Pedro Albuquerque sobre a imagem da Sumol. “Desde que não mudem o sabor do Sumol de ananás”

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"Sentes?" é a nova assinatura da portuguesa Sumol que acaba de apresentar uma nova imagem ao mercado.

A nova identidade, desenvolvida pela agência britânica Bluemarlin, tem um estilo inspirado na Street Art “transmite movimento, energia, dinamismo e atitude”, promete a Sumol, embora mantendo as cores da marca, o verde e o vermelho.

“Uma nova imagem que interpela os fãs a viver o espírito irreverente da marca e a sentir o seu efeito contagiante, baseado na experiência única e vibrante de beber Sumol”, diz a marca, que na assinatura pergunta “Sentes?”.

Pedro Albuquerque, criador de marcas e fundador do atelier de design Albuquerque Designing Business, revela ao Dinheiro Vivo o que sente com a nova identidade da marca com mais de 60 anos.

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Leia o artigo na íntegra aqui:

“Props para a SUMOL

A SUMOL é uma marca de tal forma consolidada que se dá ao luxo de ter um problema crónico de identidade: Não reconhecer que é uma marca popular, de todas as idades, do piquenique, da praia e da esplanada, uma bebida sem álcool e sem cafeína, uma marca com história. Que mal há em ser assim? Existem várias linguagens estéticas para traduzir isto, e sobretudo uma origem iconográfica de marca suficientemente rica para permitir vários tipos de evolução contemporânea. Em vez disso, luta por parecer o que não é: cool, radical, e agora também, street art (de gosto duvidoso). Este caso fez-me lembrar o rebranding do Pingo Doce com o seu logo escrito a giz (mal imitado) a querer parecer mercearia de bairro. Pobres as marcas que querem ser o que não são, que escolhem ser influenciadas em vez de ser influência, que preferem seguir as tendências em vez de ser tendência.

A visão simplista sobre o posicionamento das marcas é como num tabuleiro de xadrez quando mudamos de casa sem prever que vamos ser comidos. Começa a ser epidémico tantas marcas portuguesas de referência a deitarem o seu património iconográfico para o lixo optando por soluções de rebranding a soar a falso.

Há uns anos atrás, no rebranding do Nicola Cafés, perdemos o concurso, logo na fase de estratégia, ao defender a permanência do Bocage como símbolo. Nem chegámos à fase do logótipo, viemos embora com o poeta, fiéis ao que considerámos ser o ideal para a marca. Tal como aconteceu com o Bocage, dispensaram o boémio Gato das Botas do vinho Gatão, tão carismático e coerente com o espírito do produto, e em seu lugar apareceu um manso “Gatinho” verde… Sorte para o Gato das Botas que mais tarde foi convidado para o filme do Shrek e ficou rico. Já o Homem da Capa Negra da Sandeman, esse grande personagem de recorte elegante a contraluz, (equiparável ao iconográfico Touro de Osborne em Espanha) deixou de ser um ícone para passar a ser uma mera ilustração, que perda de estatuto!

Uma boa parte destes rebrandings são importados e, mais uma vez, o do SUMOL não foi excepção (Bluemarlin). O problema não está na importação, o mercado é global, mas sim, no facto de já serem muitos os casos em que o design importado é mau.

SENTIMO-NOS com azar?

Para já, desde que não mudem o sabor do SUMOL de ananás, tudo bem!”

(o designer escreve com a antiga ortografia)

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