momento as reuniões de discussão das medidas. “Por ora é o que se pode comentar, tudo o mais extravasa o carácter de compromisso que qualquer reunião de negociação de um PER impõe.”

Fernando Bernardino assumiu a direção em maio de 2012, substituindo Paulo Neves, que acabou com o “vá pelos seus dedos”e substituiu o logo por um i, de informação. A Páginas Amarelas dedica-se agora ao desenvolvimento de sites para PME e a serviços de marketing, além da informação de contactos. Já desenvolveu mais de 20 mil sites e é a maior parceira Google Premium em Portugal, com 30 mil clientes. O negócio das listas impressas é residual.

Bernardino entrou já com uma nova organização acionista. Até outubro de 2012, a empresa era detida em 75% pelo grupo Truvo e em 25% pela PT, sendo que ambas tinham os mesmos direitos de voto. Com a saída da Truvo e entrada do novo acionista, o fundo MCFG, este ficou com 80% e a PT com 20% (e apenas um terço dos direitos de voto). Quando o PER foi apresentado, em junho de 2013, a PT já tinha acordado a venda dos restantes 20% ao MCFG.

Este fundo é detido por Marc Celina François Goegebuer, que foi diretor financeiro da Truvo e tem hoje a mesma função na Telefoongids, na Holanda. Com experiência de gestão na Páginas Amarelas, a sua entrada foi bem vinda pelo anterior diretor-geral, Paulo Neves, que chegou a liderar uma medida de crédito salarial para manter a empresa.

O PER foi entregue listando como credores João Mata, Lda e Caixa Geral de Depósitos, além dos trabalhadores por créditos futuros. No entanto, estes discordaram do montante que lhes foi atribuído e enviaram uma reclamação ao Tribunal do Comércio, que aguarda desfecho. Ainda assim, mantêm a esperança. “A empresa teve capacidade de se reposicionar e conseguimos não perder em relação ao ano anterior. Nós acreditamos.”

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