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Próxima fronteira da IA: o computador que debate com humanos

Na primeira apresentação pública, o IBM Debater argumentou com Dan Zafrir os prós e contras da telemedicina
Na primeira apresentação pública, o IBM Debater argumentou com Dan Zafrir os prós e contras da telemedicina

Assistimos em exclusivo ao primeiro debate externo do IBM Debater, um sistema capaz de escrever discursos e esgrimir argumentos com humanos

Gritar com a senhora do navegador GPS, insultar a lentidão do smartphone e dizer à Siri que é uma inútil são tentações em que os utilizadores caem com frequência, apesar de saberem que não faz sentido discutir com dispositivos tecnológicos. Ou não fazia, até agora: através de um ambicioso projeto iniciado pela IBM há seis anos, passou a ser possível debater com um supercomputador.

A primeira troca pública de argumentos entre o sistema IBM Debater e dois profissionais do debate, Noa Ovadia e Dan Zafrir, aconteceu ontem num evento privado em São Francisco a que o Dinheiro Vivo teve acesso. Foi uma demonstração notável das capacidades de um sistema que quebrou várias barreiras tecnológicas, ao conseguir preparar um discurso coerente em poucos minutos e refutar os argumentos do oponente em tempo real. O primeiro tema foi sobre se o governo deve subsidiar a exploração espacial e o segundo sobre a utilização de telemedicina. A compreensão de linguagem, a construção da argumentação e a adição de técnicas de persuasão tipicamente humanas não foram menos de impressionantes.

“A ideia de debater com um computador era ficção científica”, estabeleceu o diretor da IBM Research, Arvind Krishna, ao apresentar o Project Debater. “Este é um primeiro grande passo”, afirmou, explicando a forma como o sistema funciona: pega num assunto complexo que lhe é dado e arquiteta uma argumentação convincente com linguagem autónoma.

Isto significa que nada do que o supercomputador diz foi pré-programado ou faz parte de um guião. O Debater não é treinado em tópicos específicos, mas sim na capacidade de analisar informação e transformá-la em argumentos. A inteligência necessária para fazer isto é notável e vai muito além das capacidades que foram necessárias para que o o Deep Blue derrubasse Gary Kasparov (1997) ou para que o Watson vencesse o jogo Jeopardy (2011).

São três níveis de sofisticação: utilização dos dados, escrita de um discurso e entrega do mesmo, com compreensão da linguagem do oponente e dos dilemas humanos.

A máquina vence o humano

Ao contrário de um jogo, é difícil determinar quem venceu um debate. Os indicadores são subjetivos e é normalmente o sentimento da audiência que dá pistas neste sentido. Nos dois debates a que assistimos em São Francisco, o IBM Debater venceu o segundo, ao ser capaz de convencer uma parte da audiência a mudar de ideias. Os oponentes que enfrentou eram bastante fortes: primeiro Noa Ovadia, a campeã israelita de debates em 2016, depois Dan Zafrir, presidente da Sociedade Internacional de Debate de Israel.

Nem o supercomputador nem os oponentes tiveram conhecimento dos tópicos em debate até poucos minutos antes do início. Noa Ovadia explicou ao Dinheiro Vivo que costuma ser assim nos desafios e que uma das qualidade necessárias para ser um bom argumentador é ter conhecimentos alargados sobre todo o tipo de tópicos.

“O Debater nunca foi treinado para discutir estes assuntos”, esclareceu Arvind Krishna. Então como conseguiu debatê-los? O supercomputador tem um repositório com centenas de milhões de documentos e um gráfico de conhecimento que lhe permite fazer conexões e perceber o que pode usar para estruturar uma argumentação coerente.

“Não posso dizer que isto faz o meu sangue ferver porque não tenho sangue”, disse o Project Debater a meio da refutação no debate com Dan Zafrir sobre se deve ou não ser aumentado o uso de telemedicina. O sistema fez várias referências ao facto de ser uma máquina, emulando uma espécie de autoconsciência, e introduziu alguns detalhes humorísticos aqui e ali. A gramática e estrutura de frases foi perfeita, de uma forma que impressionou o investigador Chris Reed da Universidade de Dundee, na Escócia, que voou da Europa só para assistir a este primeiro debate fora das salas secretas de pesquisa da IBM.

“Ver tantas peças do puzzle a encaixarem-se aqui é impressionante”, comentou Reed, que dirige o centro para tecnologia argumentativa na Universidade. “Para mim, a argumentação é uma das características que define o que significa ser humano.” É, continuou, o motor que faz avançar a ciência e que dá forma às normas sociais.

“É impressionante que o sistema seja capaz de usar a estrutura gramatical correta, sem erros, bem como a organização estrutural.” Chris Reed também sublinhou a capacidade de introduzir citações no meio do discurso e das tentativas de humor. “Conseguiu até a prolepse, isto é, ser capaz de antecipar e refutar os argumentos da oposição antes sequer de serem feitos.”

Seis anos depois do início do projeto, que é conduzido por Noam Slonim e Ranit Aharonov na IBM Research em Haifa, Israel, os resultados são “algo extraordinário”, classificou Reed.

A próxima fronteira

A apresentação de ontem foi o culminar de dois anos de debates dentro da IBM, em que os investigadores conseguiram fazer o sistema evoluir consideravelmente. Por exemplo, explicou Noam Slonim, o Debater tem vários níveis de confiança e as suas declarações são tão mais assertivas quanto maior a confiança que tem na força da sua posição. “Tal e qual como nos humanos”, brincou. Uma vez que não acede à web em busca de informação e que só tem no repositório fontes fiáveis, a base dos argumentos do Debater é muito factual. O que ainda lhe falta é algum tacto, mas a equipa conseguiu formalizar os traços comuns que existem na arte de debater de uma forma que nunca tinha sido feita num dispositivo artificial.

“O sistema está a escrever o seu próprio artigo de opinião de raiz”, explicou Noam. “A refutação implica ouvir o adversário e ter um discurso espontâneo sobre assuntos éticos e complexos.” Para um humano, isto é fácil; para um computador, não. Mas a verdade é que, com o Debater, a IBM atingiu “quase 100% de precisão.”

Ranit Aharonov referiu também que o sistema tem de navegar num território incerto em que não existe um sistema de pontuação matemático a partir do qual melhorar. “É algo único.”

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