Há vida para além da PUB

Pode uma One Woman Show fazer a diferença na crise dos refugiados?

Cátia Domingues
Cátia Domingues

Cátia Domingues fez uma pausa na publicidade e está a prestar ajuda no campo de refugiados Nea Kavala, na Grécia.

Há muito tempo que andava a adiar este “chamamento”. Um dia a publicitária Cátia Domingues, criadora do blogue e página de Facebook humorístico One Woman Show, fez as malas e embarcou rumo à Grécia. Destino? Um dos campos de refugiados em Polykastro onde estão centenas de pessoas, ao frio. Sim, porque aqui o frio é impiedoso.

Fez uma pausa na sua vida ‘normal’ para ajudar no que puder. E escrever um pouco sobre esta tragédia humana. “É chocante a forma como se deixou de falar desta crise. Nos media, especialmente. É como se de repente isto já não existisse”, justifica Cátia Domingues ao Dinheiro Vivo.

No campo de Nea Kavala, onde está a prestar auxílio na distribuição de comida e roupa através da ONG Drop in the Ocean, estão cerca de 600 pessoas. “São pessoas que já estão dentro dos campos há muito tempo, com condições extremamente precárias. Aqui no Norte estão temperaturas negativas e os recursos não são muitos”, descreve. “E estão à porta da Europa sem data para nada. Sinto que não há uma estratégia para resolver isto. Portanto, não se trata de um tipo de voluntariado para ‘salvar pessoas’, porque os voluntários voltam para casa, mas estas pessoas vão continuar aqui. Há campos a serem evacuados por causa do frio, para teres ideia”, conta.

Chega sem data marcada de regresso. E explica porquê. “A maioria dos voluntários, nestes casos, não consegue estar mais de duas semanas. Especialmente porque é difícil de gerir emocionalmente. Muitos regressam com sintomas de stress pós-traumático”, descreve. “Uma das razões que me faz não ter data de regresso é essa. Não quero pressionar-me com uma data. Quando não me sentir a 100% regresso, seja isso quando for. Estou até sentir que consigo estar”, admite.

Não se trata de um tipo de voluntariado para ‘salvar pessoas’, porque os voluntários voltam para casa, mas estas pessoas vão continuar aqui. Há campos a serem evacuados por causa do frio”

“Andava a adiar este chamamento há demasiado tempo. Era inevitável. Sempre me dediquei muito às questões sociais e já fiz vários tipos de voluntariado em Portugal. Vir para a Grécia ajudar nesta crise em específico, foi mais forte que eu. Sinto que faz parte do meu caminho”, justifica a publicitária. “Resumidamente, o que eu sinto e o que me fez tomar esta decisão é: sou uma privilegiada. Tive acesso a educação, a informação, a uma vida estável, e há demasiada gente que não teve. Então acho que o mundo se equilibra assim. Sinto que é uma espécie de dever”, reforça.

Para já a publicidade ficou em pausa. “Admito que a minha paixão pela publicidade arrefeceu um bocadinho. Foi uma coisa gradual. São os processos, que são iguais em todas as agências. Grandes, pequenas. No fundo, o que muda são os ambientes mais ou menos porreiros”, diz. “As agências estão muito viciadas, também precisam de sobreviver obviamente. E a criatividade acaba demasiado imposta pelos clientes. E depois juntas-lhe a luta de egos numa indústria que tem mais cerimónias de prémios que sei lá o quê e arrefece um bocado a tesão”, acrescenta. “Eu adoro o que faço, atenção. Acho que é dos melhores empregos do mundo”, ressalva.

Está há cerca de um ano como freelancer como copy e estratega. Por opção. “Comecei a dedicar-me muito aos projetos pessoais, como a comédia e foi uma decisão pensada. Poder dedicar-me ao que gosto de uma forma mais feliz. Seja publicidade ou o humor”, justifica.

O Jogo do Tanso, no Canal Q, e o blogue, mais tarde página no Facebook, One Woman Show são as suas faces mais visíveis ao nível do humor. Só no Facebook mais de 19,7 mil seguidores acompanham os seus posts ácidos sobre a política e as coisas que a fazem tirar do sério. E agora também sobre as condições que tem encontrado no campo de refugiados. Um humor que não é para todos. Mas que nos faz pensar. Posts como este.

 

Começou como assessora de imprensa. Trabalhou política, turismo, saúde…”Depois quis experimentar criação pura e dura fui para o marketing de guerrilha na Torke CC, depois quis aprender mais em publicidade e fui para Madrid estagiar quase um ano na Lola na altura que o Chacho [Puebla, que foi diretor criativo na Leo Burnett Lisboa] se mudou para lá”, conta.

“Foi incrível. Como copy, o meu espanhol não era bestial, mas o inglês sim, então trabalhei contas globais o que foi espetacular. Teres um mês para pensar conceito foi mesmo a melhor escola. Ganhei um concurso lá com a minha dupla [a Lauren Hom] e fui a Cannes nesse ano”, continua.

Voltou a Portugal. “Eufórica e toda cheia de entusiasmo para provar aquilo tudo que tinha aprendido lá e percebi que o mercado, apesar de ser ao lado, estava muito diferente”, diz. Esteve na Brandia, a trabalhar essencialmente o mercado moçambicano. A sua última agência fixa foi a Fullsix. “Onde aprendi para caraças e que me deu até hoje uma mais valia como criativa: olhar para o digital como deve de ser. Que é coisa que muitas agências, ditas tradicionais, não fazem muito”.

“Podem achar-me infantil, mas sabes que em tudo o que eu fiz, pessoal e profissionalmente, foi sempre com a ideia de que podia mudar o mundo um bocadinho. Especialmente através da comunicação e do poder das marcas”, comenta. “Uma onda se calhar meio Robin dos Bosques. Aproveitar as marcas e acrescentar alguma coisa à vida das pessoas. Seja com uma boa história, seja com uma ação para incentivar mudanças de comportamentos, ou solidária. E é exatamente por isto, mais do que a precariedade até, que me arrefeceu um bocado a paixão”, justifica. Tem 29 anos. Não tem data de regresso a Portugal.

 

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