Tecnologia

Project Alloy. Não é realidade virtual, é realidade misturada

A Intel tinha revelado o Project Alloy no IDF, durante o verão do ano passado
A Intel tinha revelado o Project Alloy no IDF, durante o verão do ano passado

A fabricante de processadores Intel pretende licenciar óculos de realidade misturada sem fios, que funcionam sem computador e sem smartphone

Quando as luzes das árvores de Natal se começarem a acender este ano, todos os grandes players terão os seus óculos de realidade virtual no mercado. Oculus Rift, PlayStation VR, HTC Vive e Gear VR vão competir pela atenção de consumidores ávidos pela tecnologia. Desta vez é a sério, e há muito dinheiro a entrar no segmento: de acordo com a consultora IDC, as receitas globais de realidade virtual e realidade aumentada vão disparar de 4,6 mil milhões de euros em 2016 para 143,6 mil milhões em 2020. É um crescimento anual composto de 181,3%.

Mas o que está a impulsionar o negócio é sobretudo o segmento de videojogos. E o potencial nas empresas? Na investigação? É aqui que a nova estratégia da fabricante de processadores Intel pode fazer a diferença.

“Desde a introdução do PC, nada redefiniu de forma tão fundamental o que é possível fazer com a computação”, declarou Brian Krzanich, o CEO da fabricante, durante a apresentação de arranque do Intel Developer Forum (IDF), em São Francisco. O gestor referia-se à realidade virtual e ao impacto que terá na forma como trabalhamos, comunicamos e nos entretemos. Só que os sistemas que existem hoje dependem ou de um smartphone, como é o caso do Gear VR da Samsung e de outras interações do Google Cardboard, de um computador de elevada potência, como o Oculus Rift e HTC Vive, ou de uma consola, caso da PlayStation VR.

“Queremos mudar isso de forma radical”, anunciou Krzanich segundos antes de revelar o Project Alloy. Não são óculos de realidade virtual, nem aumentada, mas sim um sistema de realidade misturada.

O Project Alloy tem o módulo de computação e de processamento gráfico integrado. Inclui bateria e a tecnologia de câmaras e sensores RealSense permite ao sistema mapear o ambiente que o rodeia e evitar obstáculos. “É um mundo virtual completamente autónomo”, indicou Krzanich. Sem fios, sem estar ligado a computadores ou consolas e permitindo ao utilizador mover-se livremente.

A Intel está agora a conversar com parceiros e a sua intenção é tornar o design do Alloy open-source e abrir a interface de programação RealSense, para que qualquer programador ou empresa possa construir o seu próprio sistema recorrendo aos fornecedores de hardware que bem entender.

Questionada sobre os detalhes da iniciativa, a Intel explicou ao Dinheiro Vivo que “a previsão é 2017 e apenas mais perto do final do ano devemos ter informação adicional ao projeto”. Esses pormenores serão revelados durante a conferência WinHec Fall 2016, que decorrerá em novembro em Shenzhen, China.

Tuong H. Nguyen, analista de tecnologias pessoais na consultora Gartner, esteve no IDF e achou o projeto intrigante. “Este ainda é um mercado muito novo. Ainda não há players dominantes”, refere ao Dinheiro Vivo. “Mais fabricantes de topo equivale a maior concorrência, e isso significa que o mercado vai beneficiar em termos de competição nos preços, avanços tecnológicos, desenvolvimento e maturidade”, sublinha. “É uma ideia promissora”, ressalvando que é “demasiado cedo” para especular sobre o seu impacto.

Realidade misturada

Se a demonstração que a Intel fez em palco for um prenúncio, então é expectável que o Alloy venha a influenciar fortemente o mercado – em especial nos segmentos que hoje não beneficiam muito da geração corrente de óculos de realidade virtual. A demo foi conduzida pelo engenheiro Craig Raymond, que mostrou como as câmaras RealSense analisam o ambiente externo para que o utilizador não caia escadas abaixo ou bata na parede da sala, por exemplo. Melhor: se alguém aparecer de repente, a pessoa “entra” no mundo virtual que o utilizador está a ver. Em vez de um controlo remoto ou de um controlador de jogo, o utilizador pode usar as mãos para interagir com o ambiente virtual e trazer objetos reais para dentro da imagem. Na demo, que se assemelhava ao interior de uma nave especial, Raymond tirou dinheiro do bolso e as notas de dólar apareceram no ambiente virtual. As aplicações são tremendas, e caberá agora aos programadores usarem a tecnologia para criarem experiências úteis. “É a isto que chamo realidade misturada”, explicou o CEO da Intel. “Mobilidade em seis graus, sem necessidade de sensores externos, utilização das mãos como controladores e a fusão dos mundos físicos e virtuais.”

Se esta noção parece familiar, é porque a Intel não é a primeira a falar dela. Este é o mesmo conceito dos óculos holográficos da Microsoft, HoloLens, que foram apresentados em fase de protótipo em janeiro do ano passado. Neste caso, os óculos não cobrem totalmente os olhos do utilizador, e em vez de o levarem para um ambiente virtual, acrescentam hologramas ao mundo físico. Naturalmente, as duas empresas encontraram terreno comum e criaram uma parceria para juntar os hologramas da Microsoft ao Project Alloy. O responsável do grupo Windows e Devices Terry Myerson apareceu no IDF para anunciar que, em 2017, a empresa vai lançar um update ao Windows 10 que incluirá o seu software holográfico. Todos os computadores poderão conectar-se a óculos deste estilo e interagir com hologramas 2D e 3D. “As otimizações que estamos a fazer vão incluir o Project Alloy”, anunciou. Em resumo: os hologramas estão muito mais perto de chegarem às massas do que podíamos imaginar há alguns meses.

Mercado de impacto

“Com a Intel a dar um empurrão a um ecossistema aberto, a sua tecnologia RealSense poderá ajudar a impulsionar o desenvolvimento e a integração de tecnologia de realidade misturada”, afirma ao Dinheiro Vivo o analista da Juniper Research Joe Crabtree. No entanto, avisa, isto será limitado pela concorrência dos players que já oferecem produtos de consumo, sendo este mercado dominado por jogos e entretenimento. Também haverá questões técnicas a resolver.

“Embora a autonomia do sistema marque uma melhoria no desenvolvimento totalmente imersivo, o Project Alloy poderá sofrer de problemas de desempenho daí resultantes, tais como sobreaquecimento e aumento do peso da unidade”, explica. “A tecnologia poderá ter tração mais significativa nos mercados empresariais, em particular com oportunidades nos segmentos da medicina e educação, dada a possibilidade de usar as próprias mãos e integrar o ambiente físico.”

É precisamente onde interessa à Microsoft pôr o pé com o seu sistema holográfico – e por consequência o Windows 10. À Intel, interessa pôr os seus chips nos sistemas que poderão revolucionar o futuro. E para os consumidores, tudo isto é o prenúncio de uma nova revolução tecnológica, num mundo pós-smartphones e pós- -aplicações.

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