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PodShare. Aqui partilha-se a casa com estranhos para poupar na renda

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PodShare. Aqui partilha-se a casa com estranhos para poupar na renda

Esta rede de co-living não tem portas nem divisórias e está quase sempre com lotação esgotada

As malas estão em baixo das camas, à vista de todos, sem cadeados. Há roupas espalhadas, telemóveis a carregar e um entra e sai de gente que não acaba. No PodShare, um empreendimento de vida comunitária em Los Angeles, não existem divisórias entre os espaços dos inquilinos. As camas estão dispostas em formato de beliche e cada uma tem o nome do ocupante escrito a giz num quadro, que é apagado e preenchido quando chega alguém novo.

Este é o verdadeiro conceito de “co-living”, defende a criadora e CEO Elvina Beck. Aos 32 anos, a empreendedora que cresceu na União Soviética tem seis localizações espalhadas por Los Angeles que estão quase sempre ocupadas entre 90% e 95%.

É um fenómeno interessante porque capta todo o tipo de inquilinos: desde os viajantes que passam ali uma ou duas noites aos moradores temporários, que ficam um mês ou dois. Há os que voltam semana sim, semana não e aqueles que não têm um plano definido e vão renovando a estadia todos os dias. É assim simples: uma operação com o cartão de crédito e mantêm o espaço por mais uma noite. Os preços podem variar conforme a localização, mas a norma é 50 dólares por noite (43 euros), 280 por semana (240 euros) e mil por mês (860 euros). “Misturamos o curto prazo e o longo prazo, o que torna a comunidade mais interessante”, explica Elvina Beck ao Dinheiro Vivo. “Pode-se usar qualquer uma das localizações”, revela. Isto significa que alguém que reserve um PodShare por uma semana pode dormir num sítio diferente da cidade todas as noites, ao estilo assinatura numa rede de ginásios. Há um PodShare em Venice, dois em Downtown LA, outro em Los Feliz, um em Westwood que tem quartos (chamam-lhe ‘dormshare’) e um em Hollywood.

Elvina Beck, de 32 anos, criou o conceito PodShare e ela própria vive num "pod"

Elvina Beck, de 32 anos, criou o conceito PodShare e ela própria vive num “pod”

Economia de partilha

Joey, por exemplo, aparece no PodShare de Venice todos os fins de semana, vindo de Sacramento, para fazer um tratamento de fisioterapia na cidade. “Gosto muito de alojamento partilhado, definitivamente acho que se vai tornar uma tendência de massas”, diz ao Dinheiro Vivo, enquanto seca o cabelo com uma toalha depois de vir da praia. O icónico areal de Venice está mesmo ali ao lado e é por isso que este PodShare atrai tantos surfistas e amantes da praia. Tem também profissionais de tecnologia que trabalham perto, na chamada Silicon Beach. Há várias idades e nacionalidades, numa comunidade mais diversa que qualquer outro tipo de alojamento deste estilo.

“Esta é a melhor forma de viver porque quebra barreiras, como sexismo, ageísmo, qualquer tipo de discriminação, porque se vive com todo o tipo de pessoas diferentes”, defende Elvina Beck. Ela própria dorme num “pod”, normalmente em Venice. O espaço tem tudo o que é preciso para uma vida confortável, exceto privacidade: camas com televisões privadas e secretária, casas de banho com os produtos de higiene necessários, frigoríficos e despensas com comida comunitária e copas onde toda a gente pode cozinhar. “A cultura é que se alguém deixar alguma coisa, alguém usará”, diz Elvina, rindo. No frigorífico há secções para comida privada e para comida de todos. Há bicicletas gratuitas e amplo espaço para estacionamento, também sem custos. No piso de cima, uma sala de trabalho e reuniões que é frequentemente alugada por startups como espaço de co-working. Em baixo, computadores Apple que qualquer pessoa pode usar, cacifos e uma sala de cinema. Lá fora, mesas de pingue-pongue e churrascos frequentes.

“Não há caução, não se paga água nem eletricidade, se alguma coisa acontece nós resolvemos. Não é preciso ficar com os mesmos colegas de casa”, diz Elvina, explicando porque é que este conceito faz mais sentido para muita gente que tentar arrendar um apartamento. “É a economia de partilha, sem dúvida, porque as pessoas partilham recursos para poupar dinheiro. Mas é também a economia freelance, em que as pessoas fazem dinheiro no Uber, TaskRabbit, ou em múltiplos sítios. Trabalham onde quer que tenham o portátil”, explica.

Viver sem privacidade

O PodShare não é o único empreendimento a oferecer o estilo co-living, mas é certamente único no formato, e também mais antigo que os outros – surgiu antes do Aviato Club, do WeLive, do Open Door e de vários outros sistemas que estão a fazer sucesso não apenas nos Estados Unidos, mas também na Europa. Os alemães da Medici Living, por exemplo, estão a expandir-se e até têm avaliado a possibilidade de um investimento em Lisboa.

Só que esses empreendimentos funcionam com regras diferentes e têm menor flexibilidade – não se pode ficar só por uma noite, por exemplo, e há mais requisitos que sacar de um cartão de crédito para reservar a cama. É isso, garante Elvina, que torna o PodShare diferente. Além disso, o seu sistema promove encontros imediatos a toda a hora. “As pessoas esbarram umas nas outras, chamamos a isso colisões”, elabora. É verdade: há sempre alguém deitado na cama a ver um filme, a entrar na copa, a jogar um jogo no sofá.

Este open space é o motivo pelo qual no PodShare não existem problemas de roubos ou insegurança, porque está tudo às vistas e ninguém consegue safar-se a tentar prevaricar. O espaço tem uma política rigorosa de silêncio entre as dez da noite e as dez da manhã, o que explica porque é que se veem desde surfistas de vinte anos a grupos de amigas com mais de sessenta. “Co-living, partilha colaborativa: é nisto em que estamos interessados, porque tem um melhor impacto sociológico que os hostels. Os hostels são associados a filmes de terror, festas, sexo, e não é isso que queremos aqui. Temos regras, não queremos anarquia. É muito respeitador”, sublinha Elvina.

Quando terminar a expansão em Los Angeles, com a abertura de mais alguns espaços, a CEO quer investir em São Francisco e depois San Diego. A sua ideia é ter um modelo em toda a Califórnia onde a pessoa pode viver no espaço de um mês, algo inspirado nos passes InterRail na Europa. “Passei 30 dias a fazer isso e pensei: temos mensalidades no ginásio, no telemóvel, no Netflix, mas não temos subscrições para alojamento. Dá para ver o que as pessoas querem: viver onde quiserem.”

Quanto ao PodShare em si, Elvina foi influenciada pelo reality show “Real World”, que estreou na MTV nos anos noventa e mostrou o que acontecia quando vários estranhos eram postos a viver juntos. A sua própria experiência de vida contribuiu para desenhar o conceito: queria estar sempre rodeada de gente nova. A ascensão da economia de partilha ajudou. “Queremos oferecer alojamento flexível. As pessoas não querem comprometer-se com nada, nem sequer um contrato de fidelização do telemóvel. Querem ter opções, mesmo que fiquem lá durante bastante tempo.”

Quando lançou o primeiro espaço, em Hollywood, o pai disse-lhe que era uma péssima ideia. “Ele perguntava, porque é as pessoas haviam de querer não ter quartos, nenhuma privacidade?” A verdade é que não querem, ou não se importam. Los Angeles tem outras opções, e, no entanto, todos os PodShare estão constantemente à beira de esgotar a capacidade.

Na localização em Venice, que Elvina montou com madeira recolhida das ruas de Los Angeles, foi gravada durante dois meses a mais recente edição do programa “Germany’s Next Top Model”, com a apresentadora Heidi Klum. As pessoas compram merchandising da marca, e há até quem tenha feito tatuagens com o símbolo do PodShare. É um estilo de vida, um símbolo de uma era – ainda que temporária.

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