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Porque é que a Google comprou parte da HTC?

Fotografia: REUTERS/Tyrone Siu
Fotografia: REUTERS/Tyrone Siu

A aquisição de parte da equipa de smartphones da HTC é um passo na direção certa, diz a analista da Gartner Roberta Cozza

Os 1,1 mil milhões de dólares que a Google vai pagar por parte da divisão móvel da HTC são o pormenor menos interessante desta aquisição. Com o negócio, que foi anunciado ontem pelo vice presidente de hardware da Google, Rick Osterloh, a gigante integra cerca de dois mil empregados da HTC nos seus quadros e assina um acordo de licenciamento de propriedade intelectual com aquela que é a sua parceira de hardware mais antiga.

É um negócio significativo em várias frentes: ajuda a salvar a HTC, cuja proeminência no mercado Android se reduziu drasticamente, reforça de forma expressiva a divisão de hardware da Google, e ainda tem o potencial de afetar negativamente as contas da Samsung. O racional por detrás da aquisição é simples: a Google precisa de ser mais como a Apple.

“A Google está numa posição em que precisa de ter uma plataforma integrada de ponta a ponta, do software até ao conteúdo e ao hardware”, explica ao Dinheiro Vivo a analista da Gartner Roberta Cozza, que analisa o mercado EMEA. “A parte do hardware é algo que a Google tem de endereçar de forma mais agressiva, porque precisa dessa integração para oferecer a melhor experiência da sua plataforma. Isto significa que, se quiser impulsionar os seus serviços, precisa de ter uma solução muito integrada, algo que possa controlar muito bem”, continua.

O Android domina mais de 80% do mercado, mas é um ecossistema fragmentado. A Google começou a apostar nos smartphones próprios desde o primeiro G1, mas foi com o Nexus que tornou mais evidente as vantagens de trabalhar de perto no design do hardware. A marca Pixel, que lançou no ano passado, foi ainda mais além. A fabricante que esteve lá em todos estes momentos? HTC.

“De muitas formas, este acordo atesta a história de uma década de trabalho de equipa entre a HTC e a Google”, escreveu o chefe de hardware da gigante californiana no blogue da empresa. Osterloh está na Google há um ano e a sua influência é visível. O executivo recordou a caminhada feita com a HTC, referindo o primeiro smartphone Android de sempre (o G1), o Nexus One de 2010, o tablet Nexus 9 em 2014 e o primeiro smartphone Pixel no ano passado.

O que não se pode ignorar é o que levou a HTC a esta posição. De acordo com os dados fornecidos pela Gartner ao Dinheiro Vivo, a fabricante asiática vendeu pouco mais de 10 milhões de smartphones em todo o ano de 2016, o que correspondeu a uma quota de mercado de apenas 1%. É um contraste radical com o pico do negócio Android da empresa, em 2011, quando vendeu quase 43 milhões de unidades e assegurou 9% de quota. Tendo em conta que o sector dos smartphones é um negócio de volume (salvo para a Apple, que obtém margens de lucro anormalmente altas), uma fabricante Android com baixo volume de vendas não consegue sobreviver.

A estratégia da Apple

A fabricante liderada por Tim Cook tem uma abordagem proprietária em todas as suas linhas de produto. Os seus sistemas operativos só funcionam nos seus dispositivos e há uma ligação forte entre eles. A Apple controla tudo, incluindo os chips do iPhone, e consegue por isso uma maior consistência na experiência.

“Olhe para a Apple, com o anúncio do iPhone X e tudo o que faz à volta da integração vertical, o chip A11 Bionic, a inteligência artificial”, diz Roberta Cozza, dando a Apple como referência para a estratégia que a Google está agora a seguir com o reforço das competências de hardware. “Com o Pixel, a Google quer competir com a Apple e a Samsung, as líderes do topo de gama.”

Há que ressalvar que nada disto é novo, exceto o contexto. A primeira grande aquisição da Google neste segmento foi a da Motorola Mobility, em 2011, com uma etiqueta bem mais exorbitante: 12,5 mil milhões de dólares. Na altura, a Google precisava das muitas patentes de telecomunicações da Motorola, para enfrentar a praga de processos por violação de propriedade intelectual. Três anos depois, em 2014, vendeu a empresa à Lenovo por uma soma várias vezes inferior, cerca de 2,5 mil milhões de dólares.

Roberta Cozza desvaloriza comparações. “Penso que muito mudou no cenário concorrencial”, afirma, sublinhando que este negócio com a HTC é um passo na direção certa.

“É preciso olhar para isto não apenas da perspetiva dos smartphones. A Google terá de ter esta integração transversalmente, em vários tipos de dispositivos. Já vimos o Google Home, wearables e outros dispositivos de computação, além dos smartphones”, esclarece a analista. A Google está a investir forte em inteligência artificial, realidade virtual e realidade aumentada.

As principais concorrentes estão a fazer o mesmo e a irem para lá da tecnologia pura. “Ganha-se esta corrida se se entregar uma experiência em torno do telefone. Para entregar essa experiência, é preciso integração. A Google tem de ser mais agressiva em relação ao seu próprio hardware.”

Más notícias para a Samsung?

A maioria dos analistas considera que a Samsung será uma das perdedoras com este negócio. A fabricante asiática domina o mercado mundial e normalmente só troca de posição com a Apple, que nalguns trimestres consegue passar a número um. O resto do top cinco é composto por três fabricantes chinesas: Huawei, Oppo e Vivo. É pouco provável que a Google consiga chegar a este top, mesmo com a aquisição da HTC, mas os mercados onde terá sucesso importam. É que a maior parte do volume das fabricantes chinesas vem da China, um mercado onde a Google não terá muita sorte porque os seus serviços não estão disponíveis naquele país. Ou seja: vai competir diretamente com a Samsung nos lucrativos mercados dos Estados Unidos e Europa, no segmento topo de gama.

Roberta Cozza ressalva que a Samsung terá de reforçar a sua diferenciação na plataforma Android. “O que a Samsung fará com o Android pode não ser a visão da Google para o sistema”, indica. “A Google não pode deixar que o ecossistema Android seja empurrado em diversas direções por fabricantes diferentes”, acrescenta. “No Pixel, pode oferecer uma integração com inteligência artificial que um telefone Huawei não consegue, por exemplo, com o Google Assistant. Pode mostrar o que o Android Google é capaz de fazer.”

A fabricante prepara-se para revelar a segunda geração de dispositivos Pixel no início de outubro, além de outros novos equipamentos de hardware “Made by Google.” O impacto do negócio com a HTC só se verá no próximo ano, mas é um reforço muito significativo da sua área de engenharia e Investigação e Desenvolvimento, mostrando que a empresa está empenhada em tornar-se também uma gigante de hardware.

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