Profissão: youtuber. É assim que se faz dinheiro com canais do YouTube

Lana é uma youtuber que esteve no encontro internacional de youtubers em Buenos Aires, Argentina, a 10 de Abril.
Lana é uma youtuber que esteve no encontro internacional de youtubers em Buenos Aires, Argentina, a 10 de Abril.

Aos 23 anos e às voltas com a vida na universidade, Jamie, Barry e Mike não sabiam cozinhar nadinha, salvo provavelmente uns ovos estrelados e queijo derretido. Os jovens britânicos eram amigos desde a infância, encontravam-se regularmente em pubs para a cerveja do costume e começaram a pedir a um quarto amigo, Ben, que lhes desse umas dicas - afinal, ele estava a estudar para se tornar chef. Acharam que teria piada se filmassem as aventuras na cozinha e lançaram um canal no YouTube, Sorted Foods.

Quatro anos e 1,152 milhões de subscritores depois, fazem mais de três milhões de euros por ano, tornaram-se celebridades da comida e estão agora num tour mundial que começa com três meses nos Estados Unidos. “Era apenas um hobby, não havia um grande plano. Ainda não há um grande plano”, diz ao Dinheiro Vivo Jamie Spafford, que se licenciou em Marketing e agora aplica esses conhecimentos à expansão da marca. “Ficámos chocados quando começámos a ter sucesso”, lembra, sorrindo.

Estabeleceram uma parceria com o YouTube e gabam-se de ter o canal com maior nível de envolvimento dos utilizadores no último ano. Foi isso que levou ao tour Lost and Hungry (Perdidos e Esfomeados), que não tem roteiro específico. Começou em Nova Iorque nesta semana, com um lançamento em grande no Today Show da NBC, e vai depois para a Califórnia. Os amigos estão a pedir às pessoas que lhes digam onde e o que devem comer, numa aventura autofinanciada que seguirá para a Europa ou a Ásia. “Muitas coisas surgiram a partir do canal, incluindo a publicação de livros, uma linha de utensílios de cozinha e oportunidades com marcas”, acrescenta Jamie. A cadeia de supermercados Tesco e a fabricante de eletrodomésticos Kenwood são algumas das parceiras, mas o grupo de amigos também já tem apps para iPhone e iPad. Nos próximos dois ou três anos, vão viajar pelo mundo e provar comida sugerida pelos fãs: é o expoente máximo da celebridade online.

Influência dos YouTubers

Isto de ser youtuber a tempo inteiro deixou de ser coisa para casos isolados, embora seja difícil em mercados pequenos como o português. Os gamers, que se filmam a jogar videojogos, são os reis absolutos, dominados pelo sueco Felix Kjellberg, mais conhecido por PewDiePie, que segundo a ferramenta de medição SocialBlade faz até 13,5 milhões de euros por ano com os seus 36,1 milhões de subscritores.

A lista de canais mais subscritos no YouTube, que fez dez anos nesta semana, não deixa dúvidas: os youtubers individuais passaram a ter tanta influência quanto as grandes marcas. Ou mais, como argumentam dois estudos recentes, um da Variety de 2014 e outro da Defy Media, de março.

O estudo da Variety mostra que “os adolescentes estão mais enamorados com as estrelas do YouTube do que com as maiores celebridades do cinema, da televisão e da música”. Os dados indicam que “as cinco personalidades mais influentes entre os americanos dos 13 aos 18 anos são todos favoritos do YouTube, eclipsando celebridades do mainstream incluindo Jennifer Lawrence e Seth Rogen”.

No mês passado, a Defy Media (que agencia a dupla de youtubers Smosh) confirmou aquilo que é agora uma tendência, e não uma moda passageira, no estudo Acumen Report. “Para os millennials, os youtubers são os modelos a seguir dos dias que correm”, escreve a empresa. “Entre o segmento mais jovem, dos 13 aos 17 anos, 32% responderam que mais facilmente admiram uma personalidade do YouTube do que uma celebridade tradicional.” Porquê? Sentem-se mais próximos delas, identificam-se com os seus problemas e interessam-se mais pelos produtos que usam. A idade também é importante: quantas celebridades de 16 anos têm horário nobre na televisão? Mas no YouTube o horário nobre é a todas as horas, que podem ser gozadas na privacidade do quarto e no imediato de tablets e smartphones. A audiência é incomparável: a plataforma de vídeos detida pela Google tem mais de mil milhões de utilizadores mensais, apenas ultrapassados pelos 1,44 mil milhões do Facebook.

Como se faz dinheiro

Em fevereiro, a britânica de 24 anos Zoe Sugg comprou uma mansão de 1,4 milhões de euros em Brighton, com cinco quartos e soalho de madeira maciça. Quem pagou pela extravagância foram os sete milhões de subscritores do seu canal no YouTube, em que é conhecida como Zoella, que começou há seis anos a falar de dicas de beleza para uma câmara no seu quarto. Desde então, e com mais de 12 milhões de visualizações por mês, Zoella publicou um livro, Girl Online, cobra 27 mil euros por mês a marcas que queiram aparecer nos seus vídeos, assinou contrato com a Radio 1 e lançou uma linha de produtos de beleza. É aqui que está o segredo do sucesso dos YouTubers que ganham estatuto de celebridades: o dinheiro que vem dos anúncios colocados nos seus canais é bom, mas tudo o que o rodeia, desde merchandising a patrocínios, é que traz o dinheiro a sério.

Nash Grier, um adolescente de 17 anos que é um autêntico fenómeno, está por exemplo a rodar o filme The Outfield Movie com outra celebridade digital, Cameron Dallas, para a AwesomenessTV. “O filme sai no verão, em paralelo com um tour mundial”, revela ao Dinheiro Vivo. O rapaz, que vive em Los Angeles e começou com vídeos de seis segundos no Vine, tem 4,2 milhões de subscritores e já lançou uma linha de merchandising, que está disponível online para entrega em todo o mundo. “Também vou lançar a minha própria plataforma com os meus amigos”, anuncia. O canal de Grier é um dos que fazem parte do YouTube Partner Program, para a rentabilização da audiência através de publicidade, no qual há “milhares” de canais a fazerem mais de cem mil euros por ano. Segundo a Google, “mais de um milhão de anunciantes” usam a plataforma e as receitas dos youtubers cresceram 50% entre 2013 e 2014. “Penso que a compensação monetária está a ficar melhor”, afirma Jamie Spafford, ciente de que se trata ainda de algo nascente. “Assim que os orçamentos de publicidade começarem a desviar-se mais da televisão para plataformas como o YouTube, será melhor para toda a gente.”A prova de que o negócio está a florescer é o surgimento de agências de talentos e redes de criação de conteúdo exclusivamente para o digital.

O Dinheiro Vivo visitou várias em Los Angeles, como All Def Digital, BigFrame e Awesomeness TV. Funcionam em espaço aberto, como uma incubadora de start-ups. Os colaboradores são jovens e o ambiente criativo, exatamente o que se espera daqueles que pretendem ter – ou já têm – sucesso no YouTube.

E esta lista também inclui quem escreve os guiões para séries ou canais de conteúdos mais elaborados. É o caso de Bernie Su, que falou ao Dinheiro Vivo durante uma visita ao YouTube Space LA. Depois de anos a tentar ter sucesso na televisão, acabou por se virar só para o digital e escreveu a primeira série de YouTube a ganhar um Emmy, Lizzie Bennet Diaries. “Tenho a certeza de que sou o guionista mais bem–sucedido do meio digital”, garante o criativo, também responsável pela série Frankenstein MD. “Mais curto é o elemento essencial, tem de ser pequeno. Todas as séries que fizemos são muito concisas, com narrativas eficientes.” Porque, ao contrário dos filmes, ninguém garante que o espectador vai ficar sentado durante duas horas na sua cadeira. Pode fechar o vídeo 15 segundos depois de o abrir, se achar que não é interessante; e isso marca uma mudança fundamental na forma como se cria para o YouTube.

Estúdios gratuitos do YouTube

Para incentivar essa nova cultura criativa, a Google gastou uns bons milhões na abertura de estúdios gratuitos para os youtubers. Existem cinco YouTube Spaces, em Los Angeles, Nova Iorque, Tóquio, São Paulo e Londres. São espaços onde qualquer pessoa que tenha um canal no

YouTube pode ir para pedir conselhos, dicas e mentores. O maior é o de Los Angeles, epicentro da produção para o YouTube, com sete estúdios de gravação, cafetaria e eventos de networking. A partir de dez mil subscritores, é dado acesso gratuito aos estúdios, câmaras e pós-produção. Quando o Dinheiro Vivo visitou as instalações, a paquistanesa TazzyPhe e o norte-americano JoshuaDTV estavam por ali, para usar um estúdio transformado em esquadra de polícia. “Quisemos criar um espaço funcional para gravar e que incentivasse a colaboração”, explica Michelle Slavich, diretora de comunicação de entretenimento do YouTube. “Muitos criadores vêm com um emprego a tempo parcial e meses depois falamos com eles e já conseguiram tornar-se youtubers a tempo inteiro.” “Varia muito de pessoa para pessoa, quantos vídeos carregam, o tipo de canal e o conteúdo.” Por este espaço já passaram Ellie Goulding, One Direction e até a BBC America para o 50.oº aniversário do Dr. Who. Há sempre alguma coisa a acontecer.

Youtubers em Portugal

São cada vez mais, e há nomes bem conhecidos – Nurb, Miguel Luz, KikoisHot, Inês Mocho, Pakistan Man, Tiago Rawr, Fhorsaken, ShowALeitao, e a lista continua. Mas aqui não estamos a falar de milhões de seguidores e milhões de euros, salvo o canal de jogos do Fer0m0nas, que está em primeiro no país com 2,62 milhões de seguidores e até 400 mil euros de rendimento anual.

Para todos os outros, será possível rentabilizar um canal de YouTube em Portugal? “É possível, sim, mas valores muito pouco significativos”, diz ao Dinheiro Vivo Miguel Luz, que tem 17 anos e 223 mil subscritores no canal MLP, onde faz comédia. “Só no estrangeiro é que é possível viver apenas dos vídeos para o YouTube.” A mesma coisa é dita por Alexandre Santos, também virado para a comédia no canal Alexandreee07, com 189,6 mil subscritores. “Pelo menos aqui em Portugal, não dá para viver do YouTube, está fora de questão”, afirma, “a não ser que todos os vídeos que se carrega cheguem a 1,2 milhões de visualizações no espaço de um mês”. O que não acontece com frequência, pelo que o que dá dinheiro é o que surge daí – no caso de Mafalda Sampaio, que tem o canal A Maria Vaidosa, uma linha de vernizes com a empresa Inoeh; no caso de Diogo Sena, um contrato com a NOS para ser embaixador do tarifário WTF. “Até tenho tido alguma sorte”, admite, “tenho conseguido ganhar alguns trocos, estando na faculdade ao mesmo tempo.” No entanto, ressalva, em relação aos lucros gerados através do YouTube, “podemos falar em valores de dois dígitos, ou seja, de uma típica mesada.” É melhor do que nada, “mas em Portugal estamos a milhas de poder viver só a produzir vídeos”.

Já NTS, artista de rap responsável pelo projeto Rimas Grátis, encontrou no YouTube uma plataforma gigante e conseguiu começar a gravar o primeiro álbum, Novos Tempos. ” Mas, ao contrário dos outros portugueses, não sente que haja uma comunidade forte e unida. “Para ser sincero, não sinto que haja uma comunidade, sinto que há youtubers e cada um trabalha para si, não há contacto nem objetivo de unir forças para criar algo maior do que conseguimos fazer individualmente.”

Conselhos para começar

Alan Spiegel, diretor de operações da 26MGMT – que agencia Nash Grier -, diz que as coisas estão muito mais difíceis agora porque a concorrência é tremenda. “Mas uma vez que constróis a tua audiência, eles seguem-te e consomem o teu conteúdo como em qualquer outra rede.” Michelle Slavich, do YouTube, diz que o mais importante é começar tendo logo uma noção certa de quantos vídeos poderá carregar regularmente, porque a regularidade cria seguidores. “Usem redes sociais para galvanizar amigos e familiares, façam o vosso marketing.”

Jamie Spafford, da Sorted Foods, avisa para se começar com poucas expectativas. “Se vais começar alguma coisa agora, garante que seja algo de que realmente gostas e possas falar sem ter de pensar muito nisso.” Já Alexandre Santos incita a “nunca desistir mesmo, estar sempre em cima do acontecimento, escrever todos os dias, ser original, serem vocês mesmos, humildes, não ligar a ofensas, saber ouvir as críticas construtivas e trabalhar nelas.” NTS apela à sinceridade: “Mostrem o que sabem e principalmente o que são.” Diogo Sena é um pouco pessimista: “Começar neste momento é extremamente difícil”, porque o mercado está saturado e “ganhar público só com vlogues já não acontece como antes.” É preciso um misto de inovação, momento, criatividade, qualidade e distinção dos outros tantos milhões que estão a tentar. “Para se ter sucesso no YouTube é preciso ser inovador mas, acima de tudo, criar conteúdo de qualidade. E isto não é nada fácil.”

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