Porque não deixamos de ir a Londres?

Em tempos ia a Londres para ver concertos e comprar discos. Sim, era no século passado, não havia internet, muitas digressões não nos visitavam nesses tempos, ainda o CD não tinha destronado o vinil (afinal para um reinado que não durou muito) e as edições levavam semanas a chegar cá (as que chegavam). Pelo caminho visitava as livrarias, os museus, as galerias, mais uma passagem rápida pelos trapinhos em Camden Town (hoje é mais para os lados de Covent Garden)…

25 anos depois (colocando a “casa” da partida em 1988) Londres deve ser das piores cidades que conheço para comprar discos. Tirando uma mão-cheia de resistentes (e são poucas as lojas ainda verdadeiramente capazes de justificar uma visita), a música gravada deixou de ser motivo para fazer as duas horas e pouco de avião para ir de malas vazias e voltar mais pesado. Ainda há livrarias (muitas e boas, e a “velha” Foyles soube renascer e brilhar novamente). Trapinhos não faltam também. E agora até há cafés por todo o lado, coisa que em tempos só se encontrava em modo “decente” nos restaurantes italianos da cidade. Mas esta é uma cidade que não deixou de nos seduzir. E mesmo numa era em que a Monocle dita “tops” que mostram como Zurique, Copenhaga, Helsínquia, Tóquio ou Melbourne são destinos bem mais cool, e a oferta low cost (e também a “high cost”) alargou os horizontes aos viajantes, o que faz com que Londres não tenha desaparecido do mapa do nosso desejo em lá regressar? Os museus!

Posso dar três exemplos de 2013. David Bowie no Victoria & Albert Museum. Pompeia e Herculaneum no British Museum. Roy Lichtenstein na Tate Modern… E podíamos juntar mais exemplos, ora passando por pintura de Dylan na National Portrait Gallery, a relação da cultura pop com a moda dos anos 80 no V&A, Paul Klee na Tate Modern ou Vermeer & Music na National Gallery… E isto sem esquecer a renovação da Tate Britain e o roteiro de visitas ao mundo das galerias onde, da pintura à fotografia, da escultura à vídeo-arte há sempre algo de novo a descobrir, tal e qual na Saatchi Gallery, sempre atenta a novas formas de expressão e, muitas vezes, propostas de latitudes menos habituais.

Às exposições em si juntam-se programas complementares. Como os filmes-visita para transmissão (em tecnologia HD) para salas de cinema, como sucedeu com as exposições de Pompeia e Bowie (que agora, depois das portas fechadas, começam a andar pelo mundo). Ou olhares diferentes sobre as coleções, como o catálogo sobre representações de amor entre pessoas do mesmo sexo que o British Museum lançou este ano, usando exemplos das peças que tem nas suas salas.

Com uma boa artilharia de marketing, boas propostas e, convenhamos, belíssimas exposições, Londres sabe que tem nos seus museus um pólo que garante a continuação de uma relação cultural com a cidade. É claro que não é caso único, mas nem Paris nem Berlim nem Nova Iorque conseguiram em 2013 a concentração de eventos como a que Londres lançou (além, claro está, do que são as coleções permanentes de cada museu).

Londres entendeu o bom momento que soube gerar em 2013. E para 2014 tem já ideias em cartaz: Vickings no British Museum. Veronese e Rembrandt na National Gallery. Ou objetos que refletem histórias de desobediência no V&A. É de regressar…

PS. O turismo cultural atrai gente. E uma cidade como Lisboa podia fazer da belíssima exposição (em duas partes) A Encomenda Prodigiosa e das recentes propostas temáticas da Gulbenkian em torno do mar ou das naturezas mortas, exemplos do que poderia ser parte de um “pacote” de ideias capazes de seduzir quem nos visita.

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